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O leite e a lata

NUNO PACHECO Público 02/09/2016 Puro deleite? É mais uma imensa lata. Puro deleite, diz o anúncio. E, em certo sentido, é. Ora vejam: “Venha descobrir os laticínios dos Açores”, anuncia o governo regional dos ditos, avisando que o seu “imenso manto verde” dá origem “a um leite excecional”. Nenhum problema no conteúdo. Já a grafia, que como se vê segue o chamado novo acordo ortográfico de 1990 (AO90), merece alguma reflexão. Se lacticínio passou a escrever-se laticínio, como se escrevem então as restantes palavras da mesma família? Leite, como se sabe, vem do latim lacte-, derivando de leite palavras como leiteiro ou leitaria. Mas e as outras? As que, relacionadas com o leite, se escreviam com ct, como lácteo, lactente, láctico, lactífero, lactiforme, lactífugo, lactígeno ou lactómetro, para só citar algumas? Continuam a escrever-se exactamente assim, mesmo com o acordo. Pelo menos é o que diz o dicionário Houaiss Atual (ed. Círculo de Leitores, 2011), na página 1414 do II vo...

O sexo das palavras

NUNO PACHECO Público 22/04/2016 Se o ridículo matasse, Portugal estava constantemente pejado de cadáveres. Não bastava a tolice do acordo ortográfico, tolice aliás que o Bloco de Esquerda abraça estoicamente, voltámos agora à mais tola e inútil das cruzadas: a da chamada “linguagem inclusiva”; o contrário da linguagem “sexista” e “discriminatória” onde se diz pais, irmãos, avós, primos, etc. Tudo discriminatório, naturalmente. Ora foi com base em tal pressuposto que, num momento de particular inspiração, o BE propôs que o Cartão de Cidadão passe a chamar-se Cartão de Cidadania. Talvez porque Cartão de Cidadão e Cidadã fosse demasiado comprido. Ricardo Araújo Pereira, no Governo Sombra, já caricaturou devidamente esta paranóia correctiva. Disse ele, imaginando um discurso bloquista: “Portugueses e portuguesas, estamos aqui reunidos e reunidas porque estamos todos e todas preocupados e preocupadas com a questão dos desempregados e desempregadas”. Pois. Mas mesmo assim não chegava. E...

Portugal aos ais

NUNO PACHECO Público 04/03/2016 - 00:30 “Concursais”, “societais”, “vivenciais” e outras que tais Não, não tem qualquer relação com a dívida pública. Tem que ver, isso sim, com a mania de escrever palavras como "procedimentais", "concursais", "societais", "vivenciais" e outras que tais. Não se sabe se quem as inventou quer mostrar erudição ou apenas irritar o parceiro. Por exemplo: concurso é o acto de concorrer, toda a gente sabe e os dicionários confirmam. No entanto, como concurso era demasiado simples, inventaram uma coisa chamada "procedimento concursal". E até invocam a Constituição, vejam lá! Na portaria n.º 83-A/2009 escreve-se: "O procedimento concursal para ocupação de postos de trabalho, constitucionalmente exigido..." No entanto, na Constituição apenas se fala de acesso à função pública "por via de concurso" (art.º 47.º), seja ele "concurso curricular" (art.º 215.º), na magistratura, ou...

Se fosse só três sílabas...

NUNO PACHECO Público 14/01/2016 - 21:34 Desacordai, ó gentes que dormis! É que já passou o tempo dos silêncios vis. Estava a caterpillar socialista posta em desassossego, a trabalhar a todo o vapor na desmontagem do edifício legislativo do anterior governo, quando José Pacheco Pereira resolveu perguntar a António Costa sem grandes rodeios: se estão a acabar com tanta coisa, por que não acabam com o acordo ortográfico? Isto foi-lhe perguntado na SIC-N, numa edição especial do programa Quadratura do Círculo — onde Costa, ex-comentador residente, esteve agora como convidado e, claro, Primeiro-ministro. "Acho que não faz sentido mexer no acordo", disse Costa. E arrancou às suas memórias este diamante: "A minha geração já aprendeu na escola que Luís se escreve com S e não se escreve com Z." Quis com isso dizer: já houve um acordo, este é outro, para quê tanta preocupação? Mas foi infeliz (com Z) no exemplo. Porque Luís, palavra de origem alemã que na sua evolução ...

Onde para o acento?

Público 2012-01-23  Nuno Pacheco Não estranhem o título. Se não lhe encontram sentido, saibam que, "agora", é assim que se escreve. No tal "bom português" que por aí se vende como sabonetes. Um exemplo recente: na edição dos contos de juventude de John Cheever ( Fall River e outros contos dispersos , Sextante, 2011), a mesma editora que dera à estampa os fulgurantes Contos Completos , em dois volumes e num português decente, cedeu à tentação da novilíngua. E o pobre Cheever é posto a "escrever" frases como esta (Pág. 134): "Oh, para com isso, Charles! - disse a Srª. Dexter, impaciente." Para com isso... fazer o quê, alguém explica? Cheever não pode, que já morreu. O tradutor também não, porque "é a lei" e ele não tem culpa nenhuma. A editora dirá o mesmo. E, como a vida não "para", temos que aturar isto. Temos? Não é assim tão certo. A aplicação do acordo tem vindo a fazer-se, não por qualquer lógica ou aprendizagem m...