quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Costa atómico

ANDRÉ MACEDO | DN 2015.10.14

A velocidade é um conceito relativo. Passos Coelho fez tudo ao ritmo normal, mas parece ter circulado como nos tempos da máquina a vapor em comparação com a hiperatividade de António Costa. Logo na noite eleitoral, o ainda primeiro-ministro reconheceu que a vitória o obrigava a negociar com o PS. Esse primeiro contacto deu-se logo na sexta-feira, três dias a seguir a o Presidente da República o ter pedido. Teria acontecido tudo dentro do que é expectável, não fosse o líder socialista ter pisado a fundo no acelerador. Ainda não secara a tinta do discurso de Cavaco e já Costa se encontrara com Jerónimo de Sousa e aberto a porta a Catarina Martins. O Bloco acabou por aceitar o noivado apenas na segunda-feira, embora deixando-se cair no regaço do secretário-geral socialista sem grandes cerimónias. Em menos de uma semana, o candidato derrotado no domingo percorreu todos os partidos com assento parlamentar, mas fez mais do que isso. Iniciou também os contactos que podem ajudar a digerir na UE um governo tão à esquerda como este - haverá seguramente chatices, tensões e hesitações. As entrevistas que António Costa deu ontem à Reuters e à AFP são apenas a parte visível deste processo de sensibilização europeia. Bruxelas sabe o que está a acontecer e não deixou de estar informada pelo Largo do Rato ao longo destes dias. O único obstáculo capaz de parar este TGV teria sido o próprio PS, justamente receoso de partilhar cama e roupa lavada com PCP e BE. Mas não foi isso que sucedeu. As vozes críticas foram dispersas, embora contundentes, e também elas sem o turbo de António Costa. É assim que chegamos a esta quarta-feira, dez dias depois das eleições, e nada é como parecia que ia ser. O pisca-pisca do PS avisando a iminente viragem à esquerda é um facto que só falta consumar. Para isso, Bloco e PCP terão ainda de renegar muito do que defendem - um momento histórico de fiabilidade imprevisível e que, sublinhe-se, ainda não tem epílogo certo. Quanto a Cavaco, não lhe resta mais do que ser exigente. A não ser que mude tudo outra vez para que tudo fique na mesma.
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