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A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: Ferreira Fernandes

Raríssimas

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FERREIRA FERNANDES                  DN                 11.12.2017 A Raríssimas, Associação Nacional de Deficiências Mentais e Raras, não podia aguentar-se à custa de um mecenas. Estes são raros em Portugal. Fosse o caso, uma Raríssimas rara porque a viver de dinheiros privados, não faria sentido a recente reportagem da TVI sobre a Raríssimas e a gestão da sua presidente. Cada um faz o que quer da sua caridade. Da sua. Mas a Raríssimas é uma instituição que, embora privada, sobrevive graças a subsídios estatais (665 mil euros em 2016). Porém, nem mesmo essa condição de dependente de donativos oficiais pode proibir à presidente os tiques de soberba que lhe são assinalados na reportagem. A presidente emprega o filho e apresenta-o publicamente como "o herdeiro da parada" (isto é, da Raríssimas); a presidente fazia levantar o pessoal de cada vez que ela passava no corredor; enfim, a presidente é qu...

Marcelo explicado aos portugueses

FERREIRA FERNANDES   DN  21.11.16 O raio do homem, Marcelo, sabe estar com pobres e com ricos, com ignorantes e sábios - o que entre nós é de espantar. Para cima, ele, que foi ministro, líder partidário, catedrático, e é Presidente, fala aos seus com à-vontade. Prudentes, preferimos não o imitar e nessa direção, de baixo para cima, continuamos com as poses tradicionais: circunspectos, pé-atrás, com mesuras e à coca (julgo ser esta a mais comum). Para baixo, o falar comum português desliza com a insídia do desprezo ou, pior, esse mesmo mas disfarçado, paternalismo. Com Marcelo, não. Ele trata cada um como se fosse o seu interlocutor naquele momento. Conversa. Troca palavras. Tal como é para cima, também para baixo. Ele é uma lição de democracia em andamento que não temos aproveitado como devíamos. Mas acaba por ser uma irritante lição, como são todas que são simplesmente civilidade, a normalidade entre iguais. Há quem não goste, sobretudo daquele tu-cá-tu-lá popular, que a...

Muita tabuleta ele vai ter de apagar

FERREIRA FERNANDES DN 29 agosto 2014 A Praça do Império tem brasões florais das ex-colónias no jardim. O vereador Sá Fernandes quer que sejam eliminados porque brasões de ex-colónias "estão ultrapassados". É um critério e está bem defendido:ex quer dizer estar ultrapassado. Mas brasões e tabuletas existem também para lembrar coisas que acabaram. Se vamos acabar com tudo que acabou, a Praça do Império vai na enxurrada, aliás como o seu autor, Cottinelli Telmo, que também tem praça. Outra: a Rua Cidade de Salazar, no Bairro das Colónias. Parece um buraco negro: já não há colónias, nem Salazar, nem Cidade de Salazar (hoje chama-se Ndalatando). O problema é que se vamos por aí também há argumentos para acabar com a Praça da Alegria. Mas se acabamos com coisas que acabaram ou que dizem coisas com que não gostamos hoje, caímos naquilo de o apetite vir com o comer. O Beco da Ré vira Beco da Arguida. O Beco do Carrasco parece morar em Estado Islâmico. O Beco das Beatas pode s...

E pouco se falará do que se passou ontem

por FERREIRA FERNANDES DN 2014.08.25 Em agosto de 1944, os oficiais alemães acusados de participar no atentado falhado contra Hitler foram julgados em Berlim. Iriam ser todos fuzilados, mas a condenação começou logo no julgamento. Todos os réus tinham calças largas e sem cinto. Quando se levantavam, agarravam-se às calças numa posição ridícula. Em 1952, o PC checoslovaco organizou o Processo de Praga contra ex-dirigentes comunistas caídos em desgraça. À entrada dos réus no tribunal, assistentes, advogados e juízes gargalharam porque os 14 detidos tropeçavam nas calças largas e sem cinto. Onze foram condenados à morte e executados (há um belo filme, A Confissão, de Costa-Gavras, sobre o processo). Ontem, dezenas de soldados ucranianos foram passeados numa avenida de Donetsk, na região leste da Ucrânia controlada por separatistas pró-russos. Os soldados iam de mãos amarradas nas costas e eram escoltados por baionetas e insultados pela multidão nos passeios. Depois de eles passarem...

Nelson Mandela

DN 2013-12—06 FERREIRA FERNANDES Entre 1964 e 1976, Alden Whitman fez centenas de obituários para o The New York Times e fez desse género uma arte. Escrevia os obituários de avanço e aperfeiçoava-os pedindo entrevistas ao futuro morto. Nesses encontros, ele tinha o pudor de não dizer porque estava ali, mas o ex-Presidente Harry Truman, homem prático, foi direito ao assunto: "Sei porque está aqui, pergunte lá..." Eu não faço obituários, mas sabia que iria escrever na morte de Nelson Mandela. Sabia também que seria incapaz de escrever de avanço sobre ela. E sabia ainda, na hipótese inverosímil de entretanto encontrar Mandela, que nesse encontro não lhe pediria memórias para um obituário. Pela razão inversa que está expressa na frase de Harry Truman: ali, havia só uma personagem (o ex-Presidente) e um mediador (o jornalista). Ora, se o assunto é a morte de Mandela, um encontro meu com ele trazia uma outra personagem: eu. Há meses, no princípio do verão, já a agonia de Man...

