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O ensino de Os Lusíadas

Daniel Sampaio Público, 2015.02.22 Quando Vasco Graça Moura me ofereceu o seu livro Os Lusíadas Contado às Crianças (Gradiva, 2012) e eu sugeri que essa obra deveria ser estudada nas escolas, respondeu-me com um sorriso: "Não creio ser possível, Daniel. Os professores de agora estão desmotivados, dão umas aulas sobre Os Lusíadas porque fazem parte do programa e pouco mais. Os alunos vão acabar por odiar os clássicos." Três anos depois, só lhe posso dar razão. Jovens da minha família e alunos que encontro nas escolas secundárias descrevem um cenário de tédio e um ambiente displicente à volta do estudo do poema. Os professores nem sequer levam uma edição completa para a aula, limitando-se a ler, de forma monocórdica, os estratos da obra que figuram no manual adoptado. Os alunos do 9.º ano bocejam e mexem no telemóvel, à espera que a aula acabe. Depois, algumas perguntas são colocadas no próximo teste e tudo é esquec...

Educar nos nossos dias

Daniel Sampaio, Público 2015.02.08 Muitos pais e professores parecem ter desistido de educar os mais novos. É difícil, argumentam, porque não há respeito. O Dicionário Houaiss, que tanto cito, define respeito como "sentimento que leva alguém a tratar outrem com grande atenção, profunda deferência; (…) consideração, reverência; (…) estima ou consideração que se demonstra por alguém ou algo". No seu volume de Sinónimos e Antónimos, o mesmo dicionário diz que "acatamento" e "consideração" são sinónimos de respeito, sendo os antónimos preferenciais as palavras "desobediência" e "desprezo". A palavra "respeito" assume, nos nossos dias, uma conotação passadista. A nível do casal, a justa luta das mulheres pela igualdade transforma-se, por vezes, numa verdadeira batalha, em que a consideração recíproca e a deferência mútua desaparecem por largos períodos. Na família, a hierarquia fundamental para um adequado func...

Lições de uma epidemia

Daniel Sampaio, Público, 23.11.2014 No momento em que escrevo (16/11), as autoridades de saúde portuguesas consideraram "controlada" a epidemia de Legionella. É preciso dizer que os serviços de saúde, nas suas diversas vertentes, fizeram um notável trabalho. Desde o início a população foi informada sobre as precauções a tomar, os dados sobre a evolução da doença foram transmitidos todos os dias e as unidades hospitalares, por certo no limite do esforço, souberam dar a resposta adequada. Em pouco tempo, os focos de transmissão da doença foram determinados, os doentes foram bem tratados e a epidemia foi controlada. O Serviço Nacional de Saúde, mais uma vez, mostrou uma notável capacidade de resposta e tornou evidente como é crucial preservá-lo, para bem de todos nós. Os responsáveis da Saúde, com destaque para o ministro da Saúde, Paulo Macedo, e para o director-geral da Saúde, Francisco H. George, demonstraram, desde o início da epidemia, uma notável capacidade de actu...

Neblinas

Público 2012-08-12 Daniel Sampaio Revisito a minha juventude na Praia Grande (Sintra). É verdade que os amigos da adolescência desapareceram ou, se ficaram, são avós como eu, rodeados de crianças que brincam com os mais novos das famílias habituais na zona. É certo que os "banheiros" do meu tempo foram substituídos por jovens desconhecidos, "nadadores-salvadores", que desejamos possam ter a coragem dos seus antecessores para enfrentar aquele mar tão belo como agressivo. E não há dúvida de que se perderam de vez os velhos cafés da Praia Grande, como o Lá Vou Eu das bolas-de-berlim inesquecíveis, vendidas na areia com limonada fresca, numa mala de um branco irrepreensível que não conseguiu convencer os fundamentalistas da ASAE. O hotel da Praia Grande mantém a vista sobre as arribas, mas a piscina e o restaurante perderam o ar de novidade do meu tempo e não ganharam qualidade. Mesmo o areal já não é extenso e limpo como outrora, os toldos não abundam e as bar...

A crise da intimidade

Pública, 2011-09-04  Daniel Sampaio O grande problema actual é o da intimidade. É certo que o modelo social europeu se encontra esgotado e que não se vê saída, a curto prazo, para a crise económica e financeira. No entanto, a verdadeira questão a debater é a organização do nosso quotidiano e o que vamos fazer com as nossas relações mais íntimas. Tudo parece mudar. Existem mais pessoas a viver sós, sobretudo idosos, que vivem cada vez mais. Afirma-se a crise do casamento, mas nos divórcios a queixa é de falta de amor, que se procura em novas relações. A facilidade com que os casais hoje rompem mostra, quase sempre, uma dificuldade em entender as verdadeiras causas do mal-estar que tão depressa tornam público. E, no entanto, a explicação pode ser alcançada por uma análise da evolução sofrida a partir da segunda metade do século XX. Foi aí que as mulheres iniciaram o percurso para a autonomia profissional e conquistaram a liberdade sexual que as caracteriza hoje. Este progre...