Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Política: Esquerda

O colapso da decência

NUNO MELO   01.12.16   JN A aprovação do voto de pesar pela morte de Fidel Castro na Assembleia da República, como alguém que "consagrou a vida aos ideais do progresso social e da paz", significou o derradeiro triunfo do ditador, sobre os valores de referência do regime democrático. A extrema-esquerda que contesta a legitimidade da eleição de Donald Trump nos EUA teve sucesso na homenagem a um déspota cubano que, como é sabido, nunca contou um voto nas urnas, ao mesmo tempo que, na caricatura do absurdo, se manifestou sentada no hemiciclo, sem respeito nem educação, contra a visita amiga do rei legítimo de Espanha, acusado de nunca ter sido submetido a sufrágio. Agiu a propósito, com a mesma facilidade com que grita "liberdade" de cravo ao peito em cada dia 25 de Abril, mas concretizou o 11 de Março e lutou para que o 25 de Novembro nunca visse a luz do dia. Conseguiu para o tirano do Caribe o que negou por ocasião da morte de José Hermano Saraiva, perigo...

De Sánchez a Costa: o verdadeiro problema da social democracia

Rui Ramos Observador  4/10/2016 Em Espanha, Pedro Sánchez fez-se radical e tentou aliar-se ao radicalismo para continuar à frente do partido e chegar ao governo. Falhou. Em Portugal, António Costa conseguiu. É a diferença.   Pedro Sánchez já não é líder do PSOE. Mas a sua história é muito instrutiva sobre as aflições da esquerda democrática na Europa. Geralmente, o hábito manda dizer que a social-democracia tem dificuldades com a “globalização” e a “austeridade”. Talvez tenha, como todos têm, à esquerda e à direita. Mas a social-democracia tem um problema muito maior com o radicalismo anti-democrático contra o qual parece por vezes não ter defesas. Sánchez perdeu todas as eleições – duas legislativas, duas autonómicas, e as municipais –, com os piores resultados da história do PSOE. Perdeu também a confiança do Comité Executivo, com 17 dos seus 35 membros a saírem em protesto. Mas mesmo sem eleitores e sem colegas, Sánchez preparava-se para ficar. O plan...

Esquerda, direita e vice-versa

António Barreto DN201601002 Está aberto um novo ciclo político. Como já houve noutros tempos, de má memória, antes e depois do 25 de Abril. São tempos de fanatismo. De exclusão. De afrontamento sem tréguas. São tempos de esquerda contra a direita, que geram tempos de direita contra a esquerda. Há quem goste. Há quem considere que essa é a grande política, o regresso da política e outras banalidades. Mas sabemos que não é verdade. Com o país assim dividido, perdem-se meios de acção e oportunidades de compromisso e de cooperação. Há com certeza esquerda e direita. Em muitas coisas, são diversos e querem coisas diferentes. Mas há muito mais. O país e a política não se resumem a isso. Há a cultura, a nação, a religião, a etnia, a região, a idade, a arte, a ciência, o trabalho, o desporto, o amor, boa parte da economia, a educação, a saúde, o património e muito mais onde esquerda e direita não têm qualquer espécie de importância, podem até ser nefastos. O que nestes tempos de f...

"Dou-me por culpada"

Álvaro Balsas JN 20160927 A senhora secretária de Estado Alexandra Leitão (AL), tenaz defensora de uma certa conceção de escola pública, tem promovido uma cruzada contra os "lobbies" dos contratos de associação, que vivem, segundo ela, às custas do Estado. Campanha essa que acabou por atirar recentemente para o desemprego, de uma só penada, uma grossa fila de professores e funcionários indefesos, gerando nefastos e irreparáveis danos nas respetivas famílias, que se viram súbita e brutalmente atingidas, sem que o Estado assuma as suas responsabilidades sociais. AL veio agora, numa entrevista concedida ao DN, a 15 de setembro último, movida, de novo, por um ímpeto de "convicção firme", de que afirma estar possuída - qual heroína e missionária nacional -, declarar-se culpada face às acusações que lhe fazem de gastar dinheiro na escola pública. Afirma AL que esta escola é "o grande veículo de igualdade de oportunidades", já que "temos de ter todo...

