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Jornalismo a meia-haste

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GRAÇA FRANCO   RR ONLINE     18.01.19 Atropelados pela ditadura do entretenimento, podemos enquanto “informadores” desde já colocar a bandeira a meia-haste. O jornalismo não está a morrer. Está a cometer suicídio em direto. Temi que algum jornalista se oferecesse para partilhar a cadeia com Armando Vara, só para ver como este se sentia “já lá dentro”. A porta ia-se fechando, em câmara lenta, e o enxame de microfones não largava a presa. O ex-banqueiro em tempos já se tinha visto rodeado do mesmo lamentável espetáculo de câmaras a atropelarem-se, para esmolar o “soundbite” que permitiria abrir o jornal da noite desse dia com o vómito sorridente do seu imenso poder. Talvez Vara gostasse desse ataque, agora repetido, com as câmaras atraídas pelo cheiro da putrefação da dignidade perdida e da humilhação total. Às 16 horas e 45 minutos “é o momento em que chega Armando Vara” para se dirigir “à cela do rés-do-chão, a mais próxima do guarda da ala, onde ante...

O Presidente e a eutanásia

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GRAÇA FRANCO         RR ONLINE            07.05.2018 Concordo com o Presidente: talvez só não tenha discutido a eutanásia quem não quis. O problema, no entanto, é anterior a esse: é o de saber se a maioria do povo português chegou sequer a perceber a importância desse debate como aquilo que ele exatamente significa. O Presidente da República concedeu à Renascença e ao Público uma excelente e substancial entrevista, onde aborda com profundidade múltiplos temas. Em matéria de Orçamento, como já disse Jacinto Lucas Pires, lançou “uma bomba”. Eunice Lourenço, uma das entrevistadoras, já sublinhou a importância dos recados à morosidade da justiça em matéria de corrupção, eu limitar-me-ei a comentar, o tema da eutanásia, que no meio de tanto, arrisca perder-se. Marcelo Rebelo de Sousa considerou que o debate em torno da questão da eutanásia foi suficientemente amplo para legitimar que se passe à segunda fase, ou seja, à fase...

A liberdade de morrer e o dever de salvar

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GRAÇA FRANCO           RR            26.02.2018 Hoje o André parece-nos um herói. E foi. Mas fez a coisa mais instintiva e natural. Até ao fim tentou salvar uma vida e só isso já é dar-lhe uma razão acrescida para querer viver. Porque será que ninguém pensa nisto quando se discute o extremo oposto? Quando se defende a eutanásia. Na semana passada, o André tinha 19 anos e deu literalmente a vida para salvar um desconhecido de 69 que entrara nas águas do Douro ao volante de um automóvel, de forma aparentemente deliberada. Talvez o condutor tivesse pensado que já não tinha nada a dar ou receber da própria vida. Talvez já tivesse desistido de pensar que a sua vida ainda valia a pena ser vivida. E no momento mais improvável da morte procurada encontrou-se com um desconhecido pronto a dar a vida por ele. “Sem que nada o fizesse prever”, depois de libertado o condutor do cinto de segurança que o amarrava à morte e de o p...

Ataque abominável

GRAÇA FRANCO   25.11.16   RR A França republicana laica e socialista não deve espantar-se nem espantar-nos quando acabar nos braços de Le Pen. Tenho entre os meus melhores amigos, pais e irmãos de crianças, jovens e adultos com o síndrome de Down. Vivi de perto a angústia dos que receberam essa notícia embrulhada no meio de um enxoval em rendinhas de um medo impenetrável: o que vai ser dele e o que será de nós? Iremos sobreviver-lhe ou abandoná-lo no mundo limitado à nossa ausência, num país de apoios inexistentes? O que poderá ele aprender? A apertar os atacadores ou a falar inglês? Será que vai conseguir atravessar a rua sozinho, ou poderá um dia ir sozinho para o trabalho no outro lado da cidade? Até onde irá a sua autonomia? Poderá comer sozinho ou a dada altura, arrendar o seu próprio apartamento? Conheço casos de sucesso absoluto onde o amor se vive entre algumas dificuldades e muitos mais momentos de alegria. Sei de pais que morreram cuidados pelos seus ...

