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A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: Pedro Afonso

O suicídio não deve ser notícia sensacionalista

Pedro Afonso Observador 30/6/2016 O suicídio é um problema de saúde pública, e o tema não deve ser abordado de forma sensacionalista. Cada caso encerra um mistério, uma história de vida muitas vezes dramática, e com grande sofrimento. Recentemente fomos confrontados com notícias trágicas de duas mulheres que, em locais diferentes e com pouco tempo de intervalo, fizeram tentativas de suicídio, juntamente com os seus filhos menores (suicídio-homicídio). Estes casos tiveram uma enorme cobertura pela comunicação social, tendo gerado uma grande consternação e indignação na população. Apesar de aparentemente estas situações terem na sua origem patologia psiquiátrica, importa refletir sobre as consequências e os perigos de se divulgar os suicídios, de forma sensacionalista, na comunicação social. Há muito tempo que se sabe que o suicídio não deve ser publicitado, de forma sensacionalista, pelos perigos que advêm do efeito mimético que a sua divulgação pode provocar em pessoas fragi...

A mudança de género e a antipsiquiatria

Pedro Afonso Observador 25/4/2016 Mudar de género não é a mesma coisa que “mudar de penteado”, pois tem um impacto psicológico, familiar e social profundo. Seria uma enorme irresponsabilidade expulsar a psiquiatria deste processo. Foi noticiado recentemente que o Bloco de Esquerda defende uma alteração da legislação, tendo em vista possibilitar que qualquer cidadão, a partir dos 16 anos de idade, possa apresentar um pedido de mudança de sexo, dispensando para o efeito um relatório clínico. A atual lei de mudança de sexo e de nome próprio no registo civil (Lei n. 7/2011 de 15 de Março) limita este procedimento as pessoas maiores de idade, que não se mostrem interditas ou inabilitadas por anomalia psíquica, e a quem seja diagnosticada perturbação de identidade de género (também designada como transexualidade). É ainda necessário a apresentação de um relatório (subscrito por um médico e um psicólogo) que comprove o diagnóstico. Mudar de género não é a mesma coisa que “mudar d...

A irresponsabilidade familiar das empresas

Pedro Afonso Observador 9/4/2016 Trabalhamos cada vez mais horas, passámos a levar trabalho para casa e um dos problemas é consideramos que é “normal” trabalhar diariamente 10-12 horas, ideia com raízes em várias áreas de atividade. Perante as acusações de capitalismo predatório e desumanizado, alimentado pela obsessão do lucro, muitas empresas responderam com algumas medidas, adotando voluntariamente comportamentos e ações destinadas a promover o bem-estar da coletividade. Estas medidas são conhecidas como “políticas de responsabilidade social”. Todos recordamos alguns exemplos de campanhas de solidariedade e de angariação de verbas para instituições de solidariedade social, promovidas por empresas, principalmente em períodos como o Natal. Mas existem outros problemas muito mais graves (porque nos afetam a todos) que surgem atualmente em muitas empresas, e que estão a transformar-se num verdadeiro desastre social. Refiro-me ao excesso de carga horária semanal e à invasão ...

As redes sociais e a cultura da imaturidade

Pedro Afonso Observador 10/3/2016 O Facebook funciona muitas vezes como um “buraco negro” que suga as mentes de muitas pessoas, criando um estado regressivo coletivo. O pensamento para, a introspeção e a autocrítica deixam de existir. As redes sociais vieram mudar significativamente as nossas vidas. A emigração maciça da vida social real para o mundo virtual das redes sociais da internet corresponde, num sentido lato, à maior emigração humana da história. Ninguém sabe exatamente quais são as consequências que decorrem deste novo estilo de vida passado na internet, embora já haja alguns estudos. Por exemplo, a utilização excessiva da internet e das redes sociais está associada a depressão, a uma baixa autoestima e a sentimentos de isolamento. Além disso, a utilização regular das redes sociais, e mais concretamente do Facebook, tem sido associada a um maior risco de divórcio e de relacionamentos extraconjugais. Um inquérito realizado junto da American Academy of Matrimonial ...

