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Teologia da ternura e perguntas menos ternas

PAULO RANGEL   PÚBLICO   16.05.17 A profunda humanidade de Francisco em nada impede um discurso exigente, duro, radical. 1. Quem lê estas linhas sabe que, quiçá ainda mais além do que justificaria a minha condição de cristão de cultura católica, sou um confesso e entusiasta admirador do Papa Francisco. De há muito que aqui, num ou noutro artigo mais longo (com especial destaque para a crónica de 10 de Março de 2015) e em comentários na rubrica Sim/Não, dou sinais contínuos dessa enorme admiração. Sem nenhum menoscabo para os outros Papas que conheci — como abaixo bem se verá —, é o Papa com que mais me identifico. E esta visita a Fátima aumentou seguramente a minha identificação com o seu modo de afirmar a mensagem cristã e de conduzir e orientar a mole humana de fiéis que compõem a Igreja Católica. Ao mesmo tempo, e nada tendo que ver com o Papa Francisco, muito do ambiente que rodeou a visita suscita um conjunto de apreensões e perguntas.  2. Comecemos ...

De novo, a maioria silenciosa. Venha ela

PAULO RANGEL Observador 31/05/2016 Governo, BE e PCP não se livram da fama de mudarem as regras a meio do jogo. 1.  O movimento Escola.Ponto pode ter mais ou menos razão quanto à legalidade substantiva, ao modelo administrativo escolar e à compreensão (que nunca é uniforme) do que seja o interesse público. Há decerto um item em que tem inteira razão: o Estado deve cumprir os seus compromissos. Longe vão os tempos em que Costa proclamava a plenos pulmões: “palavra dada, palavra honrada”. O Governo, o Bloco e o PCP podem gritar e espernear, mas não se livram da fama e do proveito de, contra a lei e a ética republicana, mudarem as regras a meio do jogo. Valha a verdade de que o movimento amarelo da Escola.Ponto, sem sindicatos nem partidos de alavanca, se tem mobilizado por todo o país e, para quem diz que corporiza um nicho de pequena expressão, foi capaz de fazer uma impressionante manifestação no Domingo. Interessa-me porém de sobremaneira um ângulo totalmente diverso daque...

A minha Páscoa: de Babel ao Pentecostes

PAULO RANGEL Público 29/03/2016 - 07:32 A semana que passou e a que agora passa, por razões que não vêm ao caso, fizeram acudir-me à memória as minhas férias escolares, as férias de há quarenta anos. As férias da Páscoa tal como as do Natal eram sempre passadas em casa, por entre a nossa casa, a de amigos e a de vizinhos. E numas ou noutras, as da Páscoa ou as do Natal, já não sei dizer bem – o mais provável é que fosse em ambas –, havia sempre tempo para passar os olhos por um álbum que dava pelo nome de Grande Bíblia Ilustrada ou qualquer coisa aproximada. Por vezes, quando calcorreio livrarias de marca, destas muito estilizadas, de oferta colorida, digital e escassa, típicas das franquias de centro comercial, suspeito ver esse livro ou algum dos seus sucessores ou sucedâneos algures no escaparate. A verdade é que para uma criança numa família católica dos anos 70, os tempos de Páscoa e de Natal eram tempos fortes e sagrados, mais no sentido mítico e mágico de Mircea Eliade do que...

Transcrição da intervenção do deputado Paulo Rangel

Parlamento Europeu em 3 de fevereiro de 2016 "Senhor Presidente, antes de ir ao assunto que considero principal, que é justamente a questão do Reino Unido, não queria deixar de dizer à Sra. Deputada Maria João Rodrigues que eu não sei se o Governo português é assim tão europeísta, porque ele depende do Partido Comunista, que aqui hoje fez uma declaração totalmente antieuropeia, e depende do Bloco de Esquerda, que também está contra uma visão da economia social de mercado, e portanto o seu europeísmo é duvidoso. Aliás, quando o principal conselheiro do Primeiro-Ministro ontem comparou a União Europeia à União Soviética, está tudo dito sobre as convicções europeias deste Governo. Foi Porfírio Silva, deputado do PS, principal conselheiro de António Costa, que comparou a União Europeia à União Soviética. É lamentável que não se tenha isto em conta. Quando depende da esquerda radical, que é totalmente antieuropeia, é evidente que depois, o Governo, mesmo que tenha boa vontade, não...

