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A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: Miguel Monjardino

Revolta e choque

Miguel Monjardino Expresso 20160627 Um referendo mostra a clivagem entre Londres e o resto do país e entre as gerações novas e mais velhas. Nada ficará como dantes  O processo de decisão estratégico, todavia, tende a ser sempre rodeado por estas incertezas. Depois do referendo, as sociedades e os líderes europeus deixaram de ter o luxo de ir para intervalo. Temos de compreender o que aconteceu e tomar as primeiras opções.  Que nos mostra o resultado do referendo no Reino Unido?  Sobretudo duas coisas. O país vive do comércio internacional, mas as consequências da Grande Recessão de 2007-2009, a evolução da globalização, o fraco crescimento económico e a queda da produtividade minaram a confiança da maioria da população em relação aos partidos políticos tradicionais.  A guerra civil na Síria e a fragmentação do Médio Oriente transformaram a imigração na questão central do referendo. A identidade nacional e cultural ganhou à economia, às finanças e ao co...

Miopia americana

Miguel Monjardino Expresso 2016.03.12 A nossa miopia em relação aos EUA está a aumentar. Olhamos cada vez mais para as eleições primárias mas adotámos um ponto de vista peculiar. Praticamente todas as notícias que lemos sobre o tema são sobre a cavalgada de Donald Trump como candidato do Partido Republicano. Há muito menos notícias sobre Bernie Sanders, o senador socialista do Vermont que continua a fazer uma grande campanha política.  À primeira vista isto faz sentido. Trump é um demagogo populista que apela ao medo e aos preconceitos de uma parte do eleitorado republicano para dividir o país ainda mais. Em 2008, Barack Obama mostrou-nos as possibilidades de uns EUA confiantes a nível interno e externo. Os líderes internacionais acotovelaram-se para tirar uma fotografia ao seu lado. Oito anos depois, Trump apresenta-nos um país completamente diferente. Quem é que quer ser fotografado ao lado do demagogo loiro de Nova Iorque? Assim de repente consigo lembrar-me de Vladimir...

A nova utopia

Miguel Monjardino Expresso 20151121 O medo e a incerteza reinaram nas semanas seguintes ao 11 de Setembro. O que era a Al -Qaeda? Quem era Osama bin Laden? Quais eram os seus objetivos? Um dos maiores receios na altura era um ataque químico ou biológico. Uma loja de mascaras de gás em Londres vendeu 700 em poucos dias. Cem foram compradas por pessoas que trabalhavam nos prédios mais altos da City. Uma comprou a máscara e um paraquedas. A primeira página do “Diário de Notícias” de 4 de novembro dizia — “Bioterrorismo. Portugal Indefeso.” A Al-Qaeda parecia invencível. Olhando para trás, vemos uma coisa surpreendente — o 11 de Setembro foi um choque estratégico mas não mudou a ordem internacional.  Bin Laden está morto. A Al-Qaeda é uma sombra do que foi. Mas o medo regressou a 13 de novembro, em Paris. Para a geração que tem menos de 25 anos, a Europa é cada vez mais perigosa. O problema é que isto não é verdade. Quem conheça a História sabe que, apesar da guerra no leste d...

A Rússia de Putin

Miguel Monjardino Expresso, 2014.12.27 O aviso chegou no início da semana e foi claro. "Hoje posso dizer que entrámos ou estamos a caminho de entrar numa crise económica de grandes proporções. No próximo ano vamos senti-la na sua máxima força," disse Alexei Kudrin numa conferência de imprensa em Moscovo. Kudrin foi ministro das Finanças da Rússia entre 2000 e 2011 e conhece como ninguém a situação dos bancos, empresas e famílias do seu país. As suas declarações são uma crítica clara às posições assumidas por Vladimir Putin no seu discurso anual sobre a situação do país e a tradicional conferência de imprensa de final de ano nas últimas semanas. Para compreendermos melhor o que está a acontecer em Moscovo é preciso recuar um ano e regressar a Kiev. O assalto russo à Crimeia e ao leste da Ucrânia foi uma reação de Moscovo à perda do controlo sobre Kiev. O Kremlin agiu para tentar preservar a sua influência numa região crucial do ponto de vista geopolítico e iconográf...

