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Introdução ao ecopopulismo

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PAULO TUNHAS   OBSERVADOR   05.12.2019 O populismo caracteriza-se por amalgamar realidades distintas, fornecendo ao mesmo tempo a aparência de uma explicação única que tudo engloba. O ecopopulismo não é excepção a esta regra geral. Este artigo é conteúdo PREMIUM no Observador. Leia mais aqui:  https://observador.pt/opiniao/introducao-ao-ecopopulismo/

Catalunha

PAULO TUNHAS        OBSERVADOR      05-10-17 Que, além de ilegal, o pseudo-referendo catalão tenha sido uma paródia de si mesmo, com as mesmas pessoas a votarem várias vezes e mil outras coisas assim, mais uma vez nada conta. Chegou cá a casa, sob vestes novas, uma vetusta relíquia de outros tempos: um gira-discos, objecto que dantes recebia também o mais sofisticado nome de pick-up (suponho que hoje se escreveria picâpe). A minha mulher trata-o com a veneração devida a um artefacto misterioso pertencendo a uma civilização passada com a qual não teve nunca verdadeiro contacto. De qualquer modo, foi a maneira de ouvir uma colecção de discos, comprados sensivelmente entre 1970 e 1985, que, por uma razão ou outra, sobreviveram a um número absurdo de mudanças de casa e a violências sortidas. Nem tudo é propriamente memorável. Descobri até na pilha um lp de um grupo rock chamado Slade, que encarnava na perfeição um conceito por aqueles t...

Acreditar no que se quer

Paulo Tunhas Observador 2/6/2016 Passos Coelho é mais compatível com a nossa forma de vida democrática do que António Costa. Entre outras coisas, é dotado de uma característica simpática: não acredita que as vacas voem. Dou o meu próprio exemplo, meio envergonhado, apenas porque não me devo, nestas matérias, distinguir praticamente em nada da maior parte das pessoas. Falta-me completamente o interesse e a imaginação para adivinhar “jogadas” e “contra-jogadas” dos políticos. Não tenho ao meu dispor nenhuma teoria da sociedade que julgue resolver de uma penada o grosso dos nossos problemas e que me sinta obrigado a contrapor, com provas definitivas, às dos outros. Não tenho, como alguns poucos efectivamente têm, uma “visão de Portugal”. Nem sequer a filosofia política é a minha área de interesse principal em filosofia, e menos ainda ambiciono (ou tenho predicados para) pertencer à Igreja Universal da Politologia. Estas múltiplas incompetências, chamemos-lhes assim, não me impe...

A vaca, o marxismo e o porquinho mealheiro

Paulo Tunhas | Observador | 2016.05.26 Gente avisada, como Teodora Cardoso, já anda a falar seriamente da possibilidade de um novo resgate. O “tempo novo”, esta Primavera de que falam, pode bem ser um tempo que nos faça voltar para trás. Christopher Hitchens contou a história uma vez na Atlantic, uma história que lhe havia sido narrada por um velho jornalista que tinha organizado – há muito, muito tempo, como se adivinhará – um programa de rádio para a BBC. O programa tratava de gente célebre que havia emigrado para Inglaterra. E, procurando alguém que tivesse conhecido pessoalmente Marx, o jornalista acabara por descobrir um velhíssimo funcionário da sala de leitura do British Museum, ao qual fez uma descrição física detalhada do personagem. De súbito, uma luz. “O sr. Marx, claro. Deu-nos uma carga de trabalho, se deu, com todos os pedidos de livros e jornais… E, de um dia para o outro, deixou de aparecer. E sabe uma coisa engraçada?” Pausa cheia de significado. “Nunca mais n...

