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A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: Luciano Amaral

Gaspar de esquerda

Luciano Amaral Correio da manhã| 2016.09.19 | 01:45 A ‘geringonça’, como projecto económico, morreu. Pode sobreviver como projecto político, pelo menos enquanto o balão de oxigénio da ‘devolução de rendimentos’ mantiver os seus beneficiários satisfeitos. Como esses beneficiários são sobretudo da classe média e média alta, em particular funcionários públicos, que são dos grupos mais ruidosos na opinião pública, o balão vai dando para umas sondagens razoáveis. Por sua vez, as sondagens vão dando para manter a ‘geringonça’ junta, apesar de casos que noutros tempos teriam levado PCP e BE à apoplexia (como o ‘Galpgate’ ou o episódio da CGD). A morte da ‘geringonça’ económica não é coisa pouca. Os seus três partidos passaram o tempo a dizer que a política da ‘troika’ era errada e que Portugal precisava de uma política de crescimento. Devolver rendimentos era a maneira de fazer isso, pois a economia cresceria com o consumo. Ora, os rendimentos foram devolvidos e… nada. Para o O...

Esquerda e o Verão

Luciano Amaral Correio da manhã | 11.07.2016 01:45 Os portugueses parecem aqueles fulanos a quem deram dois meses de vida.  António Costa deve estar a pensar agora como é bom ter a esquerda (quer dizer, o PCP e o BE) muito caladinha quando se governa. O crescimento da economia tem sido miserável desde que o PS é Governo e, segundo o próprio ministro das Finanças, miserável será no conjunto do ano. Onde estão os intrépidos justiceiros da esquerda (e onde está o PS?) a exigir uma "política de crescimento" contra o "neoliberalismo do equilíbrio orçamental"? Precisamente, o tema dos últimos tempos tem sido, por via da discussão das "sanções", o afinco do Governo em manter as metas orçamentais europeias – e o Governo afirma-se muito respeitador delas. Coisa que o remoçado Sócrates ainda anteontem lamentou. Então António Costa e a esquerda já não querem "bater o pé" à Europa? E tudo isto acontece enquanto se prepara mais uma milionária salvaçã...

Da Caixa à cova

Luciano Amaral Correio da manhã 27.06.2016 01:45  A Caixa Geral de Depósitos foi o banco mais imprudente dos últimos anos.  A factura da Caixa Geral de Depósitos continua a agigantar-se: agora já se fala numa recapitalização de 5 mil milhões de euros (e, à boca pequena, até há quem aponte para mais). Se a isto juntarmos as recapitalizações e ajudas do passado próximo, chegamos a um valor que ultrapassa o resto dos desastres bancários todos juntos. Tanta coisa sobre a imprescindibilidade da Caixa para "regular o sistema financeiro" e afinal foi o banco mais imprudente dos últimos anos. Uma reportagem de Cristina Ferreira no jornal Público de há uns dias revelou um quadro verdadeiramente terceiro-mundista de créditos desastrosos, dados sem as garantias adequadas, num corrupio de promiscuidade degradante. Sejamos claros: a existência de um grande banco público como a Caixa Geral de Depósitos não corresponde a nenhuma necessidade financeira ou económica, mas a uma necess...

O Costa do Marcelo

  Luciano Amaral | Correio da manhã, 06.06.2016 Os sinais de perigo para a geringonça acumulam-se: a economia continua péssima.  Pode parecer hoje incrível mas, tal como Costa e Marcelo, também Sócrates e Cavaco se deram muito bem ao início. Depois, foi o que se viu. Ora, as coisas já não estão na mesma entre Costa e Marcelo. Durou muito menos o namoro, e compreende-se porquê. Sócrates apoiava-se numa maioria absoluta conquistada directamente, não precisava da ajuda do Presidente (e quando precisou, não sobreviveu). Já Marcelo teve os votos que Costa não teve. Convém perceber a base do nosso regime semipresidencial: o Presidente é eleito de forma directa por sufrágio universal, o que lhe dá uma legitimidade democrática concorrente com a do parlamento. A geringonça é um arranjo pós-eleitoral entre partidos que se detestam mutuamente. A sua plataforma de entendimento é muito frágil. Marcelo não apenas foi eleito com 52% dos votos como tem de senvolvido um estilo popularuc...

Acordar mal

Luciano Amaral, Correio da manhã, 09.05.2016 O problema principal do acordo ortográfico é ser um objecto desnecessário. É curioso que a posição política mais válida do novo Presidente da República tenha sido até agora aquela em que largou o mantra do consenso: sobre o acordo ortográfico, o Presidente, mesmo não tendo sido muito afirmativo, reabriu a questão, quando afirmou que o facto de Angola e Moçambique não o terem ratificado abria uma oportunidade para "repensar a matéria". Já se disse quase tudo sobre "a matéria", mas vale a pena regressar a alguns pontos. O problema principal do acordo é o de ser um objecto desnecessário. Antes dele, a escrita do português nos vários países que o têm como língua era praticamente igual, excepto por algumas diferenças de que nunca ninguém se queixou e eram tidas por exemplos engraçados de cor local. Depois dele, a escrita aproximou-se entre os países mas só marginalmente: antes, a semelhança de palavras entre Portugal e ...