A Eutanásia e a Psiquiatria

Pedro Afonso Expresso | 05.03.2016 Numa crónica intitulada “A morte”, publicada na revista do Expresso no passado dia 20 de Fevereiro, o meu colega José Gameiro, referindo-se a um texto de opinião que publiquei no jornal Observador sobre a eutanásia, acusou-me de ter expresso uma ideia manipulatória, cientificamente errada, revelando um desconhecimento que só pode ser justificado pelas minhas convicções. Mais à frente escreve que nunca um doente deprimido poderá ser sujeito a eutanásia ou a suicídio assistido. A ideia que expressei não é de fato manipulatória; manipulação é defender a eutanásia como sendo um ato piedoso, já que um doente incurável ou terminal pode ser facilmente manipulado e arrastado para o suicídio. Se a vida humana não vale por si mesmo, qualquer um pode sempre instrumentalizá-la em função de qualquer finalidade ou objetivo contingente. Refuto a acusação de que o meu texto de opinião é incorreto cientificamente, nem tão-pouco posso concordar com a afirmaç...

Eutanásia: uma compaixão falsificada

Pedro Afonso | Observador 5/2/2016 A legalização da eutanásia abre um caminho perigoso, pois há quem defenda, face aos custos crescentes de saúde, que a medicina deve suspender os tratamentos mais onerosos a doentes idosos e incuráveis A eutanásia corresponde ao ato de provocar deliberadamente a morte a um doente incurável para que, através deste “ato piedoso”, se ponha fim ao seu sofrimento. Numa altura em que a Assembleia da República se prepara para discutir a legalização da eutanásia, justifica-se um debate sobre este tema. Um dos argumentos utilizados para a legalização da eutanásia é que estas pessoas têm o direito a uma morte digna, o que que não passa de um eufemismo maniqueísta, como se a morte daqueles que decidem de forma corajosa enfrentar os inúmeros sofrimentos e provações que lhes acarreta a doença fosse uma morte indigna. Uma outra ideia errada dos defensores da eutanásia é a de que o nosso corpo é nosso, logo quando esse corpo é acometido de uma doença incur...

“O trabalho sombra”: uma praga invisível

Pedro Afonso Observador 7/12/2015 Se o trabalho sombra pode trazer vantagens, reduzindo preços e alargando a oferta de bens e serviços, é bom não esquecer que rouba tempo e energia, contribuindo para uma sociedade mais desumanizada. Com o corrupio das compras de Natal, para se poupar tempo, as caixas self-service disponíveis nos hipermercados são cada vez mais utilizadas. Curiosamente, enquanto os clientes passam freneticamente os produtos pelo leitor do código de barras, muitas vezes a funcionária da caixa permanece imóvel, numa aparente indolência, em frente a um ecrã de computador. Perante esta situação algo caricata, é justo colocar a seguinte pergunta: Mas por que é que andamos a fazer isto? Atualmente realizamos ao longo do dia vários trabalhos que há algum tempo atrás eram executados por profissionais. Por razões de rentabilidade económica, as grandes empresas estão a transferir os custos do trabalho para os consumidores. Senão, vejamos: quando vamos à bomba de gaso...