Ai custa, custa, Dr. Costa!

PAULO RANGEL Público 24/02/2016 Verão como Costa, na veste de Primeiro-Ministro, manipulou e abusou. E fê-lo para diabolizar um deputado da oposição. Respeito António Costa como homem, como político, como Primeiro-ministro do meu país. Respeito-o, mas não tolero e não admito, nem por uma fracção de segundo, que ponha em causa o meu patriotismo, o meu sentido nacional. Repito: não tolero, não admito e não recebo nem lições nem remoques de António Costa. Lamentavelmente, é a segunda vez que o faz, num curto espaço de dias, primeiro num debate quinzenal, depois no debate do orçamento. E que o faz, não num qualquer comício partidário, no calor excitado das sessões de propaganda em que agora quase diariamente se desmultiplica, mas antes na Assembleia da República e na qualidade estrita de Primeiro-Ministro.  Não vou aqui puxar galões nem pergaminhos de apego a Portugal, ao espírito nacional e ao sentido patriótico. Seria ridículo e redundante. E acabaria por dar a António Costa o...

A hipocrisia do discurso “neo-nacionalista” da esquerda

PAULO RANGEL Público 16/02/2016 - 00:05 António Costa, que se arvora no campeão do europeísmo, veio colar-se por inteiro ao programa “neo-nacionalista” dos sustentáculos do seu governo. Desde que se iniciou a turbulenta saga orçamental do Governo Costa que o PCP se notabilizou por um discurso fortemente anti-europeu, alicerçado na ideia de “ingerência inadmissível” da Comissão Europeia e do Eurogrupo na nossa “soberania” orçamental. Uma retórica totalmente consonante com a linha histórica do PCP, desde sempre feroz adversária da integração europeia. Todos os que discordem da actual política orçamental e que defendam maior prudência e cautela na reposição de rendimentos serão “lacaios” de Bruxelas e perigosos colaboracionistas. Atrelado a este discurso, apareceu também o Bloco de Esquerda, que, com o seu populismo militante, abandonou o anterior “internacionalismo fraterno e libertário” e exibe agora uma atitude essencialmente “proteccionista” e “nacionalista”. Tudo o que venha d...

O regresso ao maniqueísmo

PAULO RANGEL Público 09/02/2016 - 00:10 Só pelo maniqueísmo de má e recente memória se pode ver na actuação da Comissão uma ingerência de tipo colonial e na manifestação do direito à crítica e à divergência uma disfunção antipatriótica. Por definição, em democracia, concorrem diferentes visões do interesse nacional. As diversas formações partidárias e correntes de opinião, tendo naturalmente compreensões divergentes, visam todas elas o interesse geral e o bem comum. O que para umas será o interesse geral é obviamente diverso do que ele representa para outras. É essa competição de projectos que está no cerne do jogo democrático. Nunca uso – nem nunca ouso –, dizer que os meus contendentes estão contra o interesse nacional. Quando muito, e na pior das hipóteses, estarão contra a percepção que perfilho do interesse nacional. Claro que, em tese, não pode excluir-se que não venha a criar-se algum movimento antipatriótico. Até ao momento, devo dizer que não me apercebi de nenhum. Defr...

