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A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: João Marques de Almeida

17 de Junho: o dia em que o Governo desapareceu

JOÃO MARQUES DE ALMEIDA    OBSERVADOR   02.07.17 Se o Observador tivesse uma secção de anúncios, certamente que um deles diria: desaparecido há mais de duas semanas, procura-se o Governo de Portugal. Passaram duas semanas e o governo não consegue explicar o que correu mal em Pedrógão Grande. Aliás, o   Expresso   desta semana explica mais do que se passou do que o Governo desde 17 de Junho. Estamos todos cansados do tema, mas a sua importância obriga-nos a não o deixar cair. É impressionante como um incêndio expõe as fraquezas de um Governo, ao qual aparentemente tudo parecia correr bem. No Ministério da Administração Interna, reina a anarquia. Os serviços do Ministério passam as culpa uns para os outros. A ministra assiste a esta guerra civil entre os serviços que tutela sem nada fazer. A sua autoridade desapareceu. A anarquia no MAI é muito grave e afecta a segurança dos portugueses. Estamos a começar o Verão, a época de incêndios em Portugal....

Meu Caro Mário Soares, muito obrigado

JOÃO MARQUES DE ALMEIDA       OBSERVADOR      27.12.16 O senhor foi sempre um homem livre. Na minha opinião esteve muitas vezes errado. Mas foi sempre livre. Sempre admirei isso em si. E só os homens livres lutam pela liberdade com todas as suas forças. Resolvi escrever-lhe esta carta num momento em que enfrenta o seu maior desafio. Está a lutar pela sua vida. Infelizmente, pelas notícias que nos chegam, será uma luta muito difícil. Talvez seja uma carta de despedida, mas se há um político em Portugal que mereça uma despedida é o senhor. Vou ser muito franco. Nunca votei em si, nem no PS de resto. Devo confessar que se soubesse o que sei hoje, teria votado em si nas primeiras presidenciais a que concorreu. Mas a verdade é que não votei. Ao contrário do senhor, não sou socialista. Sou de direita, liberal e, cada vez mais, conservador. Também não sou laico. Acredito em Deus e recebi uma educação Católica. Por fim, embora não seja um monárquico m...

Uma fraude e um perigo chamados Sócrates

João Marques de Almeida Observador 2/10/2016 Sei que muita gente está convencida que Sócrates jamais regressará ao primeiro plano da política, mas a verdade é que o tempo de crise e de populismo em que vivemos é perfeito para alguém como ele. Sócrates é simultaneamente a maior fraude e o homem mais perigoso da política portuguesa. E ninguém julgue que abandonou a política. Nunca o fará. Nunca fez outra coisa e não sabe fazer mais nada. Comecemos pela fraude. Nas recentes aparições, Sócrates anunciou que iria publicar um novo livro. Chama-se, aparentemente, Carisma. Sócrates e os livros remete-nos para uma das maiores fraudes da vida literária nacional durante os últimos anos, o seu primeiro livro, A Confiança no Mundo. Segundo relatos públicos, nunca desmentidos, não terá sido escrito por Sócrates. Aliás, gostaria que um jornalista investigasse se Sócrates chegou a acabar o mestrado. Terá Sócrates o grau de mestre? Ou será um mestre como era engenheiro? Mas pior do que as ...

Que PS vamos ter?

João Marques de Almeida Observador 25/9/2016 Enquanto o PS não se reformar, e deixar de ser o partido moldado por Sócrates e por Costa para estar no poder a todo o custo, será um problema, e não uma solução, para Portugal. Esta é, para mim, a questão central da política portuguesa. Bem sei que a Mariana Mortágua excita muita gente, como se viu na semana que passou (e, especialmente, os meus e as minhas camaradas de escrita do Observador). Mas, e espero que a Mariana não leve a mal, as suas intervenções públicas recentes foram irrelevantes. O apelo ao fim do capitalismo apenas confirmou o que muitos de nós, no Observador, temos escrito nos últimos meses. O Bloco de Esquerda é um partido marxista. É natural que uma política do BE defenda o fim do capitalismo. Alguma surpresa? Não o sabíamos? Ficaria admirado com o contrário. Se um dia a Mariana Mortágua defender a City e os grandes bancos, isso seria notícia. Admito que o PM se tenha interrogado se afinal o BE saltou o Muro. Q...

