NÃO HÁ DIVÓRCIOS BONS

Pedro Vaz Patto, Voz da Verdade, 2015.10.04

Tem agora início a assembleia do sínodo dos bispos dedicada à família. Espera-se que nela seja dado um enfoque especial às famílias feridas, designadamente as marcadas pelo divórcio. A propósito desta questão, já várias vezes sublinhei a importância de, mais do que tentar remediar o que, sob certos aspetos, é já irremediável, prevenir e evitar essas feridas. Para tal, são imprescindíveis uma boa preparação para o casamento e a ajuda aos casais com dificuldades no seu relacionamento. E a consciência clara de que o divórcio não é uma fatalidade, o divórcio pode ser evitado.
O discurso mais corrente vai, porém, em sentido contrário. Quantas vezes não se ouve dizer: «Mais vale um bom divórcio do que um mau casamento». Maléfico não seria o divórcio em si mesmo, mas a conflitualidade que por vezes lhe está associada. O livro de Elizabeth Marquard Between Two Worlds – The Inner Lfess Of Chlldren of Divorce (Three Rivers Press, Nova Iorque, 2005) vem desfazer esse mito, o mito do “bom divórcio”. Fá-lo de forma bem sustentada: na experiência da própria autora (“filha de um bom divórcio”) e numa vasta investigação. A sua conclusão é a de que o divórcio (mesmo aquele a que normalmente se chama um “bom divórcio”, sem conflitos e com a manutenção de bons relacionamentos com ambos os progenitores) nunca é bom. E até um casamento não inteiramente satisfatório mas sem graves conflitos (unhappy and low conflict marriage), como são cerca de dois terços dos que terminam em divórcio, é menos maléfico para os filhos do que um “bom divórcio”. Sendo que esse casamento “infeliz” pode tornar-se “feliz”. 
Elzabeth Marquard não se refere aos dramas mais frequentes nas crianças vítimas do divórcio do que nas que têm os pais unidos , mas que naquelas estão longe de se verificar sempre (insucesso escolar, delinquência, problemas graves de saúde). Refere-se a uma experiência que, de uma ou de outra forma, essas crianças experimentam sempre (e ela própria experimentou): deixam um núcleo familiar em que elas são centrais e passam a viver divididas entre dois mundos, em nenhum dos quais se sentem verdadeiramente em casa. Enfrentam precocemente dramas próprios dos adultos e fazem-no numa grande solidão. Aspetos perfeitamente naturais quando os pais estão unidos (como o orgulho em ser semelhante a qualquer um deles) tornam-se problemáticos.
O drama destas crianças é normalmente silenciado e negado (o que o agrava ainda mais) e é daí que nasce o mito do “bom divórcio” e aquilo a que a autora deste livro chama “happy talk” sobre o divórcio: uma visão edulcorada e desligada da realidade. A cultura dominante pretende dessa forma conciliar o “direito ao divórcio”, encarado como conquista indeclinável dos tempos atuais e corolário da “sacrossanta” autonomia individual, com o respeito pelo bem-estar das crianças. Mas essa conciliação não é possível, como demonstram as bem fundamentadas conclusões deste livro.
Não se trata de culpabilizar as pessoas divorciadas (muito menos as que o são involuntariamente), nem de desvalorizar os esforços no sentido de evitar a conflitualidade associada a muitos divórcios. Trata-se de alertar para a importância de fortalecer qualquer casamento e fazer todo o possível para evitar o divórcio. Que não deve ser comparado só a um “mau casamento”, porque um “mau casamento” também não é uma fatalidade.
Proclamar a indissolubilidade do casamento é ser fiel ao Evangelho. E, por isso mesmo, é também contribuir para ao bem das pessoas, das crianças, das famílias e da sociedade.
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