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A banalização da violência

RITA BRUNO     09.01.2017   FAMÍLIA CRISTÃ No que à exibição de imagens diz respeito, posiciono-me no cinzento. Não sou daquelas pessoas que acha que há imagens proibidas, porque na verdade há alturas em que elas são mais do que necessárias, nomeadamente quando o mundo parece andar a dormir ou a ignorar escandalosamente problemas que têm de ser resolvidos, a bem dos direitos humanos e da humanidade. Mas isto não quer dizer que podemos fazer da violência o isco para as audiências subirem. E isto quer ainda menos dizer que podemos repetir, até à exaustão, não só nos diversos telejornais de diferentes horários, mas (completamente ridículo) no mesmo telejornal, imagens sem qualquer edição, ou com um nível de edição que nos faz parecer que ela não existiu. E não, a verdade não fica distorcida quando a edição a que me refiro é a que tem como objetivo respeitar a dignidade da pessoa. O exemplo que mais me chocou nos últimos tempos foi a da morte do embaixador russ...

E se fosse consigo?

Graça Franco RR 19 ago, 2016 Não foi numa rua do Iraque. Foi mesmo em Ponte de Sor. Não fora os agressores serem filhos do embaixador do Iraque e talvez a notícia não tivesse saltado da habitual listagem dos crimes do “Correio da Manhã” para os noticiários nacionais e os jornais de referência. A violência inaudita seria exactamente a mesma. Votada a uma indiferença que nos vai roubando o coração. Fossem os dois gémeos iraquianos dois adolescentes de Portalegre e talvez nem tivéssemos tomado conta da ocorrência. E, contudo, passou-se. Isso deveria bastar-nos para parar e pensar. Pela violência do crime. Sim, mas não só, nem especialmente. O que é feito da humanidade quando jovens são de tal forma dominados pelo ódio que mesmo sob o efeito do álcool são capazes de esmagar a cabeça de um miúdo saltando a pés juntos sobre ela? Numa violência que não deixa dúvidas sobre o objectivo final: matar. A nacionalidade/impunidade dos agressores desvia-nos da reflexão essencial. Mais ...

Manifesto pela legalização do ‘amor digno’

P. Gonçalo Portocarrero de Almada Observador 12/3/2016 Não é razoável que alguns portugueses, que são contra o ‘amor digno’, imponham esse seu preconceito religioso. Mais: tratando-se do direito fundamental à dignidade familiar, não pode ser referendado. Graças à reinante maioria de esquerda parlamentar, já é possível o aborto livre, sem taxas moderadoras nem esclarecimento obrigatório, e está prestes a permitir-se a eutanásia, isto é o direito a uma ‘morte digna’. Mas ainda não se admite o ‘amor digno’, ou seja o uso voluntário de violência contra um parente próximo que desonra a família, causando-lhe um sofrimento intolerável. Na já ultrapassada terminologia moralista, o ‘amor digno’ era denominado ‘violência doméstica’, designação tão desagradável e anacrónica quanto as palavras ‘aborto’ e ‘eutanásia’, em boa hora substituídas, respectivamente, pelas expressões ‘interrupção voluntária da gravidez’ e ‘direito a uma morte digna’. O ‘amor digno’ é, em muitos casos, o único m...

Razões da violência

João César das Neves DN 20151125 O problema principal da violência, e em especial da terrorista, está nas suas razões. Por que motivo alguém comete barbaridades suicidas como as do avião russo no passado dia 31 ou em Paris a 13? A resposta, antes de mais, exige algo que, apesar de óbvio, costuma ficar omisso: sendo actos humanos, esses horrores têm sempre razões que os justificam. Tratá-los como acções loucas e arbitrárias, portanto irracionais, é enorme tolice. Mesmo psicopatas e fanáticos têm os seus motivos e lógica, muitas vezes rígidos. Só compreendendo-os se entende o problema. Neste caso a justificação é explícita: os ataques terroristas são resposta a agressões. Por muito que repudiemos os seus actos, não há dúvida de que os terroristas têm razão: os países que atingiram estão a agredi-los, e de uma forma muito mais devastadora. Iraque e Síria estão a ferro e fogo. Mas por que razão a Rússia e o Ocidente intervêm no Médio Oriente? Por causa de ataques terroristas anter...