O lugar do outro

Paulo Tunhas Observador, 2016.03.31 O jogador de xadrez deve pensar que o adversário visa a sua destruição no tabuleiro. Uma das glórias maiores de Maquiavel foi precisamente ter levado esse tipo de pensamento às últimas consequências. A questão do lugar do outro, e a questão das razões pelas quais nos devemos colocar no lugar do outro, são velhas questões da filosofia. Não das mais velhas, certamente, pelo menos se tivermos em conta a sua formulação explícita, mas mesmo assim velhas questões. Em Leibniz e Kant, por exemplo, no seguimento do cristianismo, elas encontram-se claramente formuladas. E, como quase todas as questões filosóficas verdadeiramente substantivas, por mais abstractas que a linguagem filosófica as faça parecer, elas são susceptíveis de serem traduzidas na linguagem da nossa experiência comum que, à superfície e no fundo, é sempre aquilo que interessa mais. O que diz respeito a todos, ou a quase todos, é sempre aquilo que interessa mais. Leibniz é, como se...

A estranha vida dos anacronismos

Paulo Tunhas Observador 10/3/2016 O gesto de não aplaudir o ato de posse do Presidente significou algo grave: a exterioridade declarada desses partidos em relação ao regime. Um regime onde, anacronicamente, ocupam hoje posição central Um dos melhores anacronismos da história do cinema encontra-se certamente num dos diálogos de The Lion in Winter, um filme (nada mau, seja dito de passagem) de 1968 com Peter O’Toole e Katherine Hepburn. Hepburn, que representa o papel de Leonor da Aquitânia, quando interrogada sobre a intensidade dos seus amores passados com Henrique II de Inglaterra (O’Toole), responde displicentemente: “Oh, isso é pré-história!”. O mérito deve-se sem dúvida a Hepburn, que era célebre por intervir muito, e consta que muito autoritariamente, nos diálogos dos seus filmes. Mas pôr na boca de uma personagem do século XII, como se alguém lhe tivesse pessoalmente perguntado algo sobre os seus amores com Howard Hughes, a palavra “pré-história”, é obra. Em matéria de...

“Sobre falar merda”

Paulo Tunhas Observador 25/2/2016 O contributo intelectual de Isabel do Carmo para a relação entre neoliberalismo e obesidade lembrou-me "On Bullshit", um livrinho onde se debate “uma compreensão teórica do que significa falar merda”. Como muita gente, também eu fiquei surpreendido com o notável alcance teórico do artigo que Isabel do Carmo publicou esta quarta-feira no Público (“Impostos e gordura”). Depois de levar a cabo uma defesa do Orçamento de António Costa e de designar os inimigos internos e externos do povo português, Isabel do Carmo estabelece uma importante relação entre dois aspectos aparentemente díspares da nossa actualidade: o “neoliberalismo” e a obesidade. “O neoliberalismo tem-se relacionado com o aumento da obesidade”, escreve, para quase logo a seguir acrescentar: “O neoliberalismo faz mal à saúde”. A conclusão é magistral, digna de um pré-socrático: “Isto anda tudo ligado”. Não é aqui o lugar para expor a série de reflexões que este signific...

Um homem com um cérebro tão grande…

Paulo Tunhas Observador 4/2/2016 Como me escrevia um amigo no outro dia, o lapso de António Costa, que por duas vezes chamou “primeiro-ministro” a Passos Coelho no parlamento indica pelo menos alguma má-consciência Pois lá anda o PS de novo a entrar-nos pela casa dentro, com o seu costumeiro cortejo de desastres. Já é um hábito. Agora calharam-nos as “reversões” de vária espécie, que nos vão custar uma fortuna, o que não importa muito ao Governo, e as aventuras com Bruxelas, que inspiram os impulsos belicosos não só do Bloco e do PC como mesmo, e com muito sentimento, de vária gente do PS que adora “bater o pé” a Bruxelas. Face a isto, e a muito mais, e ao que virá a seguir, que não vai ser lindo, o que era bom era uma pessoa poder rir-se com esta “aventura intelectual” (Mário Centeno) do “tempo novo”. Mas como a coisa roça a delinquência pura e dura, e como vamos sofrer muito com ela, a vontade de rir é pouca. Como escrevia aqui muito bem Alexandre Homem Cristo, estão a g...

