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O que se pode e deve discutir a propósito de Sócrates

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MIGUEL POIARES MADURO        OBSERVADOR          09.05.2018 A existência de pagamentos privados, desconhecidos do público, a agentes políticos e do espaço público corrompe a integridade da própria democracia ainda que não se possa provar corrupção em tribunal. Misteriosamente, durante os últimos anos o país foi incapaz de discutir a dimensão política e ética do comportamento de um ex-primeiro-ministro perante factos que não apenas permitiam como exigiam essa discussão. Com o pretexto de deixar à justiça o que é da justiça e à política o que é da política “impediu-se” um debate essencial sobre o caso mais grave de suspeita sobre a integridade de um governo em democracia e que mais nos poderia ensinar sobre o que está mal na nossa cultura política. Separar a justiça da política impõe certamente não interferir em processo judiciais. Mas separar a justiça da política impõe também não “atirar” para a justiça o juízo ético e político ...

O silêncio dos indecentes

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JOÃO MIGUEL TAVARES    05.05.2018 A era dos cegos chegou ao fim. Sejam bem-vindos à era dos sonsos e dos enganados. Quem lutou pelo fim da primeira não pode simplesmente engolir a segunda. Estive dez anos a aguardar por este momento, e como sempre acontece quando esperamos demasiado, não foi tão bom quanto imaginei. Mil duzentos e cinquenta e nove dias depois de José Sócrates ter sido detido no aeroporto de Lisboa (21 de Novembro de 2014); nove anos, seis meses e um dia após milhões de portugueses terem ouvido no Jornal Nacional da TVI Charles Smith afirmar que Sócrates era corrupto (27 de Março de 2009); o Partido Socialista descobriu finalmente, e em peso, que José Sócrates envergonhou o PS e desonrou a democracia. A era dos cegos chegou ao fim. Sejam bem-vindos à era dos sonsos e dos enganados. Quem lutou pelo fim da primeira não pode simplesmente engolir a segunda. Tomemos como exemplo Augusto Santos Silva, que à SIC declarou: “Se se verificar que algum dos meus...

Havia alguns corruptos ou era tudo corrupção?

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Video de Rui Ramos alerta para a corrupção como um problema de regime, em Portugal. Siga o LINK para o ver o video.

António Mexia, o último dos gestores (públicos)

HELENA GARRIDO    OBSERVADOR   08.06.17 A vida para além do défice público é ainda pior. A história da EDP é mais um exemplo do preço que pagamos pela indisciplina financeira. A corrupção pode não existir, mas prospera nestes ambientes. António Mexia é o último dos gestores-estrela a ser enleado nas redes da justiça. Ricardo Salgado, Henrique Granadeiro, Zeinal Bava e agora António Mexia. As estrelas da gestão foram caindo em menos de uma década, todas elas ligadas directa ou indirectamente a Ricardo Salgado e a negócios com o Estado. As nossas empresas e bancos de referência foram construídas pelo Estado e os seus gestores caem do pedestal quando o Estado ficou sem dinheiro. Pouco ou nada sabemos sobre o caso EDP, nomeadamente as razões que levaram  o Ministério Público a considerar  que estão “em causa factos susceptíveis de integrarem os crimes de corrupção activa, corrupção passiva e participação económica em negócio”. Sabemos apenas que estão co...

António Costa admite que Rocha Andrade cometeu crime

João Lemos Esteves Sol, 2016.09.09 Como é que Rocha Andrade, depois de António Costa lhe dar este presente envenenado, se mantém no Governo?  1. O Governo avançou com – finalmente – com o tão prometido Código de Conduta. Esta foi a fórmula encontrada por Augusto Santos Silva para reagir à polémica conhecida (exageradamente) como “Galpgate”: a ida de responsáveis governativos com altas e exigentes responsabilidades – com especial  destaque para o Secretário de Estado das Finanças, Fernando Rocha Andrade – à bola de borla. Com todas as despesas pagas pela GALP. Em Agosto, o país indignou-se – António Costa permaneceu, serenamente e imperturbável, de férias, mandatando Santos Silva para responder não respondendo. Confuso, caro leitor? Nem por isso. 2.Responder não respondendo consiste precisamente no que o Governo fez – aprovar um Código de Conduta em termos vagos e imprecisos, que fixa deveres que os membros do Governo devem cumprir. Devem – e não “têm que cumprir...

Fernando Rocha Andrade: um académico apanhado por dois jogos de futebol

Vítor Rainho | SOL | 20160809 Anda na política há muitos anos, mas sempre teve a paixão pelo ensino superior. Aos 18 anos filiou-se no PS e fez um longo caminho ao lado de António Costa. Agora caiu nas  bocas do mundo por ter ido ver a Seleção a França a convite da Galp Estávamos em dezembro do ano passado e Fernando Rocha Andrade já era secretário de Estado dos Assuntos Fiscais quando foi defender a tese de doutoramento “em Direito (pré-Bolonha), na especialidade de Ciências Jurídico-Económicas, tendo obtido a classificação de Aprovado com Distinção e Louvor”. segundo se lê no site da Universidade de Coimbra. Fernando Rocha Andrade, apesar de ser um desconhecido para a maioria da população, é um homem que fez a sua carreira académica sempre com boas notas, e também sempre teve um gosto especial pela política. Há quem diga que entrou no PSaos 14 anos, mas os registos dão-no como militante a partir dos 18. Próximo de António Costa, foi seu subsecretário de Estado da ...