É a religião, estúpido!

P. Gonçalo Portocarrero de Almada Observador 18/11/2015 Não se combate a agressividade do fundamentalismo religioso com o laicismo ou a abolição das crenças, mas com mais e melhor formação para a liberdade, também religiosa, e para a solidariedade social No rescaldo dos terríveis atentados terroristas verificados na capital francesa na passada sexta-feira, 13 de Novembro, é de supor uma reacção anti-religiosa em França e em todo o mundo livre. Depois de ultrapassada a dor inicial e a profunda indignação por tão abjectos actos, de que há tantas vítimas a deplorar, é provável uma certa relutância pela religião professada pelos terroristas e, em geral, por todas as crenças, enquanto potenciais factores de desestabilização social. Não seria muito de estranhar que, à pergunta sobre a razão destes atentados, haja quem responda, como se de uma evidência se tratasse: – É a religião, estúpido! Sim, há de facto um elemento religioso na génese destes crimes, mas seria superficial e...

Fabrice Hadjadj : «É preciso empunhar a espada para difundir o Reino do amor»

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Famille Chretienne| 17/11/2015 | Numéro 1975 | Par Fabrice Hadjadj Tínhamos perdido a guerra. Não estou a falar de um insucesso. Pelo contrário, habituámo-nos a dormitaar no conforto e nos sucessos, até uma doença, um acidente, um fait divers, um mal, sem luta nem inimigo, nos levarem como um computador que pára , a uma falta de significado muito aquém do absurdo.  Tínhamos amolecido, tínhamos perdido toda a virilidade, reduzidos ao estado de crianças mimadas a fazer a sua birra, de maníacos pelo cardio-training, de alheados consumidores de pornografia. Queríamos, não a paz que fazemos, mas a que nos enfiam, sem sequer nos importarmos com o preço das devastações, dos «danos colaterais». Mas «a paz é obra de justiça», diz Isaías, e é normal , quando se recusa este combate pela justiça, que a nossa paz aparente nos salte à cara. E eis que deambular pelas ruas deixou de ser normal, como para pessoas blasés que se passeiam. A guerra ultrapassou-nos. Dentro da ordem do acordar,...

Resistir à javardice

Inês Teotónio Pereira ionline, 20151031 Não tinha eu começado a jantar e já a minha página de Facebook, redes sociais e sites sinalizavam pessoas a cuspirem ódio, insultos e javardices.  “Nogenta” (o gê não é gralha) , “fascista”, “imbecil”, “vómito”, “cabra”, “anormal”, “gaja que devia estar na cozinha”, “vê lá onde andas com os teus filhos...”, “alguém devia tirar os filhos a esta gaja”, “esta devia ser esmurrada no meio da rua”, “dePUTAda”, etc. E assim vai a extrema-esquerda.  Mas comecemos pelo princípio. Fui à Voz do Operário ao lançamento da candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa e quando cheguei a casa resolvi escrever a seguinte piadinha na minha página de Facebook: “Só o Prof. Marcelo para me levar a um sítio com operário no nome”. Ou seja, e passo a explicar a piadinha, operário é um termo usado e abusado pela esquerda radical autoproclamada dona e defensora da classe operária. Ora, sendo o prof. Marcelo de direita (digo eu), foi engraçado ter escolhido e...

