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O “português”

D. NUNO BRÁS   VOZ DA VERDADE   13.11.16 Lisboa tem, desde o passado domingo, uma estátua de S. Nuno de Santa Maria numa das suas ruas. S. Nuno é a figura que une o Portugal de Afonso Henriques e aquele das descobertas. D. Afonso Henriques sonhou com a independência de Portugal; foi um lutador infatigável na reconquista. Mas o Portugal de então dificilmente se poderia dizer uma unidade; dificilmente se poderia chamar uma “nação”. Foi com D. Nuno Álvares Pereira que apareceu “o português”, esse homem que é um misto de destemido diante das dificuldades e profundamente crente – esse homem que encontra soluções quando tudo parece perdido, mas que se confia ternamente nas mãos de Nossa Senhora. Quando, em 1383, muitos e grandes vacilaram, atemorizados pela potência castelhana, ele não apenas persistiu no seu propósito de defender a independência nacional como foi capaz de mobilizar as vontades dos nobres e do povo. Com mestria, organizou a defesa e liderou as gentes port...

100 anos das aparições do Anjo (1916)

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Sou o anjo da Paz D. Nuno Brás Voz da Verdade, 2016.06.05 Tem passado particularmente despercebido o centenário das aparições do Anjo aos Pastorinhos. De facto, estas aparições tiveram lugar ao longo de 1916 e precederam as aparições de Nossa Senhora na Cova da Iria. No entanto, as aparições do Anjo são um prenúncio importante da mensagem e dos acontecimentos de Fátima, ajudando-nos a perceber o seu fio condutor. Na primeira aparição, quando um forte vento sacode as árvores no meio de um dia sereno, aos Pastorinhos aparece a figura de “um jovem dos seus 14 a 15 anos, mais branco que se fora neve, que o sol tornava transparente como se fora cristal, e duma grande beleza” (Memórias da Irmã Lúcia, I 62). Diz-se “Anjo da Paz” e convida à oração, ao reconhecimento de Deus, ligando desse modo a paz no mundo e a atitude de oração e de adoração. Outra vez, no Verão e por entre brincadeiras, o Anjo mostra-se novamente a Jacinta, Francisco e Lúcia, identificando-se como “Anjo da...

Escolas públicas ou estatais?

D. NUNO BRÁS | Voz da Verdade | 2016.05.24 O antónimo (o contrário) gramatical de “público” é “privado”. Mas aquilo que é um caso de gramática nem sempre tem uma simples correspondência na realidade. Com efeito, não poucas intervenções de políticos, governantes e sindicalistas de uma determinada área têm ultimamente contraposto o “ensino público” ao “ensino privado”. Só que esta contraposição gramatical não tem correspondência simples na realidade. Tudo tem início num pressuposto errado: que só o Estado (e o governo que nele manda) tem o monopólio do que é público. Ora isso não é verdade. Existem muitas entidades e serviços que o Estado proporciona e que não são para todos. Ao contrário, existem muitas outras realidades que sendo propriedade de uma entidade que não o Estado são acessíveis a todos. Assim, por exemplo, nem todos os cidadãos portugueses podem entrar no Palácio de Belém ou mesmo nos seus jardins (que, de vez em quando, abrem ao público e são notícia por isso); mas, ...

Deus não vai de férias

D. Nuno Brás Voz da Verdade, 2015.07.26 A tecnologia, fruto do progresso científico que o mundo ocidental colocou ao nosso dispor, dá-nos, não raras vezes, a sensação de que somos omnipotentes, invencíveis e dominadores de tudo. Projetamos a nossa vida e queremos a todo o custo que tudo se cumpra de acordo com as nossas previsões. E que os outros sigam a nossa norma – que tenham os mesmos gostos, que sejam do mesmo clube desportivo, que estejam ao nosso dispor quando deles precisamos. Mas essa ilusão de omnipotência de que tanto gostamos tem diariamente vários sinais de que não passa de uma simples ilusão por cada um construída. Um desses sinais é a necessidade de repouso diário. Não existe ninguém que não tenha que descansar, que dormir. Podemos, na força da vida, “fazer uma direta”, como gostam de dizer os estudantes em tempos de exames, passando uma noite sem dormir e continuar, dia adiante, no trabalho que temos pela frente. Mas logo depois o sono tem que ser minimamente...