A fragilidade das contas públicas

Graça Franco RR online 26 ago, 2016 Claro que o défice “escondido” continua com “a dívida de fora” (depois da Caixa, onde é que esta irá parar?) mostrando até que ponto a economia nacional não recuperou de nenhuma das suas fragilidades estruturais. Tomara que dê certo. Mas algo me diz que os milagres são raros em economia e a execução orçamental de Julho tem muito de milagre. Melhorar o défice de forma consistente, repondo os salários da função pública, restituindo a sobretaxa, com o IRS e IRC em queda e consegui-lo com muitíssimo menos crescimento do que o previsto, é obra. Mas, por ironia, aparentemente é o que está a acontecer. António Costa pode ser acusado de ser pouco “socialista”, sobretudo se olharmos o corte do investimento público, mas nunca de ser financeiramente pouco ortodoxo. Claro que o défice “escondido” continua com “a dívida de fora” (depois da Caixa, onde é que esta irá parar?) mostrando até que ponto a economia nacional não recuperou de nenhuma das suas...

E se fosse consigo?

Graça Franco RR 19 ago, 2016 Não foi numa rua do Iraque. Foi mesmo em Ponte de Sor. Não fora os agressores serem filhos do embaixador do Iraque e talvez a notícia não tivesse saltado da habitual listagem dos crimes do “Correio da Manhã” para os noticiários nacionais e os jornais de referência. A violência inaudita seria exactamente a mesma. Votada a uma indiferença que nos vai roubando o coração. Fossem os dois gémeos iraquianos dois adolescentes de Portalegre e talvez nem tivéssemos tomado conta da ocorrência. E, contudo, passou-se. Isso deveria bastar-nos para parar e pensar. Pela violência do crime. Sim, mas não só, nem especialmente. O que é feito da humanidade quando jovens são de tal forma dominados pelo ódio que mesmo sob o efeito do álcool são capazes de esmagar a cabeça de um miúdo saltando a pés juntos sobre ela? Numa violência que não deixa dúvidas sobre o objectivo final: matar. A nacionalidade/impunidade dos agressores desvia-nos da reflexão essencial. Mais ...

É mesmo mau…

Graça Franco | RR 12 ago, 2016 A economia está claramente em estagnação. E a retoma perde força há pelo menos seis trimestres consecutivos. É mesmo mau. Os dados provisórios divulgados esta sexta-feira pelo INE, através da chamada estimativa rápida, mostram uma economia claramente em estagnação, tornando a meta de crescimento de 1,8% prevista para este ano cada vez mais perigosamente irrealista. A desilusão é tanto maior quanto muitos analistas esperavam no segundo trimestre uma variação face ao trimestre anterior de pelo menos 0,5%. O que é mais do dobro do verificado. Torna-se claro, agora, que a retoma está a perder força há pelo menos seis trimestres consecutivos. O Ministério das Finanças prefere reconhecer eufemisticamente que está apenas a “levar mais tempo a acelerar o ritmo de crescimento”, mas não é verdade. A série das variações trimestrais em termos homólogos prova que não existe nenhuma tendência de retoma; pelo contrário, a tendência de abrandamento está cada vez m...

