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A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: Henrique Monteiro

Momentos ‘ministro da Defesa do Iraque’

Henrique Monteiro Expresso, 20160912 O nosso primeiro-ministro tem tido momentos que faz lembrar o ministro da Propaganda do Iraque do tempo de Saddam. Aquele que clamava vitória quando os tanques americanos já estavam praticamente em cima dele. É um momento parecido o cavaleiro negro dos Monthy Python, que já sem braços nem pernas, depois de uma leal luta à espada, continua a insultar e a chamar cobarde ao cavaleiro que o derrotou.  Depois de no fim de semana passado ter afirmado que tínhamos um primeiro semestre excelente (que nem a UTAO, a unidade técnica do Parlamento, nem as agências de rating nem ninguém deu por isso), veio agora dizer que o facto de entrarem mais alunos para a faculdade é um ponto de viragem, um corte com a política de direita e mais uma série de coisas. Ele lá saberá… mas este é o terceiro ano consecutivo em que entram mais alunos para o Ensino Superior. Foi uma viragem, portanto, que manteve exatamente o mesmo sentido, algo que se pode considerar ...

A ‘silly season’ já não é o que era

Henrique Monteiro Expresso 20160819 A ‘época ou estação palerma’, tradução literal de ‘silly season’ já não é o que era. Dantes chamava-se assim porque as notícias eram frívolas e envolviam pessoas frívolas que sabiam estar a praticar frivolidades. Os alemães chamavam-lhe Sommerloch, ou seja, ‘buraco de verão’, e os franceses la morte saison, ou a estação morta. Ou seja, não havia notícias.  Agora também há poucas, e as poucas que há são palermas. Mas os seus protagonistas pensam que não, que são declarações de alto interesse. Coisas que vão desde o discurso de Hélder Amaral sobre o MPLA até àquele em que me vou fixar: o discurso do PCP sobre a necessidade de resistirmos à “ingerência” europeia na CGD e no Orçamento do Estado. Ó camaradas comunistas, mas se a Europa não se imiscuir naquilo que paga e tem de regular, que andamos nós a fazer na Europa?  Perguntam-me se é uma humilhação o BCE dizer que não quer oito administradores por estarem a acumular com outras fun...

Causas que se evaporam

Henrique Monteiro Expresso, 20160710 Tivemos anos com problemas sociais terríveis. Lembro apenas alguns: havia emigrantes a fugir da nossa miséria; havia crianças a chegar à escola em jejum; havia filas de espera para a ‘sopa dos pobres’; havia cada vez mais sem-abrigo; havia desempregados de longa duração que viviam desesperados.  Curiosamente, esses problemas sociais terríveis evaporaram-se do espaço mediático. Não creio que se tenham evaporado da realidade do país, nem sequer posso exigir a este ou a qualquer outro Governo que em escassos meses extinguisse problemas dessa dimensão. Mas é precisamente este facto que me faz pensar. Se eles continuam, por que motivo não se fala deles hoje em dia?  Haverá várias justificações, certamente. Mas preocupa-me, em particular, que este tipo de noticiário esteja mais sujeito às agendas de prioridades partidárias do que à iniciativa da própria comunicação social. Dito de modo mais simples: desde que o BE e o PCP passaram a ap...

O povo é quem mais ordena

Henrique Monteiro Expresso, 20160625 Algo me diz que tudo o que começa por ser relativamente ordeiro e civilizado na velha Inglaterra se repercute de forma anárquica e por vezes violenta no resto da Europa. Gostava que assim não fosse, desta vez. Mas temo que seja.  Nas urnas, e com uma participação notável, os britânicos disseram estar fartos da União Europeia. Confesso que é preciso paciência para Bruxelas, Berlim e todos os pequenos e grandes desafios que nos colocam. O problema é que não vejo melhor alternativa do que ir tornando as instituições europeias cada vez mais democráticas.  Acontece, porém, que os britânicos preferiram pagar a saída. Já o estão a fazer com o que se passa com a libra e nos mercados financeiros e bolsistas. Mas o que lá se passou com um, ainda assim, civilizado UKIP e um populista, mas moderado Boris Jonhson, anda a ser pedido por Marine Le Pen em França. Quer um ‘Frexit’ (o francês já é quase uma língua morta). E os comunistas portugues...