Réplicas e tréplicas das presidenciais

PAULO RANGEL Público 26/01/2016 Que ninguém subestime o valor e o peso desta capacidade de comunicação directa com os cidadãos: ela representa um activo potente e com enorme potencial. É preciso dizê-lo sem tibiezas: depois de tantos anos de desencanto com a classe política, dá gosto que uma pessoa com a estatura cultural e intelectual e com o percurso cívico e político de Marcelo Rebelo de Sousa se tenha disponibilizado para ser Presidente da República. Basta ter na retina a escolha do local para fazer o discurso da vitória e ter no tímpano o eco desse mesmo discurso para nos apercebermos dos patamares que a política portuguesa foi chamada a subir. Ao longo da pré-campanha e da campanha Marcelo foi capaz de revelar que não era apenas uma pessoa invulgarmente inteligente, coisa que já todos sabiam e que alguns, aliás, receavam. Marcelo foi também capaz de mostrar que era senhor de uma poderosa e sábia inteligência emocional. E, até mais do que isso, que era senhor de uma sóbria emo...

Marcelo

PAULO RANGEL Público 12/01/2016 Apoiar Marcelo não significa obviamente achar que fez tudo bem, especialmente nesta contingência pré-eleitoral. Desde o primeiro momento que declarei o meu apoio convicto à candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa. A área do centro e centro-direita tinha decerto outros excelentes candidatos com diferentes carismas e qualidades como Durão Barroso ou Rui Rio. Mas não hesito em afirmar que Marcelo é um dos cidadãos portugueses mais bem preparados e mais vocacionados para o exercício da função presidencial, deixando a milhares de léguas de distância todos os restantes concorrentes, mesmo os aparentemente mais directos. Na verdade, o centro-esquerda desistiu de fazer aparecer os seus melhores – António Guterres ou António Vitorino, por exemplo – e, com isso, enfraqueceu substancialmente a possibilidade de ter êxito na eleição presidencial. Importa, porém, insistir num ponto: Marcelo, mesmo sem concorrência à sua altura, pertence ao escol dos melhores can...

A propósito da morte no S. José

PAULO RANGEL Público 29/12/2015 Os hospitais de Lisboa, em que se passou este terrível episódio, têm muito mais meios do que tem Coimbra ou de que tem o Porto e, no entanto, não são capazes de gerar respostas de idêntico nível. No dia e na hora em que a televisão – na esteira do Correio da Manhã – noticiou que um jovem de 29 anos, David Duarte, morrera no Hospital de S. José, em Lisboa, na sequência de um incidente provocado por um aneurisma, eu estava a ver o noticiário televisivo. Assim que explicaram que a morte se teria ficado a dever presumivelmente à inexistência de neurocirurgiões de serviço durante o fim-de-semana, fiquei chocado e reagi veementemente, como facilmente pode atestar a familiar que estava ao meu lado. É absolutamente inadmissível que um caso destes possa ter ocorrido. É estranho que um hospital daquela envergadura viva com aquela lacuna ou que não tenha um procedimento protocolar já estabelecido com outros hospitais da área da grande Lisboa. Mais estranho m...

Jesus, pobres, estrangeiros, refugiados, privilegiados e famílias pouco normais

PAULO RANGEL Público 22/12/2015 Já aqui escrevi que o Natal — enquanto história, enquanto narrativa, enquanto midrash — nasceu contra o preconceito. O evangelho da infância, apenas constante das narrações de Mateus e de Lucas — de resto, largamente incompatíveis entre si —, está carregado de mensagens contra o preconceito. A mensagem mais divulgada é a mensagem contra o preconceito social: Jesus nasce em condições altamente precárias. A sua família é notoriamente uma família humilde e pobre. Está transitoriamente deslocada. Procura debalde um alojamento para garantir o parto em condições mínimas de dignidade, mas resta-lhe apenas um estábulo: “E envolveu-o em panos, e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem” (Lc 2,7). Jesus nasce na mais desconcertante pobreza e fragilidade. Esta circunstância, só por si, é todo um evangelho. Jesus veio para os mais pobres, para os frágeis, para os que são rejeitados. A segunda mensagem dirige-se ao preconceito terr...

Rumo ao facilitismo: rapidamente e em força!