Votar na Europa?

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D. NUNO BRÁS, Voz da Verdade, 2014.05.18 É verdade que temos uma imagem muito pouco favorável do Parlamento Europeu – que, reconheça-se, o próprio Parlamento não tem contribuído em nada para melhorar, desde que foi criado. A nós, que o vemos ao longe, parece-nos um lugar de "prateleiras douradas", cujos membros recebem bons salários e regalias muito acima da média dos cidadãos europeus (mesmo em relação aos países com situações económicas estáveis e invejáveis), com tendência a produzir documentos que raras vezes têm a ver com a realidade. Aquilo que verdadeiramente conta – dirão alguns – é antes a Comissão Europeia ou o Conselho dos Presidentes e Chefes de Governo de cada país, que definem as linhas concretas de actuação, sobretudo em matérias económicas e de relações com os países membros ou não da União Europeia. Poderá tudo isso ser verdade. Mas o facto é que, mesmo sem definir concretamente a política económica ou a política e...

Vale de Lágrimas

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D. NUNO BRÁS Voz da Verdade, 2014.04.13 Confesso que a expressão "gemendo e chorando neste vale de lágrimas" da Salvé Rainha a comecei por entender como fruto de um cristianismo pessimista, vivido essencialmente a pensar na cruz do Senhor, e a achar que tudo, no mundo, era mau. Por isso compreendo tantos que têm dificuldade em rezar esta antífona que faz parte da nossa tradição mariana. Certamente (e digo-o sem qualquer tom de crítica) reconheço que muitos a rezarão naquele tom resignado e derrotado. Mas devo, igualmente, confessar que rezo hoje aquela oração como expressão grande da fé. É que, por muito que nos esforcemos, de um modo ou de outro, qualquer ser humano vive momentos de sofrimento e de solidão, de abandono e mesmo desespero, de morte. Não vale a pena criar a ilusão (nem sequer e muito menos nas crianças) de que a vida será sempre um caminho de vitórias e sucessos, de alegrias e conquistas. Mesmo as "estórias" que terminam com o cél...

Homilia de D. Nuno Brás nos Exercícios Espirituais de Comunhão e Libertação (Vimeiro)

14 Quaresma Sábado IV

Química

D. Nuno Brás | Voz da Verdade | 9.03.2014 Está hoje na moda entre os jovens (e menos jovens) chamar “química” à atração física que alguém sente por outro. Não sei as origens desse costume. Mas sei que ele trouxe consigo duas realidades que não deixam de me preocupar. Em  primeiro lugar, o facto de reduzir as relações humanas a uma reação química. Ao início, o uso da expressão parecia ser uma simples comparação: tal como dois reagentes dão origem a uma realidade nova, assim também os apaixonados deixavam que nascesse o amor entre eles. Mas daqui já se foi mais longe, e hoje já nos encontramos no campo da afirmação da pretensa realidade (ainda há dias encontrei alguns estudantes do ensino secundário que pensavam deste modo), ou seja: a paixão e o amor mais não seriam que o fruto de uma reação química que existiria no nosso corpo, provocada pela presença daquele outro ser. Assim como dois átomos de hidrogénio e um de oxigénio juntos dão lugar à...

