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Um tiranete da Beira

Vale muito a pena ler este artigo do Vasco Pulido Valente. Não tanto pela apreciação concreta de personagens e acontecimentos, mas, sobretudo, pelo esclarecimento do que é a verdadeira natureza da democracia. Público 2011-03-18 Vasco Pulido Valente O eng. Sócrates comprometeu Portugal em Bruxelas com o PEC IV, sem comunicar coisa alguma ao Parlamento, ao Presidente da República, aos partidos da oposição e aos parceiros sociais. Quando umas tantas pessoas protestaram, o eng. Sócrates respondeu, indignadamente, que o que lhe importava não era a "forma", era o "conteúdo" do que fizera. Só em Portugal esta explicação poderia ter passado sem um escândalo maior ou mesmo sem a demissão imediata do primeiro-ministro. Convém explicar porquê à ignorância indígena. A democracia é "forma". Só as ditaduras se justificam pelo "conteúdo". Uma ditadura não hesitará em invocar - como, de resto, invocou - a "defesa de Portugal" para meter por seu...

O dom divino da simpatia

Diário de Notícias, 20081103 João César das Neves Professor universitário naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt A arte tem a finalidade de penetrar a vida, atingir a realidade, esboçar a verdade. O terrível e paradoxal século XX não só chacinou multidões, cindiu o átomo, chegou à Lua, como levou a arte aos extremos. No próximo sábado passa o 30.º aniversário da morte de um dos artistas que melhor captaram essa época incompreensível. Norman Perceval Rockwell nasceu em Nova Iorque a 3 de Fevereiro de 1894, no mesmo ano de Nikita Khrushchev e da garrafa de Coca-Cola . O jovem cedo revelou um talento inigualável. As suas pinturas a óleo são impossíveis de distinguir de fotografias, de tal modo o traço é realista. Na era em que a máquina atingiu a reprodução perfeita, a arte desafiou-a. Durante 60 anos, sobretudo na capa do Saturday Evening Post , as imagens de Rockwell inspiraram a nação marcante do século. O verdadeiro génio do autor estava, porém, na capacidade de numa única imagem sem legenda...

O retrato de Mónica

O retrato de Mónica - Sophia de Mello Breyner Andresen Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da "Liga Internacional das Mulheres Inúteis", ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria. Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem--se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta. Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rig...

Sermão do Nascimento da Mãe de Deus

O dia de hoje, dia da natividade de Nossa Senhora é um dia muito especial para a nossa família, como o é também para a grande família humana que tem Nossa Senhora por sua mãe. Quero, por isso, partilhar convosco este lindíssimo excerto do Sermão do Nascimento da Mãe de Deus do Padre António Vieira. Sermão do Nascimento da Mãe de Deus Padre António Vieira "Quereis saber quão feliz, quão alto é e quão digno de ser festejado o Nascimento de Maria?  Vede o para que nasceu.  Nasceu para que dEla nascesse Deus. (...) Perguntai aos enfermos para que nasce esta celestial Menina, dir-vos-ão que nasce para Senhora da Saúde; perguntai aos pobres, dirão que nasce para Senhora dos Remédios; perguntai aos desamparados, dirão que nasce para Senhora do Amparo; perguntai aos desconsolados, dirão que nasce para Senhora da Consolação; perguntai aos tristes, dirão que nasce para Senhora dos Prazeres; perguntai aos desesperados, dirão que nasce para Senhora da Esperança....

Avô

Queridos amigos: Quero agradecer a todos os parabéns e a alegria partilhada nas inúmeras mensagens recebidas. Muitas falam de avós babados; estou ainda a tentar perceber se assim é, e a que é que este qualificativo corresponde. De facto, mais do que perante o nascimento dos nossos filhos, a reacção mais evidente é mesmo de espanto. Espanto pelo milagre da vida que antes não era e agora está ali, palpitante à nossa frente; comoção perante a pergunta que mais imediatamente salta sobre o destino daquela criança cuja vida se inicia no nosso mundo. Dou comigo a pensar que este espanto e esta comoção, melhor, esta capacidade de espanto e de comoção, se se revela de modo tão evidente perante o nosso neto que ainda mal abre os olhos, é por ele despertada para também olharmos para nós próprios. O destino é o mesmo; quero dizer, o dele e o nosso; a nossa consciência de destino é que não é sempre tão viva. À frente dele, abre-se um futuro de esperança, que é também nosso. A esperança ...

