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A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: João Taborda da Gama

Ficar em casa

João Taborda da Gama DN 20160925 Os horários da escola, cada vez mais amplos para acudirem às necessidades profissionais sufocantes dos pais, deixam pouco tempo para coisas que não são menos importantes do que a aula de Educação Física. Almoçar e passar uma tarde com os avós, ir ao Pingo Doce, andar de bicicleta. Que sentido faz isto? Neste regresso à escola, a L. não regressou à escola. Vai fazer a quarta classe em casa, a casa como escola, a mãe como professora, a mesa da cozinha como carteira, a rua como recreio. Mas isso pode-se? é legal?, é a primeira pergunta que nos fazem. Sim, a lei prevê que os pais possam educar os seus filhos em casa, e o Estado controla a coisa verificando quem é o encarregado de educação, o plano de estudos seguido e sujeitando a criança a exames. As regras estão espalhadas em vários sítios, mas são relativamente simples. Mas no fundo, no fundo quando as pessoas perguntam "isso pode-se", não querem saber se isso se pode ou não, porqu...

Caminhos de fé?

João Taborda da Gama DN 20160912 Junho-agosto de 2016. Vamos imaginar um pai que vendo as filhas mais velhas na beira da adolescência, e a si empurrado cada vez com mais força para fora da dita, decide que é desta, que é desta que vão fazer o Caminho de Santiago. Estuda, planeia, cinco dias, de Valença a Santiago, só os quatro, ida e vinda de comboio, que ele tem medo de aviões. Primeira semana de setembro, um Excel todo bonito, com as viagens, as pernoitas, as etapas, diz a toda a gente, chateia os amigos que já fizeram o caminho. Botas ou sapatos? Quantos quilómetros por dia? O Caminho português ou o francês? Saída na sexta, regresso na sexta, de dois a nove. Vai ser daquelas coisas que imaginamos que eles se vão lembrar quando morrermos. Só nós as três e o pai, daquela vez, imagens que se vão sobrepor ao quotidiano e aos horrores da conjugação do calendário e do horário escolar, e o profissional, ou da sua desarticulação. Depois acontecem duas coisas. Uma, mais difusa, é aq...

Muita coisa ao mesmo tempo

João Taborda da Gama DN 20160904 Em 1977, Inês conta a história de Suzanne e da sua viagem a Amesterdão para um aborto ilegal. Em 1977, Inês fala no Estádio de San Ciro, em Milão, numa manifestação contra o aborto, perante dezenas de milhares de pessoas. Duas Ineses. Agnès Varda, a realizadora. Anjezë Gonxhe Bojaxhiu, Madre Teresa de Calcutá. Madre Teresa é ao mesmo tempo muita coisa. Figura frágil e determinada, a escolha pelo cuidado a cada um numa cidade infinita, uma humildade que nunca prescindiu da ribalta, uma compaixão dura, a fé persistente de quem afinal não tinha sempre fé, um sorriso duro. Agnès Varda também é muita coisa ao mesmo tempo, uma ativista pela legalização do aborto (assinou em 1971 o "Manifesto das 343" em que 343 mulheres admitiam ter feito um aborto, confessando o que então era um crime, e pediam a sua despenalização). Mas no filme de 1977 (Uma Canta, a Outra Não), as coisas não são simples. A maternidade, as crianças, as gravidezes são o ...

República de eunucos

João Taborda da Gama DN 20160807 Dei por mim, mal, esta semana, quando abordado por jornalistas, a não comentar dois casos por achar que a minha posição ia ser impopular. Um dos casos é o dos juízes que decidiram os contratos de associação, outro o dos secretários de Estado convidados pela Galp para o Euro. Vamos já tratar de resolver isso. Primeiro a Galp, o que teria eu feito, as razões para isso, e uma possível solução. Se tivesse sido convidado pela Galp para ir ver a final a Paris teria recusado por três razões, e nenhuma delas é a ética republicana. A primeira é que, salvo algumas recaídas pelo Sporting, não gosto o suficiente de bola para perder um dia nisso; outra é o meu pânico de aviões. Mas vamos supor que queria ir ver o jogo e não tinha medo de andar de avião. Não teria ido à mesma pela terceira razão, que é não aceitar viajar a convite de uma empresa privada. Mas esta decisão de não ir não teria sido tomada de olhos semicerrados, em conferência telepática com a alm...

As cabeças do Quaresma

João Taborda da Gama DN 20160725  Duas imagens. Numa, o Quaresma com a cabeça do francês debaixo do braço esquerdo. O francês de cabeça baixa, sem perceber porque é que o português não o larga, porque lhe faz festas com a mão, para onde estão a ir, quando aquilo vai parar, o mundo inteiro a ver. Noutra, o Quaresma de cabeça baixa, braços apoiados sobre os lados da pia, enquanto um homem mais velho lhe despeja água na cabeça, inclinado, o mundo inteiro a ver. Tenho com a cabeça de Quaresma uma grande afinidade, partilhamos o mesmo barbeiro (Domingos Moska, hoje ao Parque das Nações, antes ao Lumiar), mas não é sobre isso. Uma semana separa a final do batizado, mas não é só uma semana que separa a final do batizado. O que terá levado Quaresma a batizar-se? Não faltarão especulações, conjeturas, racionalizações. O cumprimento de uma promessa pela vitória na final? Superstição? Um casamento pela igreja para breve? Talvez tenha sido um pouco de tudo isso, mas não apenas isso. Nã...