I love Costa

Luciano Amaral Correio da manhã, 2016.05.02 Neste momento, Portugal parece o paraíso e a festa do 25 de Abril este ano foi tão bonita, pá. 02.05.2016 01:45 Toda a gente quer Costa como primeiro-ministro. Pelo menos por enquanto. A parelha Jerónimo Martins (ou Catarina de Sousa, para não ser acusado de sexismo) quer Costa primeiro-ministro mesmo depois de Costa ter anunciado um bom pacotinho de austeridade para os próximos anos (e mesmo existindo a fundada expectativa de que este ano ainda vem por aí mais alguma coisa). Isto porque, por agora, vai vingando a alegria das "reposições" de rendimento e a austeridade é só um espectro distante. Lançar Costa às malvas neste momento seria não só impopular como dar o flanco à crítica de que a esquerda é o melhor aliado da direita. Mas a direita também quer Costa como primeiro-ministro e por razões parecidas: tanto quanto se sabe das sondagens, a alegria da reposição coloca Costa à frente em hipotéticas eleições antecipadas, sobr...

Bancos de Portugal

Luciano Amaral, CM 28.03.2016 00:30 A banca portuguesa precisa de um enquadramento legal que a torne transparente e eficiente.  Nem de propósito: no meio de tanta discussão sobre nacionalização de bancos e os "perigos" da "espanholização" da banca portuguesa, descobrimos que o défice orçamental do ano passado foi de mais 2 mil milhões de euros, por causa do BANIF. Eis algo que nos recorda quanto custou a todos, neste caso, tanto a "portugalidade" da propriedade como a nacionalização. Mas a factura dos contribuintes no que toca aos bancos, que se entretiveram em negócios desastrosos nas últimas décadas, não fica por aqui: já vai em mais ou menos 10 mil milhões – podendo chegar a 15, dependendo do que acontecer ao Novo Banco. Grande parte do custo vem do BPN e do BANIF, bancos bem portugueses que alguém se lembrou de nacionalizar a certa altura. Diz que o banco público, a Caixa Geral de Depósitos, precisa de um reforço de capital. Dos bancos a actua...

Voltas

Luciano Amaral Correio da manhã, 2016.01.18 Não sei se Marcelo percebeu que a esquerda não vota apenas contra si. Vota também contra Cavaco. O candidato Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa quer ser eleito Presidente da República na primeira volta das eleições, já a 24 de janeiro. Quer, e talvez tenha mesmo de ser, para chegar lá. Segundo as sondagens, tudo parece estar a correr bem. A técnica que escolheu para isso é bastante simples: desprezar a direita, no limite da hostilização, dando por adquirido o seu voto, e namorar enlevadamente a esquerda, de forma a obter os votos que permitam ultrapassar a barreira dos 50%. O problema é se isto não funciona e Marcelo tem de enfrentar um dos candidatos da esquerda (mais provavelmente Nóvoa) numa hipotética segunda volta. É verdade que nenhum parece muito ameaçador para as suas pretensões. Mas a ocorrência de uma segunda volta seria, desde logo, uma pequena derrota, para além de poder suscitar a mobilização do povo de esquerda. Ora,...

A banca ou a vida

LUCIANO AMARAL CM 28.12.2015 Não basta atirar as culpas para o "governo da direita". É preciso explicar tudo muito bem.  A primeira coisa a perceber sobre o BANIF é que o banco não foi comprado pelo Santander. Foi oferecido. Melhor, o Estado pagou para que o Santander ficasse com o BANIF. É o que significa o facto de o Santander ter dado 150 milhões de euros enquanto o Estado e o Fundo de Resolução da banca lá colocaram 2,3 mil milhões. Isto para além de um conjunto de garantias várias (mais o risco de não se venderem os activos que ficaram no veículo "tóxico"). Ora, para esta operação catastrófica não basta atirar as culpas para o "governo da direita". É preciso explicar tudo muito bem. Com certeza que o governo PSD-CDS tem responsabilidades, desde a decisão de ficar com cerca de 60% do capital do BANIF até à manutenção em funcionamento durante três anos daquele autêntico vegetal bancário. Mas é preciso que se explique porque é que uma "vend...

