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O colapso da decência

NUNO MELO   01.12.16   JN A aprovação do voto de pesar pela morte de Fidel Castro na Assembleia da República, como alguém que "consagrou a vida aos ideais do progresso social e da paz", significou o derradeiro triunfo do ditador, sobre os valores de referência do regime democrático. A extrema-esquerda que contesta a legitimidade da eleição de Donald Trump nos EUA teve sucesso na homenagem a um déspota cubano que, como é sabido, nunca contou um voto nas urnas, ao mesmo tempo que, na caricatura do absurdo, se manifestou sentada no hemiciclo, sem respeito nem educação, contra a visita amiga do rei legítimo de Espanha, acusado de nunca ter sido submetido a sufrágio. Agiu a propósito, com a mesma facilidade com que grita "liberdade" de cravo ao peito em cada dia 25 de Abril, mas concretizou o 11 de Março e lutou para que o 25 de Novembro nunca visse a luz do dia. Conseguiu para o tirano do Caribe o que negou por ocasião da morte de José Hermano Saraiva, perigo...

Não apaguem a memória

ZITA SEABRA     29.11.16    OBSERVADOR   É sabido que as vítimas dos regimes comunistas não têm nome, não têm monumentos, não têm baladas de homenagem, nem memoriais. Reduzem-se a números e, quando alguém sublinha que um fuzilado no «paredón» não é diferente de um assassinado no Estádio Nacional do Chile de Pinochet, cai um silêncio tal que se torna uma evidência que as vítimas do comunismo o foram por serem contrarrevolucionários e por colocarem em risco uma qualquer revolução comunista, tendo por isso apenas direito a ser apagadas da história com H grande. No entanto as vítimas do regime cubano têm nome, tem mães e têm filhos. As «Damas de Blanco», mães e esposas dos presos políticos e dos desaparecidos do regime cubano, sofrem tanto, são iguais, nada as diferencia, das mães de branco do Chile de Pinochet. Ou serão diferentes as mães dos fuzilados e desaparecidos no Chile de Pinochet das mães dos fuzilados e desaparecidos de Havana? As Damas de B...

Repitam comigo: Fidel era um di-ta-dor

JOÃO MIGUEL TAVARES  PUBLICO    29.11.16 A falta de amor que este país tem à liberdade nunca cessará de me espantar. Foram demasiados os obituários e os comentários a propósito da morte de Fidel Castro que me fizeram ter vergonha do país em que vivo. Do PCP, a este respeito, ninguém espera nada. Mas receber uma newsletter da revista Visão com o título “Hasta Siempre Comandante Fidel”, certamente escrita – vamos ser optimistas – com a inconsciência própria de quem olha para Cuba como uma photo opportunity, com os seus carros anos 50, as cores garridas e os charutos, não cabe na cabeça de ninguém. Cuba não é uma conta de Instagram. Cuba é uma ditadura. Defender Fidel, romantizar Fidel, mitificar Fidel, é defender, romantizar e mitificar um ditador, que condenou milhares de pessoas à morte directa por fuzilamento e à morte indirecta por afogamento no Estreito da Flórida. Não há meio-termo nisto. Essa conversa de que “a História o há-de julgar”, ou de que “para uns m...

Fidel Castro, o 25 de Novembro e a opção ocidental

JOÃO CARLOS ESPADA   OBSERVADOR  28.11.2016 Na passada sexta-feira, dia 25 de Novembro, foi lançado em Lisboa o livro precisamente intitulado  O 25 de Novembro e a Democratização Portuguesa  (Gradiva, 2016). Sob a coordenação de António Barreto, João Salgueiro, Luís Valença Pinto, Manuel Braga da Cruz e Vasco Rocha Vieira, a obra foi apresentada por Jaime Gama e Manuel Braga da Cruz. Em boa verdade, a iniciativa assinalou bastante mais do que o lançamento de um livro. Culminou um vasto programa de iniciativas da sociedade civil (onze, com efeito) que tiveram lugar durante o ano passado para assinalar os 40 anos do 25 de Novembro de 1975. O livro agora publicado dá conta das comunicações apresentadas em todas essas iniciativas. Um primeiro conjunto de comunicações tinha já sido publicado pela revista  Nova Cidadania  (No. 58, Primavera de 2016). Por que motivo terão estado tantas pessoas envolvidas na evocação do 25 de Novembro — sem subsídios d...