Um padre

João César das Neves DN, 20031117 Já não se publicam sermões.  Depois de os padres terem passado no século XIX à categoria de ervas daninhas, abandonou-se o hábito de publicar sermões. Assim se perde para sempre um dos fenómenos culturais mais influentes da nossa língua. Todos os dias, em milhares de locais, se prega em Portugal sobre o sentido da vida, os juízos morais, as virtudes práticas.  Este grandioso património evapora-se, enquanto os etnógrafos se esforçam, por outros lados, a recolher os menores indícios do que chamam «cultura».  Mas, felizmente, ainda há excepções.  Acaba de sair um volume de homilias de um sacerdote lisboeta (Directo ao Assunto, Lucerna, 2003). O Padre João Seabra é uma figura conhecida da nossa intelectualidade. Mas o que ele é, é sempre e apenas como padre.  A sua fama provém sobretudo da sua frontalidade. Num tempo em  que a Igreja se sente minoritária, às vezes acossada e complexada, o Padre Seabra nunca pediu des...

O Sino da Minha Aldeia

Impressiona-me neste artigo a verificação de que a verdade do significado das coisas (como o ritmo do tempo marcado pelo sino da igreja que sacraliza o tempo, isto é, que reconhece a sua origem no Senhor de todas as coisas) é verdadeira para todos, sobretudo para aqueles que vivem de foma mais emenhada a sua humanidade, mesmo que a percebam superficial ou confusamente. Fico contente por isso. Pedro Aguiar Pinto O Sino da Minha Aldeia EDUARDO PRADO COELHO Público, Quarta-feira, 14 de Novembro de 2001 Dizem os jornais que a Direcção-Geral do Ambiente solicitou à Igreja Católica o cumprimento da lei do ruído. Ao que parece, há pessoas que não conseguem dormir porque os sinos lhes interrompem o sono. Sobretudo (e neste ponto não se pode deixar de lhes dar razão) quando os sinos por campânulas são substituídos por mecânicos sistemas de amplificação sonora. Propõe-se assim que, sobretudo entre as 22 horas e as 7 horas da manhã, os sinos deixem de tocar - para que cada um possa ter o ...

Boas notícias

Boas notícias João César das Neves In: DN, 2001.01.01 A primeira grande novidade do milénio foi o aparecimento do GoodNews. O diário apresentou-se com o propósito de "dar apenas e sempre boas notícias", declarando olhar a actualidade do ponto de vista positivo e construtivo, sublinhando o virtuoso, o amável, o heróico, o bom. "No panorama mediático actual", dizia o seu primeiro editorial (publicado noutro jornal, por tratar de más notícias), "domina o chocante, o trágico, o dramático, o mau. Quando algo corre bem deixa, por isso mesmo, de ser notícia. Só os desastres e guerras são referidos. A bondade e a paz apenas aparecem quando falham. Todos os jornais, mesmo os mais clássicos, são dominados por esta visão perversa. Em vez do provérbio no news is good news (se não há notícias é boa notícia), a prática passou a ser good news is no news ." A nova linha editorial foi muito contestada pelos intelectuais como "romântica, idealista, de...

Só nos vêm a nós

João César das Neves DN, 5 de Abril de 1999 No dia seguinte a Cristo ter subido ao Céu, estavam alguns reunidos numa casa. Tomé, rindo baixinho, afirmou: "Isto da Igreja, que o Senhor disse para construirmos, não pode funcionar!" Madalena, que estava perto, perguntou-lhe surpreendida: "Porque dizes isso?" Ele respondeu: "Então não vês? Ele foi-se e nós ficámos. As pessoas vêm ter connosco à procura de Deus, mas só nos vêem a nós. Ele podia ter ficado cá ou ter deixado, ao menos, alguns anjos. Em vez disso, deixou-nos só a nós. Isto não pode mesmo funcionar." E Tomé deu outra gargalhada. Madalena perguntou-lhe: "Se achas mesmo que não vai funcionar, porque estás tão satisfeito?" Tomé riu de novo e respondeu: "Eu não disse que não vai funcionar. Disse que não pode funcionar. Não vês que esta ideia de nos deixar sozinhos é mesmo a prova de que a Igreja só pode ser uma ideia d'Ele?! É tão típico do Senhor querer mostrar-se através de nós...