Escavacar

Luciano Amaral Correio da manhã, 20151026 A ‘maioria de esquerda’ tem de provar o que vale como efectiva alternativa.  Já se sabe que o grande desporto nacional é escavacar o Cavaco, coisa que se voltou a dar depois de o dito cujo ter decidido indigitar Passos Coelho como primeiro-ministro. Mas a verdade é que essa decisão é a mais correcta face à Constituição e à tradição política da nossa democracia. Se o não tivesse feito, Cavaco estaria, de facto, a ratificar a tal ‘golpada’ de que tanto se tem falado. A dimensão da ‘golpada’ só se tornou clara nos últimos dias, quando percebemos que Partido Socialista, Partido Comunista e Bloco de Esquerda continuam a não passar de uma ‘maioria negativa’, uma vez que não firmaram qualquer acordo. Como muito bem disse o Presidente, neste momento, essa é uma ‘alternativa inconsistente’. Ou seja, face ao que existe, não havia alternativa. Ora, reposto o ‘normal funcionamento das instituições’, entramos no espaço da luta política legíti...

Luciano Amaral e "Rica Vida - Crise e Salvação em 10 Momentos da História de Portugal", 26 de Janeiro - ciclo POLÍTICA E PENSAMENTO

Próxima segunda-feira , 26 de Janeiro , às 18:30 horas, na Livraria Férin (ao Chiado). Andamos atormentados com questões de destino, de ânimo, de identidade e de rumo. Tempos difíceis, tempos de crise. Tempos de escolha também. O estribilho "vivemos acima das nossas possibilidades" – e agora suportaremos as consequências – anda no discurso público e nas conversas de toda a gente desde há uma década, senão mesmo já há vinte anos. Foram tempos aparentemente fáceis que se tornaram difíceis, tempos de "abundância" que se volveram em aperto. E agora? Foi várias vezes assim ao longo da nossa História nacional, em que, além de outras questões, também "vivemos acima das nossas possibilidades" . Em contextos diversos e com resoluções diferentes, mas sempre empurrando...

Aristocracias

Luciano Amaral Correio da manhã, 05.01.2015 No caso do nosso, são os socialistas, no sentido de membros do Partido Socialista. Os socialistas adquiriram esse estatuto graças a terem estado "historicamente correctos" duas vezes: quando lutaram contra o fascismo, antes do 25 de Abril, e quando lutaram contra o comunismo, logo depois. O resto da esquerda não tem os segundos galões, a direita nunca se libertou bem da sombra do salazarismo. O problema das aristocracias é a crença na sua superioridade natural. É por isto que, quando algum caso judicial envolve socialistas, se cria logo um ambiente paranóide e fervem as acusações de perseguição. Se o caso envolve não-socialistas, são logo culpados muito antes do julgamento. Se envolve socialistas, são vítimas inermes de espantosas caçadas políticas. Foi sempre assim, do caso "Casa Pia" aos vários "casos Sócrates" (incluindo o actual), passando pelo caso "Face Oculta". No corrente "caso Sócra...

Papa móvel

Luciano Amaral Correio da manhã, 2013-02-15 Por detrás das declarações rotineiras de membros da Igreja Católica sobre a "coragem" do papa na sua demissão existe uma grande perplexidade. Porque o certo é que ninguém, amigo ou inimigo do papa, sabe bem o que fazer com a sua atitude. Mas talvez ela tenha mais sentido do que parece. Todos os que acreditaram num mandato conservador não ouviram quem avisou desde o início que Ratzinger era um homem do Vaticano II, um homem da adaptação da Igreja ao mundo moderno. Tudo o que de significativo fez Bento XVI seguiu precisamente o "espírito do Vaticano II": o ecumenismo, a precedência do direito judicial secular sobre o canónico nos casos de pedofilia, a reforma do sistema financeiro do Vaticano, para o tornar transparente. E agora, como corolário, a demissão, como se fosse um primeiro-ministro. Em tudo encontrou resistências e incompreensão. O papa está visivelmente doente. Ter-se-á sentido sem forças para continuar as...

Big God

Luciano Amaral O gato de Cheshire, 080911 Ontem, a propósito do acelerador de partículas do CERN, todo o mundo discutiu grandes questões: a origem do universo, o big bang, o bosão de Higgs, a existência de Deus. Fez-me um pouco de impressão o teor de algumas conversas, falando da partícula divina e outras expressões do género, como se o acelerador de partículas fosse capaz de fornecer a solução absoluta para a compreensão do universo. Como muito bem disse a Professora Amélia Maio na SIC-N ontem à noite, mesmo se admitirmos que a experiência deixa ao nosso alcance a explicação do big bang, continua a deixar fora dele aquilo que existia antes do big bang. Ou seja, se, numa linguagem mais filosófica, dissermos que o big bang deu origem ao universo e que, portanto, antes dele era o nada, resta uma coisa por esclarecer: como é que o nada pode ter dado origem a tudo? Ou seja, se antes do universo já existia qualquer coisa que lhe deu origem, é porque essa coisa era já qualquer coisa. Al...