Estado, público e privado

Henrique Monteiro Expresso, 4 de Junho de 2016 Em Portugal tem-se argumentado que, no ensino, o termo público equivale a propriedade do Estado. Porém, nos transportes (públicos) ou nos estabelecimentos (públicos), como são restaurantes ou hotéis, ou ainda hospitais e diversas IPSS, prevalece outra conceção. Em certos países, uma empresa pública é a que está cotada na Bolsa e a ideia parece certa, pois público quer dizer acessível a todos e, tal como os espetáculos públicos, não tem de ser pertença do Estado.  Voltemos às escolas, o assunto mais debatido. A Constituição em 1976 postulava (artº 75º nº 1) que: “O Estado criará uma rede de estabelecimentos oficiais de ensino que cubra as necessidades de toda a população.” Sublinhe-se a palavra ‘oficiais’. E (nº 2) “O Estado fiscaliza o ensino particular supletivo do ensino público”. Fixe-se ‘supletivo’.  Não havia dúvidas. Os estabelecimentos eram oficiais, ou seja do Estado, e o resto era supletivo, destinado a suprir ...

O grande circo das sanções europeias

Henrique Monteiro Expresso, 20160606 Não percebo, mas acredito que não seja para perceber, como pode o PS, partido ainda ontem definido pelo seu líder como socialista e social-democrata moderado, falar de submissão à Europa ou, pior, de vassalagem às teses neoliberais da Europa.  É bom, de vez em quando, assentar os pés na terra. É difícil, ou mesmo impossível, não estarmos submetidos a regras e leis de um espaço maior do que o nosso e que integramos por vontade própria. Quisemos entrar no Euro (e foi num Governo do PS, com Guterres, que o fizemos); quisemos pertencer à Europa (e foi num governo liderado pelo PS, com Mário Soares, que o assinámos). Mais: o próprio líder do atual, António Costa, disse este fim de semana algo que é claríssimo: que não se pode ser socialista (no sentido que o PS dá à palavra) fora da Europa.  Mas vem João Galamba e diz: isto não é o Partido Europeísta; é o Partido Socialista! E desaba uma salva de palmas sobre ele. Onde está a contradi...

O PS, a direita e os direitos democráticos

Henrique Monteiro Expresso Segunda, 23 de Maio de 2016  PS junta-se à direita para chumbar repúdio do PCP sobre destituição de Dilma”. Eis um título do prestigiado jornal ‘Público’ da passada sexta-feira. “PS junta-se à direita e recusa repudiar ‘golpe’ no Brasil’, noticiou o ‘Observador’. Outros jornais adotaram títulos menos ideológicos – “PS, PSD e CDS juntos no chumbo ao voto do PCP” (Expresso), mas poucos ou nenhum colocaram a questão no estrito plano da democracia. Porquê? Não sei!  O voto em questão tinha cinco pontos. Num deles repudiava-se a destituição de Dilma e noutro, ainda mais grave do meu ponto de vista, exaltava-se a República Bolivariana da Venezuela (onde há fome e repressão com fartura), verberando “a desestabilização política do país” (neste ponto PS, PSD e CDS votaram de novo juntos).  O mesmo PCP, quando foi discutido um caso sobre Angola, afirmou não se meter em assuntos internos de outro país. Foi assim que votou contra o repúdio pela c...

Há pessoas que não aprendem (mesmo sendo ministros da Educação)

Henrique Monteiro Expresso Terça, 3 de Maio de 2016  A ideia de travar os contratos de associação com escolas privadas, agora divulgada pelo Ministério da Educação, é mais do que uma simples medida de racionalização ou de poupança: trata-se de um dos maiores ataques à diversidade e à liberdade de ensino.  Naturalmente, segundo a justificação da secretária de Estado que anunciou a medida e a colocou à discussão pública, Alexandra Leitão, trata-se de evitar redundâncias e racionalizar a rede escolar. Embora não entenda totalmente por que motivo não pode haver mais do que uma escola (desde que o Estado não subsidie mais do que um estudante), uma vez que a concorrência não é negativa, penso que este argumento não é o verdadeiro.  Mas, no que há fundadas dúvidas, muitas suspeitas e algumas certezas é neste ‘pormenor’: por que razão quando acontece existirem duas escolas, uma de propriedade privada e outra de propriedade do Estado no mesmo espaço, custando ambas o mesm...

De quem é a culpa do terror

Henrique Monteiro, Expresso, 2016.03.25 Tornou-se, mais ou menos, um dever arranjar culpados, entre nós, para os ataques terroristas. À frente na lista, e com destaque, temos George W. Bush, acompanhado de Blair, Aznar e o caseiro Durão Barroso. Não fora a guerra no Iraque — dizem-nos — e estes tipos do Daesh não existiam, ou não tinham expressão. É claro que o facto de a guerra ter sido decidida na sequência do 11 de setembro de 2001, quando a Al-Qaeda derrubou as Torres Gémeas em Nova Iorque, provocando uma matança de inocentes, nada significa para esta tese. Mas admitamos que sim, que há uma relação direta entre isso e o terror. E mais, entre a ação da Europa na Líbia e o terror; entre a nossa ação nas primaveras árabes e o terror. Algumas consciências europeias adoram autofustigar-se, e temos de fazer-lhes a vontade. Claro que esta tese também não explica o terror do Boko Haram na Nigéria ou a matança jiadista na Costa do Marfim, bem como os atentados de Bali e muitos ou...

