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Nossa Senhora

Tenho ao cimo da escada, de maneira Que logo entrando os olhos me dão nela, Uma Nossa Senhora de Madeira Arrancada a um Calvário de capela. Põe as mãos com fervor e angústia. O manto Cobre-lhe a testa, os ombros, cai composto; E uma expressão de febre e espanto Quase lhe afeia o fino rosto. Mãe das Dores, seus olhos enevoados Olham chorosos, fixos, muito além... E eu, ao passar, detenho os passos apressados Peço-lhe: - A sua bênção, Mãe! Sim, fazemo-nos boa companhia, E não me assusta a sua dor; quase me apraz. O Filho dessa Mãe nunca mais morre. Aleluia! Só isso bastaria a me dar paz. "Porque choras Mulher?... – docemente a repreendo, Mas à minh'alma, então, chega de longe a sua voz Que eu bem entendo: "Eu sei! Teus filhos somos nós". José Régio (1901-1969) _____

Nossa Senhora

Tenho ao cimo da escada, de maneira Que logo entrando os olhos me dão nela, Uma Nossa Senhora de Madeira Arrancada a um Calvário de capela. Põe as mãos com fervor e angústia. O manto Cobre-lhe a testa, os ombros, cai composto; E uma expressão de febre e espanto Quase lhe afeia o fino rosto. Mãe das Dores, seus olhos enevoados Olham chorosos, fixos, muito além... E eu, ao passar, detenho os passos apressados Peço-lhe: - A sua bênção, Mãe! Sim, fazemo-nos boa companhia, E não me assusta a sua dor; quase me apraz. O Filho dessa Mãe nunca mais morre. Aleluia! Só isso bastaria a me dar paz. “Porque choras Mulher?... – docemente a repreendo, Mas à minh’alma, então, chega de longe a sua voz Que eu bem entendo: “Eu sei! Teus filhos somos nós”. José Régio (1901-1969)

E assim, mais uma vez, Jesus nascia

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  Litânia de Natal (de José Régio) "A noite fora longa, escura, fria. Ai noites de Natal que dáveis luz, Que sombra dessa luz nos alumia? Vim a mim dum mau sono, e disse: «Meu Jesus…» Sem bem saber, sequer, porque o dizia. E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!» Na cama em que jazia, De joelhos me pus E as mãos erguia. Comigo repetia: «Meu Jesus…» Que então me recordei do santo dia. E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!» Ai dias de Natal a transbordar de luz, Onde a vossa alegria? Todo o dia eu gemia: «Meu Jesus…» E a tarde descaiu, lenta e sombria. E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!» De novo a noite, longa, escura, fria, Sobre a terra caiu, como um capuz Que a engolia. Deitando-me de novo, eu disse: «Meu Jesus…» E assim, mais uma vez, Jesus nascia." José Régio

Sabedoria

Desde que tudo me cansa, Comecei eu a viver. Comecei a viver sem esperança... E venha a morte quando Deus quiser. Dantes, ou muito ou pouco, Sempre esperara: Às vezes, tanto, que o meu sonho louco Voava das estrelas à mais rara; Outras, tão pouco, Que ninguém mais com tal se conformara. Hoje, é que nada espero. Para quê, esperar? Sei que já nada é meu senão se o não tiver; Se quero, é só enquanto apenas quero; Só de longe, e secreto, é que inda posso amar. . . E venha a morte quando Deus quiser. Mas, com isto, que têm as estrelas? Continuam brilhando, altas e belas. José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo'

Aniversário da morte de José Régio

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  Após ter vivido quase 40 anos em Portalegre, trabalhando como professor liceal, José Régio reformou-se em 1962 e começou a viver uma parte do ano na sua terra natal, Vila do Conde, onde viria a instalar-se definitivamente em 1966, numa casa contígua àquela em que nascera. Foi nesta casa, herdada de uma tia, Libânia, e que viria a ser transformada em Casa-Museu no pós-25 de  abril, que o escritor morreu em 1969, aos 68 anos, de ataque cardíaco. As primeiras edições dos livros de Régio continuam a ser avidamente procuradas por coleccionadores e há vários ensaístas, entre os quais é justo destacar Eugénio Lisboa, que se esforçam por manter vivo o interesse por uma obra que marcou profundamente a cultura portuguesa ao longo de décadas. A par da sua vasta produção literária e ensaística, Régio foi ainda uma respeitada figura da oposição ao regime salazarista, tendo apoiado as candidaturas de Norton de Matos e de Humberto Delgado. Deve-se-lhe a criação da revista Presença, qu...

Cântico Negro de José Régio interpretado por João Villaret

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Litania do Natal

A noite fora longa, escura, fria. Ai noites de Natal que dáveis luz, Que sombra dessa luz nos alumia? Vim a mim dum mau sono, e disse: «Meu Jesus…» Sem bem saber, sequer, porque o dizia. E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!» Na cama em que jazia, De joelhos me pus E as mãos erguia. Comigo repetia: «Meu Jesus…» Que então me recordei do santo dia. E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!» Ai dias de Natal a transbordar de luz, Onde a vossa alegria? Todo o dia eu gemia: «Meu Jesus…» E a tarde descaiu, lenta e sombria. E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!» De novo a noite, longa, escura, fria, Sobre a terra caiu, como um capuz Que a engolia. Deitando-me de novo, eu disse: «Meu Jesus…» E assim, mais uma vez, Jesus nascia. José Régio