A Guerra dos Sofás

JOÃO CÉSAR DAS NEVES DN 2015.08.19 O carácter de cada época fica gravado nas obras de arte que deixa. Pirâmides egípcias e catedrais medievais, frescos renascentistas e teatro clássico, novelas vitorianas e cartazes maoistas definem cada cultura melhor do que as alternativas. Quem quiser conhecer o último século tem de considerar sobretudo a sétima arte, com a nossa identidade espelhada no cinema e na televisão. A prosperidade dos anos 1950 e 1960 vê-se na euforia ingénua das superproduções do pós-guerra, a angústia dos anos 1970 e 1980 nos torturados filmes psicológicos. Hoje poucos sucessos são tão reveladores da especificidade do momento como a série Game of Thrones da HBO, traduzida como A Guerra dos Tronos. A adaptação televisiva da obra ainda incompleta de George R.R. Martin A Song of Ice and Fire (1996, 1998, 2000, 2005, 2011 e futuros) é, independentemente da forma como se avalie, um dos maiores êxitos dos nossos dias. Ela aliás constitui apenas um exemplo destacado de...

O lixo

VASCO PULIDO VALENTE Público, 22/05/2015 - 03:19 Olhando para a televisão, não melhorámos muito no nosso gosto pelo melodrama e pela história crapulosa do dia. Há anos que a televisão (pública e privada) nos dá uma dieta diária de toda a espécie de crimes. Não há limite à violência que se julga própria para o nosso aprimoramento moral: de novos sobre velhos, de velhos sobre novos, de velhos sobre velhos, de novos sobre novos. A conversa sobre a necessária defesa das mulheres, sobre o “bullying” ou outras formas de barbaridade — uma conversa que nunca é coerente e nunca leva a nada — só serve para explicar que a televisão se tenha ultimamente convertido num emissor de lixo sem desculpa, nem sentido. De resto, além do crime, existe ainda o acidente, qualquer acidente, desde que apareçam imagens de sangue, desespero e destruição. E, quando não se encontram em Portugal, não faltam por esse mundo calamidades para encher o tempo. Isto sucede em parte por duas razões. Primeira, porqu...

Amor de mãe

JOÃO MIGUEL TAVARES Público 21/05/2015 - 00:10 A forma mais elevada de vida em sociedade não se conquista através da exigência de mais amor pelos nossos (que é coisa que não costuma faltar), mas de mais amor pelos outros. Daniel Oliveira escreveu um texto no Expresso Diário intitulado “Mãe que arrepia” sobre a reacção da mãe do jovem de 17 anos que assassinou barbaramente um miúdo de 14, em Salvaterra de Magos. Essa mulher escreveu um texto impressionante no Facebook, que tem sido bastante comentado por fugir por completo ao papel tradicional da mãe abnegada, que coloca o amor aos filhos acima de todas as coisas: “Neste momento, estou de luto, enterrei um pedaço de mim que não consigo entender como pôde fazer tamanha crueldade. Deus me perdoe o que vou dizer, o meu filho morreu, o que fez vai ter de pagar e sozinho, pois não posso acompanhá-lo nesta etapa. (…) Preferia mil vezes que ele estivesse no lugar do Felipe. (…) Os pais não têm de pagar pelos erros dos filhos e vice-vers...

Os “paineleiros” e o polícia

Henrique Raposo, Expresso, 19 de maio de 2015 Meu caro leitor, há tascas mais interessantes do que os famosos painéis que discutem futebol na SIC, TVI e RTP. Nas tabernas, homens desdentados, analfabetos e curtidos pelo tempo conseguem ter conversas mais inteligentes e menos fanáticas do que os bate-boca dos “paineleiros” engravatados. Além de mais interessantes, os taberneiros são também mais livres do que os “paineleiros”, que muitas vezes funcionam como meros ventríloquos das direções das SAD do Benfica, Porto e Sporting. As televisões, meu caro amigo, que andam por aí numa fúria vingadora contra o polícia de Guimarães, são as principais responsáveis pela atmosfera violenta que envolve o futebol. Sim, são as televisões que legitimam esta cultura de ódio e de desconfiança através dos painéis que envenenam há décadas qualquer conversa sobre a bola. O taberneiro é mais interessante do que o “paineleiro”, mas o curioso é que o segundo recebe dinheiro. O “paineleiro” é pago para s...

Há coisas que me cansam. Mesmo.

