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A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: Raul de Almeida

Viver a vida

RAUL DE ALMEIDA         07.11.2017        JORNAL ECONÓMICO   Convirá recordar que os grandes monstros que a história recorda são precisamente os que se libertaram deste princípio de inviolabilidade da vida humana, do respeito do seu curso natural, da noção da sua transcedência. No último fim de semana, nas grandes cidades caminhou-se pela Vida. O grande número de pessoas presente, a transversalidade social e etária, o ânimo dos presentes e a alegria contagiante que se viveu, atestam a profunda importância deste testemunho. Num mundo em que os poderosos abrem um fogo contínuo e inclemente sobre aqueles que defendem a preservação dos valores fundacionais da nossa civilização, resistir exige coragem e, acima de tudo, profundidade de convicções. Cada manifestante, cada cidadão que se mobiliza, sabe desde cedo que tão grande é a importância do que defende quanto é grande a força impiedosa de quem se lhe opõe. Os media e ...

Orgulho e responsabilidade

RAUL DE ALMEIDA    JORNAL ECONÓMICO  04.07.17 Assinalamos por estes dias a passagem de 150 anos sobre o fim da pena de morte em Portugal. O Decreto assinado por D. Luiz antecedeu em muito as decisões similares que felizmente se foram implementando pela Europa. Será relevante recordar que a Alemanha Ocidental só aboliu esta prática em 1949, o desenvolvido e democrático Reino Unido em 1965 e a França, intitulada a terra dos direitos, liberdades e garantias, em 1981, com reconecimento constitucional apenas em 2007. É importante ter presente que países democráticos com vários indíces de desenvolvimento de altíssimo nível, como os Estados Unidos e o Japão, ainda consagram na sua legislação a pena capital. Não é de estranhar, mas igualmente de lamentar, que a maioria das ditaduras gostou e gosta desta possibilidade de ter o Estado a tirar a vida ao homem por meios legais. Foi assim na Alemanha de Leste, até às vésperas da sua queda, é assim na China, no Irão ou na A...

Uma gloriosa revolução

RAUL DE ALMEIDA  28.03.17  JORNAL ECONÓMICO  A crise do Ocidente é moral e ideológica, não é económica. Só uma revolução de ideias, compromisso, mobilização coletiva e valorização da Pessoa nos pode salvar de um destino estéril.  Não me canso de falar ou de escrever sobre os riscos da morte das ideologias, da sumissão da política ao primado de uma governação economicista. Mais do que nunca, no choque de civilizações em curso, na dispersão do sentimento de pertença europeu, as ideologias fazem falta, o regresso do primado da política é urgente. O mundo ocidental, o que ainda resta dele, está exangue, desorientado, sem uma ideia mobilizadora, sem um rumo que conduza a um projecto futuro, que exija o regresso da  Pessoa  ao centro de tudo. Enquanto a lógica orientadora do exercício do poder se fundar no condicionamento dos grandes grupos transnacionais sem rosto conhecido, enquanto homens não escrutináveis, como Soros, ditarem na sombra as grandes l...

Uma nova ordem mundial

RAUL DE  ALMEIDA   JORNAL ECONÓMICO  3.1.16 A grande ameaça da Europa não são os actos terroristas a que temos assistido. A grande ameaça da Europa hoje é, em primeiro lugar, a sua absoluta capitulação cultural, moral e identitária. Começamos agora aquele que promete ser um dos anos mais marcantes dos tempos recentes. 2017 vai ser um ano de profundas mudanças e acredito que será o ano fundador de uma Nova Ordem Mundial. Em termos de ordenamento dos poderes do mundo, temos vivido claramente entre a indefinição e o caos. A ordem unipolar, que se seguiu à bipolarização conhecida e previsível dos tempos da Guerra-Fria, provou que o mundo não pode ser regulado segundo o critério variável das administrações americanas, os interesses pouco consolidados, e sem tradição no quadro internacional, de paises emergentes e a influência absolutamente desproporcionada e desregulada do grande capital transnacional sem rosto, nem imputabilidade. A economia e a finança terão s...

Um ‘annus horribilis’

RAUL DE ALMEIDA   JORNAL ECONÓMICO  20.12.16 Por comodismo, trocámos a verdade crua por uma dor pop e partilhável. Somos “Je suis” num dia e choramos as agruras do mundo agarrados ao CD póstumo do Bowie. Misturamos tudo e choramos a dor que dói menos. Este é o meu último artigo de 2016 para o Jornal Económico. É, por isso, natural um balanço sobre este ano, que muitos já baptizaram como “ano negro” ou, invocando a Rainha Isabel II, o  Annus Horribilis . Morreram David Bowie, Prince, Leonard Cohen, Paul Bley e muitos outros símbolos que marcaram gerações e pareciam imortais. Morreu, de forma violenta, a esperança numa Europa unida e abrangente às mãos de um Brexit que, afinal, ninguém parecia querer realmente. Jô Soares foi dispensado da Globo e fez um programa memorável com Roberto Carlos, que um dia destes deixará inevitavelmente os palcos. Morreu a esperança de uns Estados Unidos humanistas e universalistas, com a eleição de Trump, fruto em primeiro...