Marcelo e o fim da esquerda

HENRIQUE MONTEIRO Expresso, 2016.03.12 Aparentemente, o PS gostou do discurso do Presidente. Eu também gostei, mas não sei se ficaria tão entusiasmado caso fosse um fervoroso apoiante do Governo. É que os “afetos” e a simpatia unem quem gosta da unidade, mas separam os adeptos de outras vias.  Até esta semana a famosa “geringonça” tinha duas razões de existir — nenhuma delas era, seguramente, um orçamento que não se distingue muito dos anteriores. Essas razões eram Passos e Cavaco, os ódios de estimação da esquerda, que a maioria do povo não erigia em exemplos. Agora, um deles foi para a reforma e o outro está a ‘social-democratizar-se’. A face visível da direita, ou do que resta dela, é Marcelo Rebelo de Sousa e deste o povo gosta. Gostando o povo, o PS não pode tratá-lo como tratava Cavaco (não falo da direção do Governo ou do partido, mas da voz corrente dos seus apoiantes). Mas o PCP e o Bloco não podem alinhar na mesma onda. Até porque a agenda — nem sequer escondida ...

As notícias vistas ao contrário

Henrique Monteiro Expresso, 2016.03.09  Hoje pareceria inevitável escrever sobre Marcelo e a sua tomada de posse como quinto Presidente da República democraticamente eleito por voto universal. Mas não é isso que vou fazer, porque amanhã, depois da maioria das comemorações passadas, também é dia. Vou antes falar do modo como se fazem notícias, quando estas se veem do outro lado – ou seja do ponto de vista contrário ao do jornalista.  Ontem, ao fim do dia, estive no lançamento do livro de Henrique Raposo. Mais do que estar, fiz uma intervenção a apresentar o livro. Falou antes de mim o grande escritor José Rentes de Carvalho (é mesmo um grande escritor) e, depois, o autor, Henrique Raposo. Não dissemos todos o mesmo; discordámos em pontos interessantes.  Durante cerca de cinco minutos, a seguir à intervenção de Rentes, cerca de uma dezena de homens levantaram-se e cantaram uma canção alentejana, perante o silêncio da sala. Se não tivesse havido a polémica que ant...

Orçamento, Pangloss e Salazar

Henrique Monteiro | Expresso 2016.02.25 Segundo percebi, o Orçamento ontem aprovado na generalidade no Parlamento, é o melhor dos orçamentos possíveis. Não é um orçamento que entusiasme alguém (salvo talvez os ministros Eduardo Cabrita e Vieira da Silva, uma vez que ao primeiro-ministro é difícil ler-lhe a alma). Mas todos os outros seriam piores.  Lembrei-me da tese de Pangloss no genial livro de Voltaire “Cândido ou Otimismo”. Aquela personagem, percetor de Cândido, assegurava vivermos no melhor dos mundos possíveis. Voltaire construiu um Pangloss inspirado em Leibniz, matemático e filósofo alemão que defendia, precisamente essa tese. O mundo não era grande coisa, sofria de muitos males, mas era o melhor possível de modo a que Deus desagradasse a um mínimo possível. Era, digamos, uma bissetriz de interesses.  Nesse sentido – e também no sentido do otimismo – este orçamento é extraordinariamente ‘panglossiano’ (termo que, não por acaso, ficou plasmado nos dicionários...

À morte ninguém escapa

Henrique Monteiro Expresso, 2016.02.20 O manifesto pela despenalização da morte assistida tem como signatários pessoas que muito respeito. Não falo só do fundador deste jornal, Francisco Balsemão, mas de pessoas com quem aprendi, como Sobrinho Simões, ou outras cuja seriedade de propósitos não me passa pela cabeça pôr em causa, como Francisco George ou Paula Teixeira da Cruz.  Toda a gente tem uma história, e eu, não tendo espaço para contar a que mais me interpela, direi que jamais seria capaz de assinar aquele manifesto, apressando-me a dizer que jamais seria capaz de assinar um em sentido contrário. Já a ideia do referendo é das mais abomináveis para mim. Um tema destes deve ser, julgo eu, tratado sem dogmas, sem preconceitos e sem alaridos. Deve contemporizar e não extremar. Ninguém é a favor da morte; ninguém defende mais a vida do que outro.  Sobre o assunto só temos uma certeza: é que “à morte ninguém escapa”, como dizia uma cantilena da minha infância (hoje ...