Antecâmaras

João Taborda da Gama DN20160717  Na semana passada liguei para um telefone fixo e pedi para chamar a pessoa com quem queria falar. Atenderam. Disse quem era. Ela estava. Disseram-lhe quem era, veio ao telefone. Falámos. Desligámos. Foi bom. Já não ligava para um telefone fixo em casa de alguém há pelo menos seis anos. E antes disso, durante vários anos, apenas ligava para uma pessoa concreta que não gostava de falar ao telemóvel. Já só se liga para telefones fixos num contexto profissional ou de negócios, queria falar com o Dr. Silva, não está? volta a ligar?, muito obrigado. Não sei se a minha casa tem telefone fixo. E se tem, não sei o número. Li um dia, não sei onde, que se o teu telefone tocar só pode ser o Papa Francisco. Já não se pede para chamar ninguém. Os contactos são imediatos. Pluriformes. Whatsapp. Messenger. Telegram. Gtalk. Contas de e-mail, várias. SMS. Snapchat. Instagram. Spotify. Twitter. Skype. LinkedIn. São por escrito. A comunicação voltou a ser escri...

A senhora Hoff

João Taborda da Gama DN 20160703 Passou despercebido em Portugal, mas no mês de junho assistiu-se a um bonito espetáculo na arena da idiotia das organizações internacionais. A senhora Elizabeth Hoff é a representante da Organização Mundial da Saúde na Síria. De que se foi lembrar a senhora Hoff, sendo que é representante de uma organização das Nações Unidas num país onde grassa uma sangrenta guerra civil, onde centenas de milhares de pessoas morreram, onde há milhares de deslocados, onde o ISIS mata como mato, onde os russos bombardeiam a bombar? De dar um puxão de orelhas aos sírios para largarem o cigarrinho, que andam a abusar, e que isso lhes faz mal à saúde. Isto deve ter deixado o sírio típico a tremer como varas verdes: que importa que 80% da eletricidade tenha sido cortada, que o desemprego tenha quadruplicado, que 80% vivam agora na pobreza? Que importa até que a esperança média de vida tenha descido 20 anos nos últimos cinco? Nada disto importa, porque fumar prejudic...

O direito fundamental à habitação (em Alfama, vista rio)

João Taborda da Gama DN20160612 Num evento chamado Trienal de Arquitetura, decidiu-se que "urge estancar a sangria do centro histórico da cidade". Compreende-se: sangria é uma coisa mais de praia do que de cidade e mancha a calçada portuguesa quando derrama, e fica ali a fruta toda a apodrecer e inclusive as velhotas podem escorregar e partir o fémur. Mas parece que a sangria que querem parar não é a bebida, é em sentido figurado a desertificação. Bastava o mínimo de coerência e estudo, ou até ir de vez em quanto ao tal centro histórico da cidade, para se perceber que não há qualquer sangria do centro histórico motivada pelo turismo, ou pelos estrangeiros que vêm para cá viver, ou pelo investimento imobiliário. O que há é precisamente o contrário, um vislumbre de vida e de viço. Durante as décadas e décadas em que Alfama perdia população, ninguém quis trocar o conforto de Telheiras pela realidade de Alfama. Alfama estava "esquecida em cada dia que passa", como ...

Concessões portuárias

João Taborda da Gama DN 2016.05.29  O timing do acordo alcançado na madrugada de sábado entre os operadores portuários e os estivadores não vem nada a calhar, já tinha a coisa meio escrita e agora é preciso dar uma volta ao texto. Bem podiam ter anunciado a coisa no domingo. O texto ia começar com Rui Reininho ("se o mercado impera e somos todos iguais // muito cuidado quando escorregas sempre cais // se o mercado emperra e vais sempre longe demais demais // atenção cuidado voltas ao cais") e acabar num sofá. No site do IKEA está anunciado que, em virtude da greve da estiva, o envio de encomendas para os Açores e para a Madeira vai ficar mais caro. Um exemplo real das consequências da greve prolongada, dos seus efeitos sobre a economia, que é uma maneira de dizer as pessoas que querem comprar um sofá no IKEA, ou na IKEA, dependendo dos gostos, onde de certeza que os nomes dos modelos de sofás em tecido, não modulares, são escolhidos nas páginas amarelas dos portos e...