Caim e Abel em Paris

Paulo Tunhas Observador 19/11/2015 É urgente rever a Bíblia. Ou, se se quiser, desconstruí-la “sem paternalismos”. Por estes tempos, para a esquerda portuguesa, foi Abel que matou Caim. Graças a Deus, há maioria no Parlamento. Os carrascos são carrascos, as vítimas são vítimas. Caim matou Abel, Abel não matou Caim. Desde a passada sexta-feira, tenho tido a impressão que muita gente não se dá bem com estes raciocínios simples. Parece que as coisas são mais complicadas. Numa conversa, fui avisado, por alguém que eu julgava ter-se convertido finalmente ao bom-senso, que o “discurso televisivo” sobre os atentados de Paris sofria de “maniqueísmo”. Não que não existisse na pessoa em questão dor pela carnificina, existia imensa: apenas que ela devia ser, por assim dizer, matéria privada, insusceptível de se desdobrar em juízo político. Rapidamente me apercebi que esta ideia se encontra muito difundida. Tomemos, por exemplo, a “Nota do gabinete de imprensa do PCP” do dia 14: “PCP co...

Viva Italia!

Paulo Tunhas 12/11/2015 António Costa destruiu o sistema de expectativas que nos fazia dar sentido – um sentido real – ao acto de votar. A situação que se vive é uma situação de sem-sentido que só pode gerar o pior. Falo de vez em quando ao telefone com uma velha amiga grega, especialista da imagem da Grécia antiga na literatura europeia dos séculos XVIII e XIX e cidadã de Atenas. Sempre foi vagamente marxista (tendência althusseriana), mas nos últimos tempos virou à direita e em Janeiro deste ano votou na Nova Democracia. Conhecendo de perto a gente do Syriza, antecipou o caos que aquilo traria. Claro que a viragem à direita lhe trouxe problemas (na universidade, por exemplo), mas, como o mundo é complicado, ainda vêm amigos votantes do Syriza (alguns aspirantes a ministros) chorarem-lhe em privado a traição burguesa de Tsipras e a cedência a Merkel. Dia cinco de Outubro telefonei-lhe a contar os resultados das nossas eleições. Eu estava muito ufano dos meus compatriotas po...

Um Frankenstein do nosso tempo

Paulo Tunhas observador 5/11/2015, 8:11 Somando tudo, há coisas mais sensatas do que ser obrigado a levar a sério Catarina Martins ou presumir alguma boa-fé em António Costa ou cultura democrática em Jerónimo de Sousa. Para quem não faça da realidade política o objecto principal do seu estudo, um dos inconvenientes dos períodos de turbulência política, com o seu cortejo de indeterminações, medos e anseios, é que uma pessoa trabalha pior. Tenho sentido isso na pele. Mesmo tendo alguma facilidade, e até algum treino, em manter as coisas em gavetas separadas, quando a grossa ventania entra pela casa dentro os papéis voam e misturam-se. Ora, esta espécie de união poliafectiva das esquerdas que António Costa tem andado criar é uma tempestade a sério. E Deus sabe como eu gostaria que ela acabasse, para não ter, para conseguir trabalhar direito, de me transformar numa espécie de eremita, mesmo daqueles eremitas que, como dizia o outro, sabem os horários dos comboios. Desgraçadame...

Não é um jogo

Paulo Tunhas Observador 20151029 Como desviar os olhos e aguentar o que se passa quando nos estão, pura e simplesmente, por interesses pessoais e de facção, a lixar a vida? Quando as regras que normalmente nos orientam são rompidas? Em tempos políticos mais ou menos normais, o que quer que isso seja, as considerações morais não desempenham um papel por aí além, a não ser quando, ritualmente, os políticos são criticados por falharem num tipo ou outro de promessas (quase sempre em matéria de impostos). Aí acontece-lhes verem-se acusados do feio acto de mentir. Também há a pergunta cíclica: “Comprava-lhe um carro em segunda mão?”. Mas, somando tudo, é coisa pouca. Felizmente, diga-se de passagem. A pregação moral é um labor cansativo e, para as almas mais dubitativas, costuma deixar um sabor amargo na boca. Há, no entanto, circunstâncias em que o juízo político não pode, por menos exaltada que uma pessoa seja, deixar de se acompanhar por um juízo moral. A nossa situação actual ...