Os europeus não estão loucos

RAUL DE ALMEIDA   6.12.16   JORNAL ECONÓMICO Sentindo-se perdidos num limbo, os europeus tentam agarrar desesperadamente uma ideia de soberania, de regra, de ideia de um corpo moral e ético coletivo. Tudo o que a Europa hoje em dia lhes nega. Há dois dias atrás, a Europa entrou em mais uma difícil encruzilhada. Na Áustria, apesar dos suspiros de alívio, o FPO teve 46% dos votos, mostrando essencialmente as fortíssimas reservas de metade dos austríacos ao caminho que a Europa segue. Em Itália, Renzi bate com a porta depois da derrota num referendo que nos poderá sair mais caro que o Brexit. Entretanto, a Sra. Le Pen segue confiante na maioria das sondagens. Estarão os europeus todos loucos? Não me parece. Não estão loucos. Sentindo-se perdidos num limbo, a meio caminho entre o sonho desfeito da Europa prometida e o desaparecimento das nações de onde partiram, tentam agarrar desesperadamente uma ideia de soberania, de regra, de ideia de um corpo moral e ético cole...

A modernidade destrutiva e as crianças-objecto

Económico  | 19 Mai 2016 Raul de Almeida Há no mundo ocidental uma revolução em curso, um golpe social; uma perseguição ideológica que visa acantonar num rótulo de conservadorismo radical ou preconceito todos os que não seguem a cartilha dos revolucionários da modernidade destrutiva. Apoderou-se da sociedade portuguesa um novo e perigoso conceito, o da modernidade destrutiva. De repente, há gente a mais a pensar que a modernidade assenta na criação de novos paradigmas que destruam os paradigmas anteriores. A modernidade desta gente não é, portanto, evolução; é ruptura, ou fractura, como gostam de lhe chamar. Voltamos à inspiração jacobina da Revolução Francesa, ao princípio da permanente desconstrução social, de não deixar pedra sobre pedra. Em Portugal esta agenda tem sido cumprida com zelo, previsibilidade e surpreendente sucesso. O facto de vivermos num estado de emergência desde 2011, e com notórias dificuldades desde sempre, explica que a maior parte da população se c...

O cair das máscaras

Económico 12 Mai 2016 Raul de Almeida Onde estará a humanidade e o coração das esquerdas sobre natalidade e família? Não se ganha por repetição, por favor dos ideólogos, nem por decreto; conquista-se na acção, na prática reiterada, na coerência entre pensamento e acção. Acho que ao longo dos muitos artigos de opinião que já escrevi para o Diário Económico tem ficado claro que não uso este espaço para fazer promoção política do partido a que pertenço. É um princípio a que me obrigo, não escrever aqui para promover o partido, nem falar a partir daqui para dentro do partido. Há outros locais e enquadramentos para fazê-lo. Por isso, quando o CDS protagoniza um momento político de interesse nacional, sinto-me perfeitamente à vontade para escrever sobre o tema; principalmente se este se cruza com preocupações que venho partilhando publicamente há muito tempo. Falo, como é óbvio, do pacote de medidas sobre natalidade e família. Esta iniciativa teve duas consequências importantes,...

A maldita realidade

Raul Almeida Sol, 2016.04.22 Olhando com atenção para o mundo atual, há de facto uma assinalável diferença entre ser de esquerda ou ser de direita. Ainda se adensa mais esta diferença quando se fala em ser governado pela esquerda ou pela direita. Curiosamente, a narrativa que nos é impingida dia a dia faz prevalecer a ficção sobre a realidade, a ilusão sobre os factos. Regresso assim sempre à certeza que a realidade, essa maldita, é sem piedade a maior inimiga da esquerda. Frau Merkel, esse diabo em figura de gente, comanda um país com o salário médio mais alto da Europa, o salário mínimo na casa dos 1.500 euros, um estado social irrepreensível, o desemprego mais baixo da Europa e direitos, liberdades e garantias exemplarmente assegurados a todos os cidadãos. É, de facto, muito mau. Mr. Cameron, esse tonto perigoso, dá a palavra a torto e a direito aos cidadãos do Reino Unido, convocando-os a serem senhores do seu próprio destino. A par desse exercício extravagante de democr...