Tatcher

Miguel Monjardino Expresso, 13 de Abril de 2013 Um humilhante pedido de ajuda ao FMI. Empresas públicas altamente deficitárias. Manifestações e greves dos sindicatos mais poderosos. Impostos extremamente elevados. Desemprego a níveis inacreditáveis. Uma moeda excessivamente forte a criar dificuldades às empresas exportadoras. O futuro do estado social ameaçado. Elites nacionais dependentes da despesa pública e dos favores de um estado altamente centralizado e falido. Um sentimento generalizado de empobrecimento e de decadência nacional. Um país paralisado do ponto de vista político. Parece familiar, não é? Mas o país em questão não é Portugal. Estou a falar da Inglaterra em 1979. Foi esta a situação que Margaret Thatcher encontrou quando chegou a Downing Street há trinta e quatro anos. A sua morte esta semana é uma boa oportunidade para compreendermos a natureza dos desafios internos e europeus que temos pela frente. Thatcher chegou ao governo com ideias políticas claras. O seu...

A corrida para a segurança alimentar

Expresso, 20081213 Miguel Monjardino Há um ano o mundo parecia estar a caminho de uma terra incógnita. O preço do barril de petróleo estava prestes a atingir a barreira dos cem dólares. Nos mercados internacionais, metais industriais como o cobre e alumínio vendiam-se a preços extremamente elevados. No mundo agrícola reinava um choque alimentar. O preço dos cereais, carne, leite e pão disparou e criou graves problemas políticos a uma série de governos. Um ano depois, o que é que vemos? Bem, vemos que continuamos numa terra incógnita. O problema é que esta terra incógnita parece ser radicalmente diferente da do ano passado. O preço do barril de petróleo para entrega daqui a uns meses está na casa dos quarenta e cinco dólares. É provável que as medidas que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) venha a tomar na próxima quarta-feira não consigam impedir a descida do preço do petróleo para a casa dos quarenta dólares no mês de Janeiro. Se isto acontecer, estamos a falar d...

Não, pelos vistos não podemos

Expresso, 20081111 Miguel Monjardino miguelmonjardino@gmail.com A América é um país onde tudo - do péssimo ao excelente - é possível. É também um país com enorme fé e confiança em relação ao futuro. Portugal não podia ser mais diferente. Somos o país onde praticamente nada é possível Manhã na América, noite em Portugal. A frase resume o que senti na madrugada de quarta-feira quando se tornou claro que Barack Obama seria o próximo Presidente dos EUA. Sei que a maior parte das pessoas com quem tenho falado nos últimos dias não pensa assim. Estas pessoas acham que a vitória de Obama diminuiu a distância política entre as duas margens do Atlântico. Acham também que com esta vitória a América se aproximou da Europa. A ideia de que os EUA de Barack Obama vêm finalmente ter connosco é muito agradável. O problema é que não é verdade. Esta semana, o mundo está cheio de fantasias. Esta é apenas mais uma. Mas é também uma fantasia particularmente penosa para nós. O que aconteceu na quarta-feira f...

‘Novus Ordo Seclorum’?

Miguel Monjardino miguelmonjardino@gmail.com Expresso, 20081011 O melhor exemplo foi o que aconteceu durante um enorme período na Fannie Mae e Freddie Mac, duas instituições altamente reguladas que sucumbiram à pressão política do Congresso para assumirem riscos excessivos. A verdadeira mensagem da crise de 2008 é, afinal, bastante antiga - o capitalismo precisa de governos, reguladores e tribunais competentes e activos. Há muitas maneiras de começar uma semana. Comecei a minha a olhar com atenção para uma nota de um dólar. Na parte da frente está George Washington, o primeiro presidente dos EUA. No verso, no lado esquerdo, está uma pirâmide. Na base da pirâmide pode ler-se «Novus Ordo Seclorum». A expressão mostra bem a enorme ambição e optimismo que presidiu à fundação dos EUA em 1776. Nos duzentos e trinta e dois anos que se seguiram, o dólar tornou-se um dos grandes símbolos do poder ideológico dos EUA. As últimas semanas têm sido severas para a credibilidade de Washington. Com as ...

Em defesa da América

Miguel Monjardino Expresso, 081004 miguelmonjardino@gmail.com Parte da sociedade americana desconfia e despreza os seus líderes políticos, sejam democratas ou republicanos A história diz-nos que os EUA são o país mais bem sucedido da história. As últimas semanas têm levado muita gente a dizer-nos que os EUA estão em declínio e que o século XXI será muitas coisas mas não será influenciado de uma forma decisiva por Washington. Será verdade? Duvido. As últimas semanas tornaram bastante mais transparentes os problemas internos dos EUA e os seus desafios externos. Os problemas e os desafios são reais e a sua solução ou gestão certamente exigentes. Neste contexto, apostar no declínio dos EUA é extremamente popular. A aposta ignora o enorme potencial, energia e optimismo dos americanos em relação ao seu país e ao seu papel no mundo. Mas antes de chegar à aposta que me interessa, é crucial prestar atenção aos problemas internos e aos desafios externos. Começando pelos primeiros. O intenso deba...

