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A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: Carlos Abreu Amorim

Fazer política

DN 2011-08-17 CARLOS ABREU AMORIM O último livro de Tony Judt, entre nós nomeado como Um Tratado Sobre os Nossos Actuais Descontentamentos, é uma análise "à esquerda" sobre algumas das encruzilhadas fomentadas pela degeneração do Estado social (em azedo estado de negação, portanto) e possui o condão de comprovar que o seu autor é muito melhor a historiar as agruras do nosso tempo do que a pensá-lo. Contudo, Judt faz uma interrogação essencial, em que me revejo, acerca da compulsividade actual de "limitar as considerações de política pública a um mero cálculo económico", reduzindo a lógica de apoio "a questões de lucros ou perdas". Salvaguardando as devidas distâncias com o caso português, cuja tradição tem sido a alegre dissipação de fundos públicos, não restam dúvidas de que hoje se abandonou a premissa básica que ensina que todas as decisões económicas dos poderes públicos são políticas e, como tal, deverão ser tratadas e exteriorizadas. Bem sei que ca...

Aqui ou na vida real?

DN20100804 CARLOS ABREU AMORIM 1. Um amigo que ainda fez o serviço militar obrigatório contou-me um episódio curioso: os recrutas estavam na parada a serem ritualmente insultados por um sargento. O bruto inquiria-os acerca das suas qualificações e profissões para, logo de seguida, os vilipendiar acerca disso. A dado passo, berrou a um magala com ar assustadiço: "O que é que tu fazes?" O rapaz balbuciou um elucidativo pedido de esclarecimento: "Aqui ou na vida real?"… 2. A duplicação tautológica das expressões que o modismo impinge gosta de discorrer sobre a divergência entre os "ritmos da justiça" e aqueles a que todos nós estamos sujeitos. Evidentemente, isso não passa de um disparate forjado por quem pretende desculpar o que não devia. A obscena lentidão da justiça não pode ser justificada com eventuais discordâncias naturais entre o seu exercício e a cadência em que o nosso tempo se move. Sejamos claros: a justiça é vagarosa porque funciona mal. Po...

Murcharam os cravos

DN 2010.04.28 Carlos Abreu Amorim As comemorações do 25 de Abril resvalaram em cerimónias funcionalizadas, secas, maçadoras, desprovidas de significado real ou alegórico para o País. Foram os discursos esperados, repisados, com as mesmas laudes aos putativos heróis recorrentemente citados, com as proclamações vazias e as juras políticas afins às dos anos anteriores e continuamente incumpridas - a excepção foi Aguiar-Branco, que, pelo menos, conseguiu induzir algum humor provocatório naquela baça manhã de domingo. O Presidente da República ainda tentou fabricar alguma confiança - mas fundar a reabilitação de um país arruinado por longas décadas de má governação no mar e nas indústrias criativas do Porto tresandou a um desejo de esperança já desesperada. Este regime atingiu um ponto tal de descrença em si próprio que já nem sequer consegue celebrar-se com o mínimo de convicção. Não admira - direitos fundamentais e Guerra Colonial à parte, pouco distingue o Portugal de hoje do País en...

Hino ao relativismo

Correio da Manhã, 20090225 Carlos Abreu Amorim A ministra inglesa das Crianças, Beverley Hughes, elaborou um panfleto que visa orientar as conversas sobre sexo entre pais e filhos. Trata-se de mais um marco na ingerência do Estado na função educacional das famílias. O documento exorta os pais a não imprimirem nos filhos a distinção entre o bem e o mal no plano sexual. Os menores deverão formar os seus juízos sem intervenção parental: o contexto social e, sobretudo, o Estado encarregar-se-ão disso. Os pais poderão ter conversas ‘light’ sobre o tema mas nada de quererem transmitir valores e virtudes ou de traçar cenários incómodos face a opções que se sabem erradas. Ou seja, o Governo trabalhista inglês quer que os pais deixem de o ser – só geram os filhos que, depois, ficam ao ‘Estado dará’.

A utopia do eduquês, Carlos de Abreu Amorim, Correio da Manhã, 080406

Heresias 06 Abril 2008 - 00.30h A utopia do eduquês É urgente regressar à lógica de que aprender implica um certo grau de sacrifício No último ‘Prós e Contras’ alguém definiu a Escola que temos como "a grande utopia". A receita é sempre a mesma – os nossos impostos devem pagar as quimeras de alguns iluminados. E tanto pior para a realidade. A prédica inseria-se num mar de ‘eduquês’, expressão achada por Marçal Grilo para designar a linguagem indecifrável de alguns teóricos e que se difundiu como símbolo da versão romântica da Escola Moderna – uma série desconcertante de chavões do tipo "aprendizagem ao ritmo dos alunos" ou "ensinar a criança e não a matéria" que redundaram no facilitismo reinante e na crise actual da escola pública. É urgente regressar à lógica de que aprender implica um certo grau de sacrifício. O aluno tem de interiorizar que o seu esforço compensa e que os resultados não são ‘tanto faz’. Para que a Escola prepare para a vida terá...