Pouca-vergonha
João César das Neves DN 20161007 A sociedade da informação trouxe-nos grandes vantagens, mas também grandes perdas. Uma das mais preciosas é a vergonha. Bisbilhotice e coscuvilhice são velhos vícios boçais. Contar segredos alheios é uma forma de voyeurismo metediço que, em casos escabrosos, chega à sórdida luxúria. A sua origem última é o orgulho. O abelhudo sente prazer pela ascendência que exerce, o que torna a patologia mais frequente nos que não têm poder ou o perderam. Um chantagista suscita repugnância generalizada por torturar e espremer a vítima com uma inconfidência. Publicar os podres alheios é, em certa dimensão, bastante pior, fazendo sem apelo aquilo que muitos pagariam muito para evitar. Julian Assange anunciou revelações no site WikiLeaks com alegados efeitos na eleição norte-americana. Significativamente, a ameaça é não para Donald Trump, mas para Hillary Clinton. Isto confirma algo que há muito devia ser evidente: o projecto WikiLeaks é ataque aberto contra a...