Gaspar de esquerda

Luciano Amaral Correio da manhã| 2016.09.19 | 01:45 A ‘geringonça’, como projecto económico, morreu. Pode sobreviver como projecto político, pelo menos enquanto o balão de oxigénio da ‘devolução de rendimentos’ mantiver os seus beneficiários satisfeitos. Como esses beneficiários são sobretudo da classe média e média alta, em particular funcionários públicos, que são dos grupos mais ruidosos na opinião pública, o balão vai dando para umas sondagens razoáveis. Por sua vez, as sondagens vão dando para manter a ‘geringonça’ junta, apesar de casos que noutros tempos teriam levado PCP e BE à apoplexia (como o ‘Galpgate’ ou o episódio da CGD). A morte da ‘geringonça’ económica não é coisa pouca. Os seus três partidos passaram o tempo a dizer que a política da ‘troika’ era errada e que Portugal precisava de uma política de crescimento. Devolver rendimentos era a maneira de fazer isso, pois a economia cresceria com o consumo. Ora, os rendimentos foram devolvidos e… nada. Para o O...

Mário Centeno: ingenuidade ou honestidade?

Imagem
Luís Aguiar-Conraria Observador 14/9/2016 Podemos discutir se o risco de um resgate é elevado ou baixo, mas não podemos negar que existe. Podem acusar Centeno de ingenuidade, mas não de desonestidade. E não merece castigo quem diz a verdade. Às vezes interrogo-me sobre quais as vantagens e desvantagens de ter académicos no Governo. As desvantagens são óbvias. São geralmente pessoas que não têm experiência de liderança de equipas, essencial num ministério ou secretaria de Estado. Estão habituadas a ter tempo para pensar, o que dificilmente encontrarão nos ministérios. E, se calhar mais importante, estão habituadas a especular e a testar várias hipóteses até acertar com a resposta, o que obviamente deixam de poder fazer. Também encontro algumas vantagens. Têm uma boa profissão à sua espera quando saírem do Governo; a liberdade de poder virar as costas e bater com a porta dá-lhes independência. Muitos académicos estão habituados a trabalhar 60, 70 ou 80 horas por semana duran...

António Costa no país do cinismo

Rui Ramos Observador 13/9/2016 Para Costa, o aumento dos colocados no ensino superior resultou da reversão das políticas da direita. Porém, esse aumento começou com Passos. Que impede Costa de dizer as coisas tal como elas são? António Costa podia ter apenas saudado o aumento dos candidatos colocados no ensino superior público. Mas foi mais forte do que ele: teve de acrescentar que isso se devia exclusivamente à “morte” do “modelo da direita”. Infelizmente, as estatísticas não o ajudam. O número de colocados começou por cair entre 2010 e 2011. Culpa do “modelo da direita”? Mas era Sócrates quem estava no poder. Depois, o número subiu de 2014 para 2015. Mérito da “reversão das políticas de direita”? Mas era Passos Coelho quem governava. Porque é que António Costa não pode dizer as coisas simplesmente como elas são? Onde está a dificuldade? A dificuldade está num dos grandes legados de Sócrates aos seus correligionários: a teoria da “narrativa”. O princípio da teoria é exped...

Catarina e os Comandos

JOÃO MIGUEL TAVARES Público 13/09/2016 O mundo está perigoso em todo o lado. Menos, claro, na cabeça de Catarina Martins. O Bloco de Esquerda é cada vez mais o partido da auto-ajuda. Catarina Martins já nos tinha avisado que preferia ser operada por um cirurgião que tivesse sido “feliz na escola” do que por um cirurgião que tivesse sido “testado na escola”, num texto a que chamou “6 razões para acabar de vez com os exames do básico”. Agora fez uma intervenção a que poderia ter chamado “6 razões para acabar de vez com o batalhão de Comandos”. Se alguém lhe perguntasse se preferia ser defendida por um soldado que tivesse sido “feliz na tropa” ou por um soldado que tivesse sido “testado na tropa”, estou certo que Catarina escolheria o soldado feliz, porque está convencida de que a mais nobre função das metralhadoras é servirem de jarras para cravos. Para Catarina Martins, “reconhecer a tragédia exige extinguir o batalhão de Comandos”. O raciocínio lógico é tentador: significa i...