Hoje, derrubo grades, amanhã defendo-as

Ferreira Fernandes DN 2013.11.22 Não gostei de ver os polícias a subir, como invasores, as escadarias da Assembleia da República. Não gosto de ver invasões da Assembleia da República, mesmo que só sob a forma de ameaça. As forças de segurança têm razões de protesto como a maioria dos outros portugueses. Mas não têm as mesmas possibilidades de exercer o direito a esse protesto. Há coisas que uns têm e outros não têm, e isso é assim não só por causa da injustiça com que o mundo está desorganizado; é também assim por causa de como o mundo tem, e tem mesmo, de ser organizado. Já é altura de todos entendermos esse relativismo. Os homens do lixo podem fazer uma greve total durante dois dias; já os médicos e os enfermeiros não podem. Os camionistas, na estrada, podem combinar parar em todo o País às 15.35 de um determinado dia; já os pilotos de avião, no ar, não podem. Se calhar já todos entendemos esse relativismo, sem que nenhum grupo social se sinta desapossado dos seus direitos. Ora...

Diretamente da escadaria, o poeta

FERREIRA FERNANDES DN 2012-11-16 A melhor reportagem sobre os momentosos acontecimentos da escadaria do Parlamento, encontrei-a ontem num blogue, o Delito de Opinião. Dizia: "Não te candidates nem te demitas. Assiste./ Mas não penses que vais rir impunemente a sessão inteira./ Em todo o caso fica perto da coxia." Assinava a reportagem Alexandre O'Neill. Vocês vão dizer: como crer em factos narrados sobre anteontem, quando o homem já morreu há 26 anos? Respondo: era poeta, vê longe. Eu, por exemplo, não sou, e fiquei-me pelo que mais mexia: os rapazolas das pedras e os polícias que os aguentaram, aos rapazolas e às pedras, hora e meia mas não eternamente. Enfim, escrevi sobre o óbvio (que os revolucionários façam a revolução e que os polícias policiem) e dei pouca atenção aos mirones. Mas esse fluir fundo não escapou ao poeta. Eu com olhos nas pedras e nos bastões, e O'Neill nessa improbabilidade de gente que nunca passa fora da passadeira ficar ali a olhar a boçal...

Afinal, somos só aldrabões

DN 2012-08-29 FERREIRA FERNANDES Soube-se, ontem, da catástrofe, pior que o Terramoto de Lisboa (10 mil mortos): em dois anos, desapareceram 134 mil filhos em Portugal! Dados como cidadãos em 2009, desapareceram 104 mil, em 2010, e 30 mil, em 2011. Assim, sem dizer água vai, nem foto "Desaparecido" nos vidros dos supermercados... Uma tragédia enorme e misteriosa. Teremos abatido uma geração, como Herodes? 134 mil é muita gente, é Viseu a desaparecer três vezes. A confirmar-se, em matéria de desaparecimentos o triângulo das Bermudas seria uma brincadeira comparado com o buraco negro do Fisco, onde os infelizes foram vistos pela última vez. Fisco? Eu disse Fisco? Sim, os 134 mil estavam nas declarações de impostos dos pais, em 2009, e, depois, desapareceram, quando passou a ser obrigatório o número de identificação fiscal dos filhos nas declarações do IRS. Então, querem ver que...? Sim, há que considerar a hipótese dos 134 mil serem filhos fantasmas, inventados, concebido...

O futuro padre e o pequenito

DN 2012-01-11 Ferreira Fernandes É uma daquelas histórias bonitas - até certo ponto, porém -, boa de contar mesmo quando é antiga. Estranhamente, o jornal popular inglês Daily Mail chamou-lhe: "Talvez o mais terrível ato de generosidade da História." Outros jornais europeus pegaram no assunto e as caixas de comentários têm fervilhado. Vamos à história. Num dia de janeiro de 1894, em Passau, cidade da Baixa Baviera, uma criança de quatro anos caiu ao gelado rio Inn e estava a afogar-se quando um rapaz o salvou. Por esses dias, um jornal local, o Donauzeitung-Danube - Passau é "a cidade dos três rios", juntam-se lá o Inn, o Ilz e o Danúbio -, narrou o ato abnegado, não dando nome aos intervenientes mas, porque a sua linha editorial era de esquerda, chamou "camarada corajoso" ao salvador. Este, Johann Kuehberger, tornou-se padre e, muitas décadas depois, passou a paróquia ao padre Max Tremmel, que foi famoso organista, na catedral de Passau. ...