Entrevista ao Psiquiatra Pedro Afonso - “Prescrição médica: uma noite por semana à luz da vela”

Público | 22/09/2015 - 07:16   O psiquiatra Pedro Afonso lança esta terça-feira o livro Quando a mente adoece. Nele, olha com preocupação para “o endeusamento do trabalho” e defende que as escolas deveriam ter nos seus programas horas dedicadas ao voluntariado. Para ensinar a empatia desde cedo. Tudo começou num dia em que a electricidade faltou. Nessa noite não houve Internet, televisão, Playstation. Pais e filhos passaram o serão em redor de uma vela. Conversaram, contaram histórias e o tempo passou. A partir desse dia, a família passou a ter uma vez por semana uma noite sem luz. O psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa Pedro Afonso ouviu contar esta experiência a um conhecido e, no seu livro  Quando a mente adoece , transforma "uma noite por semana à luz da vela” em "prescrição médica". Prescrever a abstinência tecnológica durante uma noite por semana pode ser visto como “uma provocação”, ou um conselho literal, mas o que Pedro Af...

Os neurónios espelho e a campanha política

PEDRO AFONSO Observador 16/08/2015 Infelizmente, os vínculos dos cidadãos com os políticos são cada vez mais frágeis e erráticos. Uma das maiores descobertas recentes das neurociências ocorreu, na década de 90, por mero acaso quando uma equipa de investigadores italianos realizava um estudo em macacos Rhesus. Um dos investigadores da equipa, liderada por Giacomo Rizzolatti, entrou no laboratório e começou a comer um gelado. O macaco olhou-o fixamente e depois aconteceu uma fenómeno espantoso: uma região do córtex pré-motor foi ativada, como se o próprio macaco estivesse a comer o delicioso gelado. Este fenómeno deu origem à descoberta dos “neurónios espelho”, que são células nervosas que espelham o ambiente no cérebro do observador e são fundamentais na socialização. A ativação dos neurónios espelho ajuda-nos a compreender muitas coisas do dia a dia, quando por exemplo nos surge um conjunto de emoções (indignação, revolta, tristeza, etc.) ao observarmos um vídeo de uma notíc...

A idolatria absurda das 40 horas de trabalho semanal

PEDRO AFONSO Observador 05/05/2015 Tem-se vindo a criar um clima de pressão insustentável para que se considere “normal” cumprir uma jornada de trabalho que vai muitas vezes além das 50 horas semanais. O actual Governo alterou o horário de trabalho na função pública das 35 para as 40 horas semanais. Já com a troika ausente do nosso país, resiste em repor o horário anterior, alegando que este alargamento aumenta a produtividade, reduz custos (por exemplo, no pagamento das horas extraordinárias) e acaba por ser uma medida justa, já que equipara o horário de trabalho do sector público ao do sector privado. Esta medida constitui um erro político pelas razões que passarei a expor. Em primeiro lugar, subsiste, em muitos políticos e empresários, a crença errada de que presença prolongada no local de trabalho é sinónimo de maior produtividade e compromisso laboral. Esta ideia é falsa. A produtividade cai inevitavelmente com o cansaço, pois a nossa capacidade de concentração é limitada...

Legalização das drogas leves: uma irresponsabilidade política

Pedro Afonso Público 17.02.2015 A ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, defendeu recentemente, numa entrevista à TSF, a legalização da venda de drogas leves em Portugal e a sua venda nas farmácias. De acordo com a sua argumentação, os ganhos para os cidadãos seriam alcançados graças à diminuição de outros crimes.   Infelizmente,  a sra. ministra parece desconhecer que  as designadas "drogas leves" não são, na realidade, assim tão leves, já que podem provocar danos gravíssimos a quem as consome. Tomemos como exemplo o cannabis. Esta droga muito popularizada e consumida na nossa sociedade, inclusivamente por jovens, pode contribuir para o aparecimento de várias doenças psiquiátricas.     O consumo de cannabis (excluindo, obviamente, a utilização restrita dos seus derivados para alguns fins terapêuticos) aumenta o risco do aparecimento de psicoses, que impedem uma pessoa de pensar adequadamente e interfere...