PAULO RANGEL 01/12/2015 - 07:56 Ainda não passou uma semana sobre a posse do novo Governo e há já sinais preocupantes na agenda da aliança entre o Partido Socialista e as esquerdas radicais. Não me refiro à discordância manifesta em sede de sobretaxa e de reposição de cortes salariais da função pública. Este era um espectáculo a que poderíamos ser poupados, se houvesse prudência e sentido de Estado. É estranho, na verdade, que, com tanto tempo para negociar as respectivas posições – sim, foram esses partidos que se queixaram de que o Presidente da República deixou arrastar e esticar os prazos todos –, PS, Bloco de Esquerda e Partido Comunista não se hajam sequer entendido sobre matérias tão decisivas. Mas esta indefinição e instabilidade não podem surpreender ninguém, atentas as diferenças abissais de propósitos do PS e dos parceiros da extrema-esquerda. O PS, mesmo que a contragosto, terá de respeitar os compromissos europeus e os partidos da esquerda radical vão tentar ignorar ol...

Um grande embuste

PAULO RANGEL Público 10/11/2015 A política prosseguida pelo PSD e pelo CDS no anterior Governo, nas suas linhas fundamentais, não tinha nada de viragem à direita ou de conversão ao neoliberalismo. É hoje o dia em que a extrema-esquerda — que nunca se retratou das crenças totalitárias, que despreza os fundamentos das democracias liberais e que tem as maiores reservas à pertença à União Europeia — vai dar o grande salto em frente rumo ao poder. E vai dá-lo de mãos dadas com o Partido Socialista, que é o autor consciente desse salto e que está ávido de salvar a pele da sua liderança. Não hesito um segundo proclamar bem alto que a chegada da extrema-esquerda ao poder há-de revelar-se profundamente nefasta para o país. E que farei, com toda a convicção e com todas as forças, uma oposição impenitente a um Governo que venha a resultar dessa aliança contra-natura e que dê a tais correntes políticas um papel relevante na direcção política do país. Esta conquista do poder pela esquerda ra...

A tempestade de Verão

PAULO RANGEL | Observador | 01/09/2015 Sob o ponto de vista do Estado de Direito, o ar é hoje bem mais respirável do que era em 2009 e em 2011. 1. Escrevo quase sempre na primeira pessoa; embora raramente sobre questões que me digam respeito. Mas depois da controvérsia que a participação numa aula da Universidade de Verão do PSD tem gerado, é incontornável pegar no tema. Não vou responder ao PS, nem aos modos “enfurecidos” – segundo a imprensa – da sua reacção. O PS usou o conteúdo vasto e complexo da aula como lhe parecia dar mais jeito. Ironicamente, foi essa reacção que trouxe o caso Sócrates para a ribalta. Mas não me cabe defender o PS de si próprio. Também não vou pronunciar-me sobre os comentadores que, nos vários meios, formularam opiniões para todos os gostos. As afirmações, depois de proferidas, ganham vida própria e não cabe ao autor cercear a liberdade e a imaginação de quem rectamente as interpreta, intencionalmente as distorce ou inconscientemente as treslê. ...

Mário Soares: o “desmancha-presidentes”

PAULO RANGEL Público 15/04/2015 - 06:03 Correia de Campos escreveu, segunda-feira, sobre os desafios presidenciais no espaço do centro-direita. Invocou expressamente, com um tom mavioso, a vontade de ajudar esse espaço político a resolver a sua equação. Mas o seu sempre inspirado e já habitual uso da ironia não passou ali de uma manobra de diversão, destinada a tentar desviar as atenções. Na verdade, se olharmos para os últimos quinze dias, quem verdadeiramente precisa de ajuda – e de ajuda de emergência –, em matéria de eleições presidenciais e até em matéria de estratégia política em geral, é o PS e o seu líder António Costa. A forma enfadada como recebeu a candidatura de Henrique Neto, o modo absolutamente infeliz com que tem gerido o suposto avanço de Sampaio da Nóvoa, a forma como não consegue disciplinar o seu núcleo mais próximo, a roda livre em que deixa andar o presidente Carlos César, a necessidade de recorrer a Guterres para clarificar os dados do jogo, a dança de nom...