Educação: uma folha de excel estragada

Henrique Monteiro, Expresso, 2016.02.11 Digam-me um sector em que o neoliberalismo do anterior Governo (alguns dirão fascizante) mais se tenha manifestado. Aposto que muitos responderão: na Educação! Com os cortes constantes, com mais dinheiro para os privados, com exames praticamente desumanos.  Não vou agora discutir se têm ou não razão, embora adivinhem que eu não partilho tal opinião, nem no que diz respeito a qualquer neoliberalismo geral do Governo nem no que, em concreto, concerne a Educação. Mas vejamos as coisas pelos seus resultados.  O primeiro, que é interessante, é que a taxa de abandono escolar caiu quatro pontos em 2015, se comparado com o ano anterior. É agora de 13,7% no total, um número muito alto mas já a caminho do objetivo para 2020, que é de 10%. Sabem, no entanto, qual o valor da taxa em 2010? Era de 28,3%! Com o tal Governo que queria dar cabo da educação veio sempre a descer. Isto são factos (do Pordata), não é ideologia nem discurso de Mário ...

Um Governo da Oposição

Henrique Monteiro Expresso, 20151204 Do mesmo modo que ontem aqui escrevi que a direita não pode ficar amarrada à ideia da ilegitimidade do Governo, até porque o legitimara com a moção de rejeição do programa obrigando o Parlamento a um ato maioritário de não rejeição, digo hoje que o Governo e o PS não podem – como mostraram – reduzir-se a ser oposição ao Governo anterior. Têm, rapidamente, de apresentar propostas concretas e quantificadas.  Que o Bloco e o PCP, que sustentam o Governo, se sustentam a si próprios de protestos vários, não é novidade. Por alguma razão são considerados ‘partidos de protesto’. Esse foi, aliás, o motivo que os fez estar fora de qualquer congeminação de Governo e os mantém fora deste mesmo Executivo.  Mas o PS, que inicialmente oscilou entre ser partido de protesto ou partido de poder, tendo ganho esta última via há mais de 40 anos, não pode resumir-se ao protesto… até porque tem de governar.  O debate do programa do Governo foi a...

Um Governo da Oposição

Henrique Monteiro Expresso, 20151204 Do mesmo modo que ontem aqui escrevi que a direita não pode ficar amarrada à ideia da ilegitimidade do Governo, até porque o legitimara com a moção de rejeição do programa obrigando o Parlamento a um ato maioritário de não rejeição, digo hoje que o Governo e o PS não podem – como mostraram – reduzir-se a ser oposição ao Governo anterior. Têm, rapidamente, de apresentar propostas concretas e quantificadas.  Que o Bloco e o PCP, que sustentam o Governo, se sustentam a si próprios de protestos vários, não é novidade. Por alguma razão são considerados ‘partidos de protesto’. Esse foi, aliás, o motivo que os fez estar fora de qualquer congeminação de Governo e os mantém fora deste mesmo Executivo.  Mas o PS, que inicialmente oscilou entre ser partido de protesto ou partido de poder, tendo ganho esta última via há mais de 40 anos, não pode resumir-se ao protesto… até porque tem de governar.  O debate do programa do Governo foi a...

O ativismo anti-Cavaco é irritante

Henrique Monteiro Expresso, 20151124 Cavaco nomeou Costa e isso foi uma vitória da esquerda. Porquê? Porque Cavaco tentou não nomear Costa. Porquê? Porque nomeou primeiro o vencedor das eleições! Porquê? Porque era o costume… Pois, a linha de argumentação não é grande coisa.  De qualquer modo, é uma vitória da esquerda. Porquê? Porque Cavaco demorou muito tempo a dar posse a Costa. 25 dias! Inacreditável. É certo que outros Presidentes, em situações menos complexas, demoraram mais. Mas Cavaco, caramba! é Cavaco. É um “gangster”, é “nojento” (ouvi há pouco um telespectador dizer), é uma “múmia”.  Seja como for é uma vitória da esquerda. Porquê? Porque Cavaco colocou dúvidas a Costa. É certo que Sampaio colocou condições muito mais duras a Santana e que os presidentes podem colocar dúvidas e condições aos primeiros-ministros. Mas colocá-las a Costa é uma afronta! Vejam como Jerónimo ameaçou logo com a rua, colocando condições a todos nós. E se há quem perceba de afron...