Vontade de morrer

D. NUNO BRÁS, Voz da Verdade, 2014.02.23 A Bélgica aprovou na semana passada uma lei que permite que uma criança peça a eutanásia. Não bastava que já existisse uma lei semelhante para os adultos. Agora estendeu-se a lei também às crianças (entenda-se, de facto, aos seus pais). Trata-se de um "direito a morrer", dizem os defensores da legislação, como se a morte fosse um direito. A Bélgica poderá ser o primeiro país europeu a fazê-lo. Mas, não tenhamos dúvidas, outros seguirão a "moda". A vida parece que não vale por si. Parece que só vale se for vivida com todas as condições, todos os confortos, todo o bem-estar: parece que foi a estas realidades que acabámos por reduzir a existência humana. Um destes dias chegaremos a uma lei que autoriza a eutanásia a quem não possuir algumas casas, uma boa conta bancária, e vários aparelhos de TV ou carros de boa marca… A Europa, incapaz de encontrar em si mesma e no seu mod...

Fundamentalismo

D. Nuno Brás, A voz da verdade, 2014.02.16 O mundo contemporâneo diz ter horror ao fundamentalismo. Entenda-se: ao fundamentalismo religioso. Nisso, os ataques de origem muçulmana que têm ceifado centenas de vítimas ao longo destes últimos decénios são tomados como o grande exemplo. Mas, depois, habitualmente mal contadas e preconceituosas, aos relatos desses massacres logo se juntam todas as estórias do chamado "fundamentalismo cristão". É claro que, para a opinião pública e para os seus fazedores não existe, à partida, fundamentalismo judaico, ou budista, ou hindu, porque esses não incomodam, a nós europeus e ocidentais, que queremos viver comodamente e sem preocupações – aliás, do oriente só nos vem uma forma etérea de viver: de paz, de tranquilidade, da harmonia, de introspeção… leia-se: de auto-justificação dos nossos pecados e do nosso bem-estar… De lá não nos chegam nunca notícias de violências nem de guerras… Tudo o que vai contr...

«Estilo pastoral», marca do Papa Francisco

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D. Nuno Brás destaca a linguagem acessível da primeira exortação apostólica do pontificado, «Evangelii Gaudium» Lisboa, 17 dez 2013 (Ecclesia) – D. Nuno Brás, bispo auxiliar da Diocese de Lisboa, considera que a exortação apostólica 'Evangelii Gaudium', "essencialmente um documento pastoral", mostra o programa do pontificado e o "estilo" do Papa, que é a sua "grande novidade". "Creio que podemos dizer que este Papa não terá como objetivo fazer qualquer progresso doutrinal ou desenvolvimento doutrinal em relação aos seus antecessores, [mas] assume as reflexões e posições doutrinais. Aquilo que é a grande novidade é o seu estilo pastoral que encontramos muito claro nesta exortação apostólica", explica à Agência ECCLESIA D. Nuno Brás, professor de Teologia na Universidade Católica Portuguesa. Neste estilo próprio, o prelado destaca a linguagem que Francisco utiliza para desinstalar e desafiar todas as pessoas. "É muito estranho ...

Clareza

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D. Nuno Brás Voz da Verdade, 2013-10-20 Afinal, a lei não passou. O Código Penal do Equador continua a defender a vida humana desde o seu início, como aliás se encontra escrito na Constituição do próprio país. Apesar disso, durante a discussão de uma nova redação do Código Penal, alguns deputados tentaram uma liberalização do aborto. O Presidente da República equatoriano, Rafael Correa, anunciou, no passado dia 10 de Outubro, que "se um grupo de pessoas muito desleais conseguir que a despenalização do aborto seja incluída no novo Código Penal, eu imediatamente apresentarei a renúncia ao meu cargo". "Jamais aprovarei a despenalização do aborto" — afirmou ainda. Contudo, se é certo que a lei não passou — quem sabe se pelo facto de o Presidente da República ter sido assim tão claro — não deixa de ser digna de nota a posição deste político, até porque, habitualmente, não é isso que acontece, em particular nestes casos de defesa da vida. Na sua grande maior...

