Os tiros do PS

André Macedo
DN 20151028
O PS terá pela frente um dos maiores desafios da sua história - isto se o Presidente da República engolir o pântano de sapos, como tão bem lhe chamou Miguel Sousa Tavares, e acabar por nomear António Costa primeiro-ministro após a queda de Passos & Portas. Além de ser um pantagruélico desafio para os socialistas, é-o também para o país, que pode ter pela frente um líder de governo que não ganhou as eleições, mas que conseguiu (ao que parece) montar uma complexa equação partidária que levanta várias interrogações. É nesta atmosfera rarefeita que António Costa se move e por isso espanta a atitude beligerante que mantém em relação a tudo o que mexe à sua direita. Ontem, logo após Passos & Portas terem anunciado o governo possível nestas circunstâncias - um grupo de ministros com prazo de validade à vista -, o PS atacou em bloco todas as escolhas. Os ministros da PàF são todos maus porque são do PSD e do CDS, ponto final. Se Cavaco Silva foi sectário, o que dizer desta resposta? Esta exibição de cinismo fica mal a um governo que ainda não o é; e que deveria fazer algum esforço construtivo nem que fosse em interesse próprio. Costa tem legitimidade para formar governo - se e quando o de Passos cair. Mas essa legitimidade implica não viver sempre em negação. António Costa pode governar, mas há um défice ético (um pecado original) em todo o processo que o diminuirá se ele não tiver a inteligência de ser maior do que as circunstâncias que o levaram - vão levar, se não acontecer nada entretanto - a S. Bento. Ao varrer com chumbo grosso um executivo que não maravilha mas que também não embaraça, António Costa está outra vez a bater a porta na cara do PSD-CDS e a elevar a expectativa em relação aos nomes que irá apresentar. No tempo certo veremos qual será a abertura do PS à famosa sociedade civil. Veremos em que grau ficou refém dos compromissos que o conduziram ao poder e se esse acordo afastou ou não gente de qualidade. É o que veremos. Fazer política implica negociar, não apenas atacar.
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