‘Yes, he can!’

Expresso, 20080830 Miguel Monjardino miguelmonjardino@gmail.com Pode Obama perder as eleições? Sim, pode. As últimas sondagens revelam isso mesmo De quatro em quatro anos, os europeus têm durante o Verão um sonho americano. Durante este agradável sonho, os americanos elegem um presidente sofisticado, intelectual, progressista, educado nas melhores universidades do país, eloquente, curioso em relação às mais recentes políticas públicas e ao que se passa no estrangeiro. Nessas abençoadas semanas, os europeus acordam optimistas em relação ao futuro do Velho e Novo Continente. O problema é que a seguir vem o Outono. E com o Outono vem o choque e o pavor. O presidente ardentemente desejado no Velho Continente perde para um candidato conservador, anti-intelectual, céptico em relação ao papel do governo federal, adepto do mercado, retrógrado em questões sociais, religiosas e judiciais, partidário da pena de morte e apologista das virtudes do poder militar americano. Será que este ano vamos te...

O Extremistão

Miguel Monjardino, Expresso, 080607 miguelmonjardino@gmail.com Violência, alta dos alimentos e do petróleo e a falta de água justificam o extremismo de hoje Alterar tamanho Algo de importante parece ter acontecido na política internacional nas últimas semanas. No ar está a forte sensação de que entrámos um bocado aos trambolhões numa nova era das relações internacionais. Durante algum tempo tive dificuldade em arranjar uma expressão que descrevesse o que a maioria das pessoas pensa, diz e escreve sobre uma série de acontecimentos nos últimos tempos. A cimeira da Agência da ONU para a Agricultura e Alimentação, que se realizou em Roma, esta semana, ajudou-me bastante a perceber o que se está a passar. O encontro gerou uma apreciável quantidade de artigos, colunas e comentários que me levaram a concluir que um enorme número de pessoas acredita que entrámos na era do ‘Extremistão’. A expressão pertence a Nassim Nicholas Taleb, autor de um livro fascinante, ‘The Black Swan: The Impact of t...

O momento decisivo para a China

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O momento decisivo para a China Miguel Monjardino Expresso, 080517 miguelmonjardino@gmail.com Um dos primeiros efeitos deste terramoto foi tornar mais clara a verdadeira dimensão de problemas políticos internos Alterar tamanho Na madrugada de 28 de Julho de 1976, a cidade de Tangshan no nordeste da China, foi completamente arrasada por um terramoto. Centenas de milhar de pessoas morreram quase instantaneamente. Em Pequim, os decisores políticos ignoraram de uma forma escandalosa os mortos, feridos e vivos em Tangshan. A ajuda externa foi rejeitada e a verdadeira dimensão da catástrofe escondida do resto do país. A desastrosa reacção de Pequim ao terramoto em Tangshan teve enormes consequências políticas. A mais importante foi a queda dos chamado ‘Bando dos Quatro’ e o fim da Revolução Cultural que arruinou completamente a China. Um mês e meio depois, Mao Tsé-Tung morreu, muito céptico em relação ao futuro do regime que ajudou a fundar, em 1949. Ao contr...

A globalização e a pobreza, Miguel Monjardino, Expresso, 080412

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A globalização e a pobreza Miguel Monjardino A diminuição da pobreza é a grande história política das últimas décadas. O Brasil é um exemplo Há 15 dias a revista ‘Veja’ publicou uma reportagem sobre o crescimento da classe média no Brasil. Os números da revista brasileira parecem mostrar que o nível de vida da maioria dos brasileiros melhorou nos últimos anos. Segundo a ‘Veja’, nos últimos dois anos cerca de 20 milhões de pessoas deixaram de ser pobres e passaram a fazer parte da classe C, uma classe social que tem agora quase 90 milhões de pessoas. Cento e quinze milhões de pessoas pertencem agora às classes alta e média. Setenta e três milhões de pessoas estão na zona da pobreza. O Brasil já viveu muitas alvoradas económicas. Praticamente todas elas acabaram em tempestades políticas e no empobrecimento generalizado da sua população. O resultado é um país com enorme potencial interno e externo mas também com uma enorme incapacidade para tirar partido dos seus trunfos. A reportagem da...