A geringonça iniciou o processo de privatização da Caixa

João Marques de Almeida Observador 4/9/2016 Para evitar o regresso da direita ao poder, BE e PCP estão dispostos a implementar as políticas “neo-liberais” impostas pela União Europeia. Ninguém está no poder de graça. Isto tem que ser dito e explicado porque a esquerda poderá estar fora do governo se for necessário concluir a privatização. Caberá então à direita fazê-lo, e os partidos de esquerda irão, naturalmente, atacar o processo, apesar de o terem iniciado. Devo dizer que, no passado, fui a favor da privatização da Caixa. Achava que o uso de um banco público para fins privados por parte dos governos não servia a economia nacional. E a vergonha do que aconteceu na Caixa entre 2005 e 2010, com os governos de Sócrates, confirmou os meus receios. Entretanto mudei a minha posição, por causa dos erros e dos crimes cometidos por gestões de bancos privados (em Portugal e na Europa). A privatização da Caixa não a protege da má gestão. O que interessa é o regulador e a supervisão....

Uma virgem chamada António Costa

João Marques de Almeida Observador 21/8/2016 No universo político de Costa as intenções e os anúncios é que contam. Concretizar as promessas é irrelevante. Numa Europa em crise constante haverá sempre uma razão para explicar que não foi possível 1. Conta-se uma história sobre uma festa de homenagem a uma velha actriz de Hollywood, que se havia dedicado a todo o tipo de causas humanitárias. Um dos convidados fez um discurso a enaltecer as iniciativas e as boas intenções da velha senhora. Todos os convidados, excluindo um deles, bateram palmas. A excepção chama-se Woody Allen. Espantado com o comportamento de Woody, o seu vizinho de mesa perguntou se tinha alguma coisa contra a homenageada. Woody Allen respondeu: “Sabe, eu conhecia-a antes de ela ser virgem.” Lembrei-me desta história quando li sobre a reação de António Costa aos fogos em Portugal, a propósito do reconhecimento do seu antigo secretário de Estado de erros cometidos pelo ministério da Administração Interna, tute...

Sanções, referendo e Durão Barroso

João Marques de Almeida Observador 10/7/2016 Como bem explica Hanna Arendt, o início do totalitarismo dá-se com a diabolização pessoal dos adversários políticos. Parece que os dirigentes do Bloco são especialistas, mostraram-no com Durão Barroso 1. O período entre o Congresso do Bloco de Esquerda e a reação das suas principais figuras à contratação de Durão Barroso pela Goldman Sachs marca a “le penização” do BE. Tal como a Frente Nacional, e outros partidos extremistas, o BE usa uma linguagem de ódio e raiva, e explora um discurso profundamente nacionalista assente em argumentos populistas e demagógicos. Por exemplo, as reações de Marine Le Pen e de Mariana Mortágua à ida de Barroso para o banco norte americano são exactamente iguais. Não se entende a tolerância que existe em Portugal em relação ao discurso politico do BE. Se fosse um partido de extrema direita a dizer o que diz o BE, haveria uma indignação geral; e “fascismo” seria a palavra mais ouvida. O discurso do BE...

Costa vai provocar eleições antecipadas?

João Marques de Almeida| Observador | O3/7/2016 Costa passará o Verão a reflectir sobre a oportunidade de iniciar uma guerra com Belém para provocar eleições antecipadas. Se acreditar que é a sua única possibilidade de sobrevivência não hesitará Ninguém sabe como, nem quando, irá acabar a geringonça. Mas há outras coisas que sabemos. Nenhum dos objectivos macroeconómicos definidos pelo governo no orçamento se irá concretizar. O crescimento ficará abaixo dos 2.6% (possivelmente abaixo do 1,5%). O défice ficará acima dos 2.2%. E a dívida pública vai aumentar. Más notícias, apesar do discurso optimista de Costa. Sabemos igualmente que o sistema financeiro está perto da ruptura, necessitando de uma recapitalização com urgência. Para a Caixa fala-se de valores de cerca de 5, 6 mil milhões de Euros. A venda do Novo Banco irá seguramente provocar perdas para os outros bancos. Isto quando o BCP enfrenta uma crise bolsista muito séria. A situação é de tal modo grave que se fala, em L...

Em Espanha, o “BE” vai ganhar ao “PS”

João Marques de Almeida Observador 12/6/2016 O PS poderá um dia enfrentar o dilema que o PSOE vai enfrentar no dia 27 de Junho: participar numa maioria de esquerda com um PM do BE ou permitir um governo minoritário de direita. Vivem-se tempos estranhos na Europa. Há, por um lado, o campeonato europeu de futebol, igual a tantos outros. Mas, por outro lado, a Europa daqui a um mês poderá ser muito diferente da Europa de hoje. Enquanto os europeus seguem as suas seleções, o continente pode iniciar uma transformação cujo rumo será impossível de prever. O referendo britânico poderá começar uma revolução europeia. Mas as eleições em Espanha terão igualmente um elevado significado político. Se as sondagens estiverem certas – e acertaram em Dezembro do ano passado – será a segunda eleição, em menos de um ano, sem consagrar uma solução estável. Um acontecimento único na história da Espanha democrática. A única certeza será um governo minoritário. Mas o ponto que me merece atenção a...