República de eunucos

João Taborda da Gama DN 20160807 Dei por mim, mal, esta semana, quando abordado por jornalistas, a não comentar dois casos por achar que a minha posição ia ser impopular. Um dos casos é o dos juízes que decidiram os contratos de associação, outro o dos secretários de Estado convidados pela Galp para o Euro. Vamos já tratar de resolver isso. Primeiro a Galp, o que teria eu feito, as razões para isso, e uma possível solução. Se tivesse sido convidado pela Galp para ir ver a final a Paris teria recusado por três razões, e nenhuma delas é a ética republicana. A primeira é que, salvo algumas recaídas pelo Sporting, não gosto o suficiente de bola para perder um dia nisso; outra é o meu pânico de aviões. Mas vamos supor que queria ir ver o jogo e não tinha medo de andar de avião. Não teria ido à mesma pela terceira razão, que é não aceitar viajar a convite de uma empresa privada. Mas esta decisão de não ir não teria sido tomada de olhos semicerrados, em conferência telepática com a alm...

Sabem tudo sobre preços e nada sobre valores

Paulo Ferreira Observador 20160807 Achar que o sentido de Estado se resgata com umas centenas de euros e que com o reembolso o caso fica encerrado é daquelas condutas e declarações que definem um padrão ético, ou a absoluta falta dele. No dia 9 de Março de 2013 Tim Davie foi assitir a um jogo de futebol entre o Manchester City e o Barnsley. Foi a convite do clube da casa. Não sei, nem interessa para o caso, se foi um bom jogo ou qual foi o resultado. Mas sei que Tim foi acompanhado do seu filho. Cerca de um ano depois, no dia 10 de Fevereiro de 2014, o seu colega James Purnell recebeu uma caixa com oito garrafas de “boudeaux”, como agradecimento pela palestra que tinha feito no jantar “Media and Entertainment” organizado por uma sociedade de advogados, a Nick Elverston, Herbert Smith Freehills LLP. Purnell foi o convidado de honra desse jantar, tendo participado sem cobrar qualquer “fee”. O vinho, esse, doou-o para um leilão de caridade. Tim Davie e James Purnell são dois ...

Explicando o que deveria ser inexplicável: um problema de cultura política

Miguel Poiares Maduro Observador 6/8/2016 O caso Galp resulta de uma cultura política de excessiva proximidade entre o poder político e o poder económico que favorece os conflitos de interesse e premeia menos o mérito e mais quem se conhece. Há um risco sério do caso envolvendo ofertas da Galp a membros do Governo se esgotar no cansaço mediático que os próximos dias vão trazer. Mas há um risco maior: o de em vez de constituir uma oportunidade para discutir e tirar consequências de um problema mais profundo de cultura política que temos, esgotarmos nele todos os problemas da nossa cultura política. Uma cultura política, a nossa, que explica, em boa parte, a dificuldade que a nossa democracia tem tido em oferecer respostas satisfatórias e sustentáveis aos nossos desafios económicos e sociais. Uma cultura política que parecíamos ter começado a mudar mas temo possa estar a reaparecer. Comecemos pelo “caso” para chegar depois à cultura política que o explica. O gabinete do ...

O problema de não se dar ao respeito

José Manuel Fernandes OBSERVADOR 20160804 Augusto Santos Silva gaguejou e hesitou, mas lá disse sem dizer: o que os 3 secretários de Estado fizeram não é ético, mas negamos hoje o que tornaremos lei daqui por umas semanas.  Até Augusto Santos Silva é um político experiente que raramente se atrapalha ou engasga. E é também suficientemente inteligente para não entrar em contradição na mesma frase. Mas não foi esse Augusto Santos Silva que se apresentou perante os jornalistas para defender que a ida de três secretários de Estado ao Europeu de Futebol era um “caso encerrado”. Não tenho por hábito sugerir ou pedir a demissão de membros do Governo, pois entendo que, em democracia, os eleitores têm sempre a possibilidade de julgarem quem exerce o poder no momento e no local adequado. Não é hoje que vou quebrar esse hábito, mas não posso deixar de analisar as palavras do ministro (que ali representou o primeiro-ministro) na defesa destes membros do seu Gabinete. Olhemos pois par...

Na cabeça de Francisco Louçã

JOÃO MIGUEL TAVARES Público 29/03/2016 - 07:58 Um dia eu gostaria de conseguir compreender uma cabeça de esquerda como a de Francisco Louçã. Aliás, queria pedir desculpas antecipadas a Francisco Louçã por estar a usar a sua cabeça. Ela está aqui no papel de sinédoque – assim como quem diz Moscovo para falar da Rússia toda –, enquanto cabeça representante de numerosas cabeças de esquerda que pensam mais ou menos o mesmo do que ele. A escolha recaiu na cabeça de Louçã por dois motivos: 1) é a cabeça de esquerda que neste momento tenho mais à mão; 2) resolvi escrever esta crónica após ler o seu texto “Brasil: um golpe de Estado em transmissão directa”. São José Almeida já assinou aqui no PÚBLICO um excelente artigo sobre o tema (“Corrupção é corrupção. Ponto final. Parágrafo”), alertando para o inconcebível relativismo moral que subitamente tomou conta de boa parte da esquerda portuguesa, que resolveu transformar Lula e Dilma em desamparadas vítimas da tenebrosa justiça brasileira....