As reuniões de jovens pelo Facebook e a outra pobreza

PEDRO AFONSO Público, 29/08/2014 - 00:30 O problema reside na incapacidade que muitos destes jovens têm em planear o futuro e adiar a gratificação. Recentemente ficámos surpreendidos com um encontro de centenas de jovens no Centro Comercial Vasco da Gama, em Lisboa, convocado através do Facebook e que terminou com cinco agentes e um jovem de 15 anos feridos, e com dois jovens acusados de resistência e coação à autoridade. A abordagem de qualquer fenómeno desta natureza é sempre parcial e incompleta, pois cada um destes jovens mobilizados para estas ações através do Facebook tem um percurso de vida único. Além disso, é provável que nestes grupos haja vários jovens "normais" e bem adaptados. Mas afinal o que pode explicar alguns comportamentos antissociais? O que pensam estes jovens? O que sentem? Quais são as suas expectativas sobre a vida? Quando na infância e na adolescência não se reúnem um conjunto de condições para um normal desenvolvimento psíquico existem sempr...

Será que se aumenta a natalidade por decreto-lei?

PEDRO AFONSO Público, 20/07/2014 - 00:05 O Estado deve criar um sistema fiscal verdadeiramente "amigo da família". É conhecido por todos que Portugal tem um grave problema de natalidade. Com cerca de 1,2 filhos por casal, o nosso país apresenta uma das mais baixas taxas de natalidade do mundo, colocando problemas de sustentabilidade a vários níveis na sociedade. O PSD, que já deveria ter consciência desta realidade há mais tempo, decidiu finalmente nomear uma comissão para estudar o assunto e que propôs recentemente um conjunto de medidas legislativas de modo a incentivar o aumento da natalidade. Já se adivinhavam quais seriam algumas dessas  medidas propostas: maior justiça fiscal face ao número de filhos, alargar o acesso a creches e aumentar as atividades de tempos livres (ATL), flexibilizar os horários laborais para os pais, etc.  Apesar do sinal positivo de algumas destas propostas, a pergunta que se coloca é a seguinte: Será que é possível aumentar a natalidade p...

Um país a viver dentro de Wall Street

Pedro Afonso Público   25.05.2014  Uma das consequências deste período da passagem da troika pelo nosso país foi a criação de um sentimento colectivo de insegurança. Aquilo que há pouco mais de 4 anos era dado como estável e garantido (pensões, salários, emprego, etc.), subitamente deixou de o ser. Muitas pessoas foram apanhadas de surpresa por esta mudança e muitos ainda vivem perplexos e atordoados com as alterações que tiveram que fazer aos seus projetos de vida.  Além disso, existe um despojo de sofrimento colectivo impossível de quantificar, e que infelizmente, por esse motivo, não irá ser justamente valorizado, quando se escrever a história sobre este período difícil do nosso país. Um dos mecanismos de defesa maturo que o ser humano dispõe é a "antecipação".  Este mecanismo permite prever realisticamente uma situação futura desconfortável, causadora de sofrimento, perigosa ou ameaçadora. Mas para que a antecipação tenha sucesso, é necessário...

O escândalo da ociosidade forçada

PEDRO AFONSO | Público | 11/04/2014 - 00:11 Presentemente vivemos na nossa sociedade uma situação paradoxal: ao mesmo tempo que a esperança de vida dos portugueses tem aumentado significativamente, diminuem cada vez mais as ofertas de emprego em idades mais avançadas – ou seja, no mercado de trabalho atual, ficar desempregado com pouco mais de 40 anos é praticamente uma condenação à "ociosidade forçada", já que as possibilidades de encontrar um novo emprego são muito reduzidas. O homem não é vocacionado para viver na ociosidade. Para além de ser uma característica que nos distingue das restantes criaturas, o trabalho é um elemento central da dignidade humana. A possibilidade de se ter  uma ocupação útil para a sociedade, e através dela ganhar legitimamente a vida, é uma condição essencial para o equilíbrio psíquico de qualquer pessoa. Por mais argumentos económicos que se utilizem e se recorra a diversos exercícios de retórica política, impedir que um indivíduo, no m...