Black Fidel

PAULO NÚNCIO   29.11.16  ECO.PT Fidel Castro morreu na passada 6ª feira. Paz à sua alma. Mas não deixa de ser irónico que o ditador que mais combateu o Ocidente tenha morrido precisamente numa Black Friday. Ironias à parte, Fidel Castro representou mais um capítulo do extenso livro negro do comunismo no mundo. Desde Lenine a Estaline, passando por Mao, Ho Chi Minh, Kim Il Sung e Pol Pot, o comunismo representou uma tragédia de dimensões planetárias. Como constatou o historiador e investigador Nicolas Werth no seu livro, a abertura de numerosos arquivos e o acesso a muita documentação, depois do desmoronamento da União Soviética, permitem hoje afirmar que o comunismo representou a doutrina do Estado todo-poderoso, a descriminação sistemática de grupos sociais, as deportações em massa e, com demasiada frequência, os massacres gigantescos que levaram à morte de dezenas de milhões de seres humanos. E o que é que Fidel Castro tem a ver com esta tragédia? Infelizmente, o “tot...

Não são “erros”, mas crimes

JOSÉ MILHAZES   28.11.16   OBSERVADOR Se Catarina Martins tivesse empregue a palavra "crimes" não teria coragem de lhe chamar "grande homem". Então um grande homem podia tratar tão mal as minorias defendidas com tanto ardor pelo Bloco? É útil ouvir várias posições sobre uma mesma pessoa, tanto mais quando se trata de uma figura da envergadura de Fidel Castro, mas cansa ouvir a fórmula “se por um lado…, por outro” para justificar mais um ditador carniceiro. Na semana passada, quando ouvi na Antena 1 uma conhecida professora e investigadora falar do “populismo”, notei que ela apenas foi buscar exemplos à direita, como se essa doença não afectasse a esquerda. Falou de Hitler, mas se substituísse esse nome por Estaline, ninguém daria conta de nada, porque encaixava como uma luva no mesmo texto. Fidel Castro era um populista e demagogo, ficando os seus discursos longos, ocos e enfadonhos como um dos exemplos mais evidentes disso. O seu ego era mais import...

Ninguém lava a história como os comunistas

ALEXANDRE HOMEM CRISTO   28.11.16   OBSERVADOR Décadas de romantismo à volta de Fidel Castro tornaram menos óbvio para o mundo que ele não passou de um ditador como outros. Eis a demonstração de força da máquina comunista de revisão da história. Morreu um grande líder. Um verdadeiro patriota, cuja razão de viver foi sempre o bem-estar do seu povo. Um homem que se dedicou inteiramente à defesa da liberdade. Um herói popular, que libertou Cuba de uma ditadura cruel. Um político inspirador de causas justas e aliado das lutas das forças progressistas, que estabeleceu o exemplo. Um símbolo da paz cuja memória se deve honrar prosseguindo a luta pelos ideais que defendia. Não, isto não é para rir nem é brincadeira de mau gosto. É mesmo muito a sério: todos estes louvores constam do  comunicado do PCP  que, em nome dos comunistas portugueses, reagiu à morte de Fidel Castro. Poder-se-ia implicar com o insólito alheamento da realidade dos comunistas – como ...

Um ditador dos bons, ou dos nossos?

RUI TAVARES   28.11.16   PUBLICO A Biblioteca do Congresso dos EUA guarda uma carta escrita por um Fidel Castro de 12 anos ao então presidente Franklin Delano Roosevelt. O autor da carta é um rapaz inteligente e curioso, que escreve em inglês pedindo uma nota de dez dólares ao presidente e promete mostrar-lhe, se ele vier a Cuba, “as maiores minas de ferro do mundo”. Sendo já um patriota cubano é também um amigo do grande país vizinho, que se tinha tornado recentemente na super-potência que ainda é hoje. E no entanto, este menino,  falecido há três dias com 90 anos , ficará na história como o mais persistente e resistente inimigo dos EUA entre dois séculos. Não é feito menor. A história de como isto foi acontecer é tanto uma história pessoal de Fidel como uma história coletiva de Cuba e, sem escapatória, uma história da arrogância dos EUA. O apoio à ditadura de Fulgencio Batista e a utilização de Cuba como traseiras do quintal estado-unidense terão justificadame...