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A ratazana

JOSÉ MIGUEL PINTO DOS SANTOS Público 23/07/2015 Sempre houve quem considerasse as suas ideias mais importantes que a realidade. Sempre houve quem considerasse as suas ideias mais importantes que a realidade. E a piada que hoje achamos às tentativas que fizeram para adaptar a realidade aos seus modelos seria mais gozosa não fosse a notícia que temos do sofrimento humano que essas tentativas geralmente causaram. A esta falta de correspondência entre o pensamento e a realidade chamou-se, desde há muito, erro ou insanidade. É-lhe atribuída como causa o uso deficiente da razão. Também sempre houve quem pensasse que o discurso não tem de corresponder ao pensamento. Embora seja um erro, desde a mais alta antiguidade que políticos e sofistas aplicam com entusiamo este princípio. À falta de correspondência entre palavra e pensamento, chama-se, com toda a simplicidade, mentira. Daí a fama que os políticos têm de serem sofistas, não no sentido de seguirem uma determinada corrente d...

E o resto?

MIGUEL ESTEVES CARDOSO Público 04/06/2015 Na maldade do luto apeteceu-me pedir que completassem a frase. "Os meus sentimentos... quê? Então e o resto?" Há vinte anos, quando morreu o meu pai, dizia-se: "Os meus pêsames." É feio. É pesado. Mas, quando se está de luto, as coisas pesadas (e as leves) fazem companhia. Agora dizem-me: "Os meus sentimentos." É mais bonito. Mas continua a faltar um verbo qualquer. Quem diz "os meus sentimentos" diz "as minhas emoções", "as minhas lágrimas" ou "as minhas ideias". Na maldade do luto apeteceu-me pedir que completassem a frase. "Os meus sentimentos... quê? Então e o resto?" Será, por exemplo, "Os meus sentimentos por si são de compaixão e solidariedade"? Ou "Os meus sentimentos estão a dar cabo de mim"? Ou "Os meus sentimentos só eu é que sei quais são"? "Os meus sentimentos" são o sujeito de uma oração a que falta,...

Pequeno dicionário do nosso tempo mediático

Helena Matos 22/2/2015 A crise humanitária. A austeridade. A sensibilidade social. A fome. As desigualdades. Expressões a usar sem moderação. A crise humanitária . O que distingue a Grécia da Venezuela? A crise humanitária. Ou seja, a Grécia vive, no dizer de muitos jornalistas portugueses, uma crise humanitária. Já a Venezuela, com as prateleiras vazias, presos políticos e uma criminalidade elevadíssima, que por sinal afecta e muito a comunidade portuguesa, vai vivendo com algumas dificuldades, nas quais se inclui aquela coisa mais ou menos folclórica de não terem papel higiénico e o facto de os preservativos custarem uma pequena fortuna. Cuba, por exemplo, onde falta quase tudo e também a liberdade, não vive qualquer crise humanitária desde que um tal Baptista (ditador) se exilou no início de 1959 deixando o caminho livre aos irmãos Castro (libertadores) que, para tranquilidade dos nossos activistas sociais, asseguram há 56 anos uma ...

Pare, escute e pense – da importância das palavras

MANUEL MATOS MONTEIRO  Público   20/02/2015 Casos há em que devemos guardar o étimo, sem permitir, enquanto é tempo, distorções danosas da consagração pelo uso. Só um ingénuo acredita que a realidade pode, por intermédio das palavras, ser descrita de forma neutra. O emagrecimento do Estado ou o desmantelamento do Estado? Austeridade ou empobrecimento? Alívio fiscal das empresas ou benefícios ao capital (que com C maiúsculo ainda pesa mais)? Liberalização do aborto ou descriminalização da interrupção voluntária da gravidez? Flexibilização do mercado de trabalho ou desregulamentação do mercado de trabalho? Economia de mercado ou capitalismo? Entre umas e outras… vai todo um programa. A escolha das palavras obedece a uma lógica de propaganda que, como é sabido, quanto mais insidiosa, mais eficaz. Em tempos de crise, há mais "insolvências" do que duras "falências", sobreabundam as amoráveis "almofadas financeiras", já não se raciona – racionaliza-...

As palavras também fazem amor

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José Luís Nunes Martins, i-online 25 Ago 2012 Só o que conseguirmos dizer a uma criança pequena, sem equívocos nem adornos, é realmente verdade. Tudo o mais é... pior que o silêncio Se é fácil concordar com a ideia de que as palavras podem fazer grandes males, por que razão não são vistas como precursoras do maior bem? Afinal, sendo leves como o vento e fortes como o mar, as palavras, e os silêncios entre elas, são capazes de trazer e levar Deus, de criar e destruir o amor... A palavra é a ponte que faz o encontro do homem com o mundo. Por vezes, pesa montanhas e tem a espessura de rochas, outras, é mais leve que o ar e transparente como um céu. As palavras expressam-nos e impressionam-nos. São actos puros. Estabelecem verdades, criam-nas, alimentam-nas e também lhes põem fim. São, ou deveriam ser, ecos do que se passa de forma silenciosa nas profundezas da alma. As palavras mais ricas não são necessariamente as literárias de Nobel, mas as autênticas, as que trazem consigo luz, um...