Bora lá então falar da escola pública

João Taborda da Gama DN 2016.05.15 Quando Catarina Martins disse que é preciso "defender a Escola Pública, a escola que é de todos", e denunciou escolas que recebem dinheiros públicos e que servem "a elite social e económica", pensei que estivesse e falar do Rainha D. Amélia, ou do Pedro Nunes, ou do Maria Amália ou da Secundária do Restelo, mas não, parece que falava de uns colégios em Coimbra. A pata esquerda da geringonça decidiu pisar os contratos de associação (Costa já veio recuar, depois da intervenção de Marcelo, da FNE, e dos paizinhos dos colégios) e fazer grande espalhafato à volta do tema. Percebe-se: sem alijar eleitores (são 80 colégios...), o Bloco ataca, de uma penada, as negociatas do centrão político, a Igreja, os ricos, o sector privado, a falta de investimento no ensino público, demarca-se do PCP sempre mais institucional, encorna o PS à esquerda (encorna é uma tradução possível de to corner, encostar a um canto), e gera instabilidade no...

A tua cidade

João Taborda da Gama DN 20160425 Uma coisa que o fazia decidir casar-se com aquela mulher que conhecia mal ao fim de um mês é que conhecia bem as outras mulheres, e há bem mais de um mês Se não contarmos uma conversão tardia ao catolicismo, sou pouco dado a fenómenos do além, exceto numa coisa, cidades. Cidades na medida em que pode haver uma coisa qualquer que liga certas pessoas a certas cidades, a cidades que não são as suas. Ou, se calhar, às cidades que são as suas se tivessem nascido no local cosmicamente perfeito. Tipo cidadão honorário por via de chacras e reencarnação, vidas passadas, cartas lançadas num programa da manhã. É uma coisa que se sente e sabe-se logo. No American Pie, uma amiga pergunta a outra se já teve um orgasmo, a amiga responde-lhe que acha que sim, e a outra diz-lhe que se acha é porque não teve. Com as cidades é assim, sabe-se logo, não se acha. No meu caso as cidades são duas, Nova Iorque e Luanda, sem qualquer dúvida, desde os primeiros segundo...

Se eu fosse

João Taborda da Gama DN 20160403  Na primária as composições tinham o mote se-eu-fosse. Se eu fosse um malmequer, se eu fosse uma vaca, se eu fosse jardineiro, se eu fosse isto, se eu fosse aquilo, uma andorinha de certeza, o São Martinho (ou o mendigo, ou a capa), um astronauta talvez. Hoje já não é tanto assim. O método chamado da "auto-referenciação sugerida" (inventei agora o nome, mas de certeza que tem um nome, e um nome que não deve andar muito longe deste) tinha vantagens, não só desenvolvia algum egocentrismo na criança (pode, pode vir daí), mas obrigava a pormo-nos na pessoa do outro. E pormo-nos no corpo do outro, no seu coração, nos seus olhos, na sua cabeça, é a única coisa que conta. E isto é mais uma coisa que devo à escola primária do Lumiar n.º 31, à Professora Alcina e ao pedagogo que se lembrou disto, no dia em que a freguesia do Lumiar celebra 750 anos (é, conta certa; sim, as coisas evoluiram muito desde 1266). O padroeiro do Lumiar é S. João Ba...

O que vi em Cavaco

João Taborda da Gama DN 20160309  Conheci Cavaco Silva na sua última campanha eleitoral em 2010, como membro da comissão política da sua candidatura, e fui consultor político da sua casa civil entre 2011 e 2013. Isto é o que dizem os jornais e os cartões-de-visita, porque nem Cavaco se deixa conhecer nem Cavaco precisa de comissões ou conselhos políticos, muito menos dos meus. Disto já eu desconfiava, mas mesmo assim quis ir ver. Ver de perto um dos maiores e mais enigmáticos políticos, tentar perceber melhor. Se houvesse uma aberta, perguntar. Não houve. O que via em Cavaco Silva não era tanto os seus feitos como governante mas o feito de ter chegado a governante. O modo como limpou as elites do PSD, como, sem darem nada por ele, tomou um partido de barões e coutadas ainda decalcadas das estirpes da sociedade portuguesa. De certo modo, fez no PSD em 1985 o que só aconteceria no PS vinte anos mais tarde com Sócrates: ambos abominarão a comparação, mas nesta conquista feroz do...

Quer perder peso? Pergunte-me. Como McDonald"s

João Taborda da Gama DN 2016.02.28 Isabel do Carmo escreveu nesta semana sobre impostos, sinto-me por isso à vontade para escrever sobre dietas. Então cá vai: foram dez quilos. Dez quilos, é isso mesmo. É o que diz a balança no dia dos dois meses da minha primeira dieta. Eram noventa, agora são oitenta. Qualquer dia ainda arranjo abdominais, avisou-me uma das minhas filhas. Abdominais era coisa que não existia no meu tempo: havia rabos, músculos nos braços, outras saliências e perturberâncias (sic), mas não se falava de abdominais. A culpa é do Figo e do Rui Costa que apenas se preocupavam com o cabelinho, e não perceberam que podiam ativar a marca da sua barriguinha, como fez o Ronaldo anos mais tarde. Já para não falar do Futre ou do Rui Barros, que até devem achar esta conversa meio esquisita. Em dois meses de regime tenho aprendido muita coisa. Por exemplo, quando me meti nesta aventura não antecipei que há uma diferença entre fazer-dieta e fazer-uma-dieta, e que quem faz-...