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Salvar o Liceu Alexandre Herculano

Também foi o meu liceu! Principal razão pela qual escolhi este artigo para o Povo.  Traz recordações pessoais que, não sendo totalmente coincidentes - o Pacheco Pereira passou lá seis anos antes e em letras - são igualmente intensas. A minha alínea era a f (ciências e Engenharias) e, por isso, apenas reconheço alguns nomes: o do reitor, Martinho Vaz Pires de o do professor de Canto Coral, Godofredo. O estado do edifício diz eloquentemente da difícil gestão centralizada dos edifícios públicos. Um aspecto a ter em conta nesta difícil conversa sobre a liberdade de educação. Pedro Aguiar Pinto ___________________ JOSÉ PACHECO PEREIRA Público 28/05/2016 As casas que transportam memória não podem ser perdidas sem nos empobrecer a todos. Circula na Internet uma petição com título de “Não deixem cair o Alexandre!”. Tem um ponto de exclamação no fim, e bem merecido é. O Liceu Alexandre Herculano foi o “meu” Liceu e como muitos outros que por lá passara...

Sobre a crise dos jornais (2)

JOSÉ PACHECO PEREIRA Publico 09/01/2016 As regras do “novo” jornalismo que abandona a mediação pela “leitura” da rede e a pretensa “participação” nela, acabam por substituir uma actividade crucial na democracia por um reforço da demagogia. No primeiro artigo que aqui escrevi falei de dois aspectos da crise dos jornais e do jornalismo: a decadência de uma cultura das notícias nas redacções em detrimento de um jornalismo opinativo e a aceitação acrítica das “redes sociais” e do chamado “jornalismo do cidadão” como fonte de notícias sem mediação, ou como um agora electrónico em que se possam ver “tendências”. Se a crise das notícias, o terreno sólido do jornalismo, ainda pode ser explicada pela depauperação das redacções, pela escassez de meios e de tempo, pela utilização de trabalho de estagiários e outras formas de trabalho barato, em detrimento de redacções sólidas e experimentadas, abaladas pelo afastamento de muitos dos seus jornalistas seniores, tidos como mais caros, a aceit...

Sobre a crise dos jornais (1)

JOSÉ PACHECO PEREIRA Público 02/01/2016 - 07:14 Os jornalistas têm um grande masoquismo, para não lhe chamar outra coisa, ao dar estatuto noticioso às “redes sociais”, sem a mediação e edição jornalística. Uma das vantagens de viver numa aldeia é ter uma visão muito clara de que comunicação social cá chega, porque chega, quem a lê e quem a não lê. Aqui e neste artigo, comunicação social são os jornais, deixo de lado a televisão (cujo consumo também pode ser percebido em público nos cafés) e a rádio, que é muito mais privada e quase só automobilística. Voltemos aos jornais, para pensar um pouco a crise que atravessam. A primeira constatação é que há jornais que não participam nessa crise e, em grande parte, lhe escapam. Na minha aldeia só chega o Correio da Manhã, trazido para os cafés, e lido avidamente pelos mais velhos, chegando a haver uma fila de espera para a sua leitura. E basta observar para perceber que a parte que é lida com mais tempo e dedicação é a parte noticios...

O dia da censura

JOSÉ PACHECO PEREIRA 24/05/2014 - 01:05 Será que tudo isto se pode dizer? Um minuto antes da meia-noite sim, depois talvez não porque pode perturbar a paz dos espíritos, agora até prolongada e protegida por um novo prazo. Hoje é o dia absurdo em que, mesmo que queira falar de certas coisas, não posso falar delas. Hoje é um dia em que há censura em nome do mesmo princípio com que houve censura durante quarenta e oito anos: proteger a paz dos espíritos dos portugueses para que eles se portem bem.  É um absurdo em democracia e este absurdo soma-se a outros que começam a impregnar o tempo e o modo das campanhas eleitorais, acrescentando-se à já enorme decadência daquilo que foi uma das conquistas da democracia – a possibilidade de fazer livremente propaganda das suas ideias, programas e pessoas. A culpa é de muita gente, do legislador em primeiro lugar, que podia mudar profundamente uma legislação eleitoral que já se revelou ultrapassada e perversa, e não o quer fazer porque ...

Acordo ortográfico: acabar já com este erro antes que fique muito caro

José Pacheco Pereira | Público | 18/01/2014 Passado um período de transição, pode voltar-se rapidamente à norma ortográfica vigente e colocar o acordo na gaveta das asneiras de Estado, junto com as PPP e os contratos swaps e muita da "má despesa". O acordo ortográfico é uma decisão política e como tal deve ser tratado. Não é uma decisão técnica sobre a melhor forma de escrever português, não é uma adaptação da língua escrita à língua falada, não é uma melhoria que alguém exigisse do português escrito, não é um instrumento de cultura e criação. É um acto político falhado na área da política externa, cujas consequências serão gravosas principalmente para Portugal e para a sua identidade como casa-mãe da língua portuguesa. Porque, o que mostra a história das vicissitudes de um acordo que ninguém deseja, fora os governantes portugueses, é que vamos ficar sozinhos a arcar com as consequências dele. O acordo vai a par do crescimento facilitista da ignorância, da destruição...