Para além do “obrigado”

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|D. Nuno Brás Voz da Verdade, 2013-06-30 O Patriarcado de Lisboa vive este fim-de-semana um dos momentos que marcará para sempre a sua história: no dia 29, o Senhor D. José Policarpo preside, pela última vez, à celebração das ordenações sacerdotais e despede-se dos seus diocesanos como Patriarca de Lisboa. Significativamente, fá-lo no dia em que completa 35 anos de ordenação episcopal. Ao longo de cinco décadas, o Senhor D. José foi uma das personalidades que nos habituámos a perceber como decisivas nos grandes momentos da vida da nossa diocese, da Igreja e de Portugal: Professor de Teologia, intelectual escutado nos ambientes culturais, Reitor do Seminário dos Olivais e da Universidade Católica, Bispo Auxiliar e, finalmente, desde 1998, Patriarca de Lisboa e Presidente da Conferência Episcopal. Se estes cargos lhe deram visibilidade e o tornaram numa figura pública, não menos importante foi a sua ação de pastor, capaz de discernir o caminho a seguir nas situações mais comple...

Deus confia em nós

Voz da Verdade, 2013-06-09 D. Nuno Brás Tenho, cada vez mais, a certeza de que nos encontramos num momento de viragem não apenas epocal (de um modo de viver a outro, tal como, por exemplo, a Europa mudou da Idade Média para a Idade Moderna) mas mesmo uma viragem civilizacional. A Europa e todo o mundo ocidental, tal como os conhecemos – com os seus valores, as conquistas realizadas em termos de cultura e ciência humanas, a segurança na saúde e na velhice, a garantia de trabalho para todos, o respeito dos direitos humanos (apesar dos muitos atentados que a eles são cometidos todos os dias), encontram-se, tudo indica, no momento de se encaminharem para o desaparecimento. A minha grande questão continua a ser até que ponto as comunidades cristãs são ou não capazes de constituir o gérmen desse mundo novo que, inevitavelmente surgirá: se têm vitalidade, entusiasmo, se vivem suficientemente da fé para constituírem o ponto de partida de um novo modo de viver. Um destes dias expu...

Um novo Patriarca

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Voz da Verdade, 2013.05.26 D. Nuno Brás Como é já sabido, no passado Sábado o Santo Padre Francisco nomeou um novo Patriarca de Lisboa, o Senhor D. Manuel Clemente. O Senhor D. Manuel é conhecido de todos. Nasceu na nossa diocese; foi seu ilustre sacerdote; e, durante vários anos, foi seu bispo auxiliar: não é, pois, aqui, o lugar para lhe expressar o sentimento de boas vindas (que, estou certo, é universal), como se fosse um desconhecido; ou mesmo para lhe confirmar a certeza de uma fiel e sincera colaboração, como se isso não fosse um dado prévio a tudo o mais, garantido pela própria amizade pessoal. Nem, tão-pouco, é o lugar para assegurar ao Senhor D. José Policarpo a continuação dos sentimentos filiais que, ao longo de todos estes anos, marcaram na minha relação com ele, enquanto seminarista, sacerdote e, finalmente, como seu bispo auxiliar, e que tenho a honra e a certeza de partilhar com os cristãos do Patriarcado. Tudo isso é dado por descontado e seguro. Creio que ...

Família

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Voz da Verdade, 2013-05-19 D. Nuno Brás Temos cuidado pouco da família. Temo-la olhado como uma realidade que, de tanto se encontrar na base do viver humano, sobreviverá automaticamente. Ou como uma realidade que tanto importa que sobreviva ou não, porque todo o resto do tecido social irá continuar, sem ruturas nem sobressaltos, eventualmente com um rosto diferente, organizado de outro modo (segundo alguns, até mesmo melhor). O facto é que isso não é, simplesmente, verdade. É certo que a família – como muitas outras realidades humanas básicas – já se apresentou de forma diferente da que temos hoje. Já foi a família "alargada" que se estendia a toda a aldeia; já foi a família "de elite" que se encontrava acima do próprio Estado; já foi, em muitos casos onde a ideologia se sobrepôs à vida humana, o simples lugar onde eram gerados os membros de uma pretensa "nova sociedade", sendo depois os filhos retirados aos pais e educados pela "coletividade...