José Manuel Fernandes Observador, 2015.05.18 Uma sociedade decente é uma sociedade com regras, onde as crianças e os jovens crescem sabendo que há limites e deveres de civilidade. E onde a polícia não confunde firmeza com brutalidade gratuita Há coisas que me cansam. Uma delas são as vagas de indignação que percorrem o espaço público sempre que uma notícia nos choca. A outra é a nossa cíclica incapacidade para nos ficarmos pela indignação e pela proclamação do choque – no dia seguinte já esquecemos tudo e passamos a outra indignação diferente e manifestamo-nos chocados com outro tema qualquer. A forma como, no nosso país, nas nossas redes sociais, nos nossos espaços públicos de debate, habitualmente se trata qualquer nova indignação ou qualquer novo choque tem, por regra, três características altamente negativas. A primeira é pensar que os problemas que alguns dos eventos chocantes revelam se resolvem através de uma qualquer mudança nas leis, mesmo sabendo nós que as socieda...

O seu filho não é bom

Henrique Raposo, Expresso, 2015.05.16 Meu caro leitor, a minha escola era a “A Guerra dos Tronos” em miniatura, era Westeros cruzado com o Portugal dos Pequenitos:  existiam diversas famílias de gangues que lutavam pela supremacia do pátio.  Claro que eu, sujeito deveras democrático, levei democraticamente pancada de todas as famílias brasonadas deste submundo. Destaco a Casa Barrigas, que fazia questão de mostrar a arma no coldre, e a Casa Carlitos, que fazia questão de mostrar delicadeza no assalto, “arranja aí uns trocos”.   Sabe qual era a minha tática de sobrevivência, caro leitor?  As miúdas. Sacar a miúda certa da família certa era sinónimo de proteção. Por exemplo, lembro-me do feliz período em que fui uma espécie de gigolô da Casa Barrigas, visto que namorava uma amiga do chefe.  Ora, isto foi há vinte e tal anos, e nada mudou.  Nem vai mudar.  As escolas são terrenos de poder, maldade e humilhação, porque crianças e adolesc...

O "bullying"

Graça Franco, RR online 15-05-2015 17:47   O que fizemos para acabar com a cultura praxista de humilhação gratuita, que começa no secundário (quando não no básico) e se prolonga ostensivamente pela universidade? Não podemos continuar a escandalizar-nos a cada novo episódio de violência entre jovens, nem a desculpabilizá-lo a cada passo com a vaga culpa do "sistema". Antes do mais convém reconhecer que o mal existe e pode ser livremente praticado, ou não, por cada pessoa, que é em primeiro lugar a primeira (mesmo que não seja o única) responsável pela dita escolha. Não podemos continuar a infantilizar-nos colectivamente sob a capa da impunidade total até que se passe a mítica barreira dos 18 anos. Antes de ser dos pais, da escola, da crise ou do sistema, a culpa da maldade praticada por cada um dos jovens agressores é dos próprios. E vários deles serão chamados a votar já nas próximas eleições. Basta de conversa mole sobre o facto de todos serem sobretudo vítimas. No ...

Criança de 13 anos está grávida de oito meses do próprio pai

Rute Coelho | DN 2015.05.01  O pai, alegado abusador, fugiu para o estrangeiro. O caso chegou à Polícia Judiciária há um mês, quando já era tarde demais para a vítima interromper a gravidez. A Polícia Judiciária está a investigar o caso de uma criança com apenas 13 anos que vai ter um filho do próprio pai dentro de um mês. O caso da rapariga, alegada vítima de abusos sexuais pelo progenitor, chegou à secção de crimes sexuais da Diretoria de Lisboa quando o feto já tinha sete meses de gestação. A gravidez da menor não foi interrompida, ao contrário do caso de outra criança, de 12 anos, internada em Santa Maria e que terá sido abusada pelo padrasto. Nesta situação, a menor, grávida de cinco meses, vai poder fazer um aborto por decisão dos clínicos do hospital. Segundo apurou o DN, no caso da criança de 13 anos, o pai da vítima fugiu para Inglaterra antes de o crime ter sido participado à PJ e já terá passado por três países europeus. A breve prazo, vai ser emitido um mandado in...