O peregrino

José Pacheco Pereira Público, 02/03/2013 Este Papa fez muito mais pela Igreja do que muitos cristãos pensam que fez Muitos portugueses identificam-se como católicos, muitos são mesmo crentes, e parte desses crentes é praticante. Uma minoria pertence a várias instituições da Igreja, no plano social, cultural e assistencial. Sem eles desabaria a frágil rede que protege os mais pobres e fracos na sociedade portuguesa, e a que o Estado dá cada vez menos e pior. Uma mais pequena minoria é militante católica apostólica romana, em vários grupos "progressistas" e outros em vários grupos "integristas". Estas classificações são muito grosseiras, mas servem para o efeito. Mas cada vez mais portugueses são agnósticos ou, melhor ainda, indiferentes à experiência religiosa na sua vida quotidiana, mesmo que ocasionalmente entrem numa igreja em funerais, baptizados e casamentos. Um cada vez maior número de portugueses faz a sua vida com considerável indiferença face à Igreja e...

O valor académico da experiência política segundo a Universidade Lusófona

Público 2012-07-14 José Pacheco Pereira Há muita coisa pouco rigorosa no Parecer de equivalências e feita à medida do fato que se pretendia vestir a Relvas Traduzir a "experiência da vida" em qualificações académicas é uma tarefa difícil, mas com sentido. Defendo que tal seja uma prática institucional no ensino universitário, onde a ideia de "saber" tem que ir muito para além dos graus académicos formais. No entanto, como infelizmente se passa quase sempre com ideias com mérito, existe uma capacidade para as transformar em   mais   um pretexto para a troca de favores e cumplicidades, que degrada o ensino universitário e estende o campo da corrupção, do clientelismo e do patrocinato à atribuição de "equivalências" académicas como favores políticos. Não é ilegal, parece, mas é inaceitável. Os documentos apresentados aos jornalistas pela Lusófona foram cuidadosamente organizados pela universidade, colocados fora do contexto, após um hiato de vários ...

Nas democracias só há presente

Público 2012-06-02 José Pacheco Pereira Há um dado essencial na vida política democrática: no futuro estamos todos mortos. Do futuro não sabemos nada Um dos argumentos que circulam para legitimar a política dos nossos dias é o de que temos que actuar no sentido de não onerar as gerações futuras com os encargos do presente. Em si é um truísmo, que vale o mesmo que todos os truísmos, ou seja, pouco. A verdade deste truísmo é auto-evidente: cada geração, a seu modo, "hipoteca" o futuro para viver o presente. Pode depois discutir-se o grau dessa "hipoteca", e considerar que ela é demasiado onerosa e desequilibrada, a favor das gerações do presente, destruindo as possibilidades de gerações futuras terem uma vida decente. O problema existe e é real, mas em democracia não pode ser colocado assim: o modo como se actua no presente tem um conjunto de regras e condicionantes. O "futuro" não entra deste modo no presente, nem a ideia de que o presente deixa ...

Quanto tempo Portugal vai estar assim?

Público 2012-04-28  José Pacheco Pereira Este é um dilema do homem comum, não é um dilema para a classe dirigente, nem para a elite do poder Quanto tempo Portugal vai estar assim? Não sei, mas suspeito que muito tempo, tempo de mais. "Assim" é como estamos agora, sem esperança, sem futuro, só com presente. Um presente longo, demasiado longo para alguns. A pergunta é tudo menos técnica, é "social" no seu mais fundo sentido. Pode ser feita por um jovem de 20 anos ou por um homem ou mulher de 40 anos, e, embora a margem de manobra de cada um seja diferente, é a sua vida que depende da resposta, é a sua vida que, se ficar encalhada no presente, fica mal. A pergunta é humanista, num sentido que já não se usa, é uma pergunta que nasce da condição humana, e de pensar sobre disciplinas malditas dos dias de hoje como a História, ou a Literatura, ou a Política, ou a Filosofia. Tudo coisas que passaram de moda, e que são, para a nossa elite, expendable , inúteis. É típ...

Está o Estado a tornar-se mais forte ou mais fraco?

Público 2012.03.24  José Pacheco Pereira Há o risco real de sairmos deste processo com um Estado mais poderoso, mais intrusivo, mais autoritário Como uma grande quantidade de portugueses, recebi a carta das Finanças exigindo-me que "efectue a activação da caixa postal electrónica no serviço Via CTT " . Isto foi corrigido para a ortografia portuguesa em vigor, porque o que lá vinha era "ativação", "efetue" e "eletrónica", tudo erros de ortografia. O Estado não respeita sequer a lei, visto que o Acordo Ortográfico não está em vigor. Depois explica-me que a "activação" é "obrigatória" e que se não o fizer até 30 de Março terei uma multa. A carta é típica do burocratês associado a um claro laivo autoritário que todas as comunicações das Finanças têm. Para as Finanças não há cidadãos, mas potenciais fugitivos dos impostos e fala-lhes sempre num tom inadmissível num Estado democrático, para quem não cometeu nenhum crime, e n...

Perguntas que não levam a parte nenhuma (II)

Público 2012-02-04 José Pacheco Pereira   Com o tempo, o instrumento perderá toda a eficácia, que já é pequena, e um processo natural de depuração se irá realizar POR QUE RAZÃO OS BLOGUES TÊM CADA VEZ MENOS IMPORTÂNCIA? Os blogues são colunas de opinião pessoal, diários, listas de notas, colecções de documentos, fotografias, vídeos, auto-editados, ou seja, sem terem qualquer intermediação como é suposto existir nos órgãos de comunicação social. Essa intermediação faz-se pelo trabalho de edição e pelos saberes e regras do exercício profissional do jornalismo. Os blogues podem aproximar-se muito dos órgãos de comunicação social, podem inclusive ser feitos com as regras do jornalismo, podem inclusive em muitos casos produzir jornalismo, mas sendo auto-editados são mais parecidos com as edições de autores ou com revistas em que o seu criador define todas as condições da sua publicação. A facilidade e gratuitidade da sua plataforma de publicação, a dimensão do seu público pote...