A França é a França e Portugal é maior

Graça Franco RR online 11 jul, 2016 Desta vez não foi quase, não foi apesar, simplesmente foi. Fomos. Os melhores! Sem mas, nem meio, sem mas. Aconteceu. Portugal venceu a França. Futebol foi 11 contra onze e no final: ganhámos nós. Para os emigrantes de Paris foi noite de “revanche”. Desforra? De quê, de quem? Da frase sobranceira: “A França (sempre), a grande França”. Acompanhada da outra com sabor a humilhação “Le petit portugais”. Como se um português nunca pudesse ser grande. Nem mesmo o Ronaldo do alto dos seus 185 centímetros. Mais 15 do que o Messi. Hoje foi diferente. O relógio aos solavancos a andar para trás. Eles, tão grandes, a ficar pequenos. E nós crescendo como se as bolas esquecidas das malas de cartão vindas das Musgueiras de todos as épocas entrassem em fúria chutadas por Renatos de todos os nomes e transformassem em rendilhado de baliza todas as faixas das riscas. Sem rancor. Não se trata de vingar o passado do velho bidonville (bairro de lata). Esse ...

Um golo pode fazer subir o "rating"?

Graça Franco RR online 01 jul, 2016 Como os jogadores islandeses, os adeptos irlandeses e a tenacidade de Fernando Santos podem contribuir para a melhorar a economia nacional. Espero que Fernando Santos, Quaresma, Ronaldo e Renato Sanches acabem a fazer pela economia portuguesa mais do que tem feito o ministro Caldeira Cabral. E podem? Devem. Como? Ensinando-nos o valor do pragmatismo e fazendo disparar a confiança – essa palavrinha mágica que vários estudos provaram resultar para a França da vitória no “Euro-2000”. A importância da “confiança” não domina apenas a linguagem de jogadores/treinadores e comentadores desportivos. Domina os mercados, move consumidores e capta ou afasta os investidores. Comanda muitas das nossas acções. Se há coisa comum ao economês e ao futebol é a busca e o reconhecimento da confiança. Coisa que leva tempo a conquistar e se desfaz em poucos minutos; e muitas vezes resulta de factores quase “irracionais”. Jogadores, treinadores, adeptos e comen...

Acham normal não pagar à lavandaria?

Graça Franco RR online 28 jun, 2016 70% das mulheres considera justa a repartição do trabalho doméstico com os homens. Azar meu que faço parte das 30% que vêem aqui uma enorme injustiça . As mulheres portuguesas com emprego fora chegam às férias com mais um mês de trabalho realizado do que os respectivos maridos (mais 24 dias 8 horas diárias para ser exactos). Não é novidade, mas convém fazer do “ óbvio” notícia. Só para a tornar tema de conversa de jantar no maior número de casas. Mero “fait divers”? Errado. Aqui radica boa parte da explicação para a baixa fecundidade nacional, como prova um precioso estudo da FFMS sobre a baixa natalidade em Portugal. O novo inquérito aos “Usos do Tempo de Homens e de Mulheres em Portugal”, realizado pelo Centro de Intervenção Social, permite fazer as contas: no trabalho pago eles gastam em média mais 27 minutos (daí um salário ainda mais alto). Já no trabalho não pago elas dedicam mais uma hora e 12 minutos dedicando um total de 3 horas...

Pronto à Escola ponto

Graça Franco RR online 27 Mai, 2016 Nos próximos dias joga-se parte da nossa liberdade. Vamos às contas: o Estado pretende poupar menos de 30 milhões de euros em contratos de associação (equivalentes ao corte de 277 turmas a 80 mil cada!), uma quebra de 14% nas já de si escassas verbas a canalizar para todo o sistema de ensino privado e cooperativo este ano (220 milhões). Isto quando o Estado vai gastar só com o ensino básico e secundário na chamada escola pública mais de 4,5 mil milhões este ano. A dimensão dos números devia bastar para provar que a gritaria gerada em torno do tema não se pode resumir a meia dúzia de trocos. Ela explica-se porque a questão toca uma das expressões essenciais da liberdade. Liberdade que não tem preço, embora possa ter alguns custos. A verba em discussão, parecendo irrisória, faz toda a diferença para aqueles 3% de escolas privadas (79 colégios ao todo) potencialmente afectados. Mesmo que deste universo só 80% sejam seriamente afectados. Sen...