Costa tem os defeitos que os portugueses gostam e Passos tem as virtudes que assustam

João Marques de Almeida Observador 5/6/2016 António Costa é óptimo a vender ilusões. Depois de quatro anos de austeridade, os portugueses estavam cansados de verdades e da realidade. Agora, querem ilusões e mentiras piedosas. As características pessoais dos líderes políticos são muito importantes. A política é mais do que ideologias ou luta pelo poder. As qualidades e os defeitos individuais definem em grande medida o destino de um país. O primeiro-ministro e o líder da oposição não podiam ser mais diferentes. Costa tem os defeitos – ou as qualidades, depende das perspectivas – de que muitos portugueses gostam. Em primeiro lugar, a habilidade política. Costa tem aquela esperteza rasteira de que os portugueses gostam ou, muitos que não a possuem, invejam. O modo como chegou a PM sem ganhar as eleições foi o momento alto dessa habilidade. Nas semanas seguintes, olhava-se para Costa e notava-se como ele andava satisfeito com a sua esperteza. Aquela cara, com um sorriso permanen...

A oposição é fixe

João Marques de Almeida Observador 2/4/2016, 15:23 Estou convencido que será a economia, e não as finanças públicas, a derrotar o governo. Nessa altura o PSD deverá mostrar aos eleitores que tem as políticas certas para o país regressar ao crescimento O PM António Costa é uma personagem engraçada. Passou dois meses a jurar aos portugueses que tinha uma “maioria sólida, estável e duradoura.” Com essa maioria, foi para o governo. Mas, aparentemente, uma maioria absoluta não chega. Ataca o PSD por não colaborar com o governo e corteja a nova liderança do CDS, beijando com todo o descaramento a nova líder do CDS em pleno Parlamento. Aliás, aqueles beijos a Assunção Cristas são os verdadeiros beijos da morte. Costa quer uma maioria total, com ele no centro como PM, e manobrando-a ao sabor dos seus interesses do momento. Ora beija Catarina, ora beija Assunção. O desejo pela maioria total mostra muito sobre a natureza do PS e da política nacional. Costa quer mostrar que o PS é o ...

Marcelo e Costa: “O Sr. Feliz e o Sr. Contente”

João Marques de Almeida Observador 27/3/2016 Peço desculpa por relembrar a realidade quando seria suposto andarmos todos entusiasmados. Os últimos números mostram as contas públicas a piorar. E que a dívida privada é ainda maior do que a pública O Presidente e o PM perceberam que os portugueses precisam de um discurso positivo, de boas notícias e de alegria. Como disse Marcelo Rebelo de Sousa, é necessário “pacificar e desdramatizar a sociedade portuguesa, para uni-la.” Marcelo e Costa acreditam que gozam do talento de usar a retórica adequada para mudar o humor dos portugueses. E não é um talento menor, longe disso. Quando olhamos para fotografias dos dois juntos, sentados em Belém ou na escadaria de São Bento (gosto de perder algum tempo a olhar para as fotografias, dizem muito), transpira uma imensa felicidade. Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa são dois homens felizes (parecem a versão política do “Sr. Feliz e do Sr. Contente“). Fazem-me lembrar dois meninos que r...

A oposição direita-esquerda tornou-se secundária

João Marques de Almeida Observador 13/2/2016 A esquerda nacional recusa-se a reformar o Estado porque ela é, em grande medida, o Estado. Por isso o governo protege os privilégios dos seus. Não defende o “Estado social”, mas o “Estado clientelar” A oposição direita-esquerda tornou-se secundária. O que não significa que seja irrelevante. As duas famílias políticas são obviamente diferentes. As diferenças resultam de percursos históricos distintos e formam identidades políticas que não se confundem. Não foi a irrelevância que tornou a oposição secundária, mas sim a emergência de outras diferenças políticas, neste momento, mais relevantes; e decisivas para o nosso futuro, sobretudo na Europa. A dimensão do Estado, antes de mais na vida económica de uma sociedade, constitui a primeira oposição que define os nossos dias. A realidade, a experiência, os números (chamem-lhe o que quiserem) mostram que em muitos países europeus o Estado é insustentável. Por exemplo, no caso de Portuga...