A geração mais informada está infestada de patetas

Alberto Gonçalves DN20160911 As teorias da conspiração são o último refúgio dos nossos ignorantes Quinze anos depois, não tenciono informar ninguém sobre onde estava eu no 11 de Setembro, nem analisar o significado do 11 de Setembro, ou classificar a resposta militar ao 11 de Setembro, ou debater as origens do 11 de Setembro, ou ponderar a influência do 11 de Setembro na vida em 2016. Limito-me a lembrar que o DN de hoje inclui, por módico preço adicional, o DVD de Voo 93, filme que recria, na medida do possível, os últimos momentos do avião da United Airlines que, após sequestro e reacção dos passageiros, acabou despenhado num campo da Pensilvânia. Há dias, o DN antecipou online o lançamento. Um leitor criticou de imediato a "publicidade" do "imperialismo" e do "heroísmo parolo" (se fossem sofisticados, os burgessos dos americanos permitiram que os matassem sem levantar problemas). Outros leitores desenvolveram a tese e esclareceram as massas...

A geringonça iniciou o processo de privatização da Caixa

João Marques de Almeida Observador 4/9/2016 Para evitar o regresso da direita ao poder, BE e PCP estão dispostos a implementar as políticas “neo-liberais” impostas pela União Europeia. Ninguém está no poder de graça. Isto tem que ser dito e explicado porque a esquerda poderá estar fora do governo se for necessário concluir a privatização. Caberá então à direita fazê-lo, e os partidos de esquerda irão, naturalmente, atacar o processo, apesar de o terem iniciado. Devo dizer que, no passado, fui a favor da privatização da Caixa. Achava que o uso de um banco público para fins privados por parte dos governos não servia a economia nacional. E a vergonha do que aconteceu na Caixa entre 2005 e 2010, com os governos de Sócrates, confirmou os meus receios. Entretanto mudei a minha posição, por causa dos erros e dos crimes cometidos por gestões de bancos privados (em Portugal e na Europa). A privatização da Caixa não a protege da má gestão. O que interessa é o regulador e a supervisão....

CGTP, FENPROF, UGT... Lembra-se deles?

Camilo Lourenço Facebook, 20160905 O governo travou violentamente no investimento e não está a gastar uma boa parte das verbas que estavam inscritas no Orçamento do Estado. Fora os atrasos nos pagamentos a fornecedores, com destaque para a Saúde (mais de 200 milhões de pagamentos em atraso). Há dias, o Presidente da República avançou que essas cativações devem transformar-se em cortes definitivos, já depois de o governo ter declarado que em 2017 não haverá aumentos salariais. Apesar do que se está a passar, não se ouve CGTP, FENPROF, UGT e demais grupos de pressão brindarem o governo com o mesmo tipo de reação que dedicavam aos anteriores inquilinos de São Bento. Na CGTP, Arménio Carlos finge que protesta: quando abre a boca tem a mesma credibilidade de alguém que grita "Fujam, a casa está a arder!" com um sorriso nos lábios. Na FENPROF, Mário Nogueira deixou de aparecer (provavelmente porque anda a assessorar o ministro da Educação). Na UGT Carlos Silva parece ter e...

Está a gozar, não está?

Helena Matos Observador 31/8/2016 Quem garante aos senhorios de "cariz social" que daqui a uns meses o Governo não rompe o que assina com eles? Afinal foi isso que já aconteceu aos colégios e que agora se anuncia para a saúde. “Governo cria incentivos para senhorios terem estatuto de “cariz social”. Ministério quer convencer privados a praticar rendas acessíveis às classes média e média baixa, mais atingidas pela crise, revela o secretário de Estado Adjunto e do Ambiente, José Mendes.” – Lia-se na versão online do PÚBLICO. Na versão em papel, o destaque da capa ia também para este propósito governamental: “Governo prepara ajudas para envolver privados nas rendas sociais. José Mendes, secretário de Estado Adjunto e do Ambiente, quer avançar com a figura do senhorio de cariz social. Em estudo estão incentivos para aumentar a oferta de casas às famílias de menores rendimentos.” Deixando de lado a subtileza que leva a que numa versão os senhorios sejam envolvidos e...

O BE não pactua é com democracias

Alberto Gonçalves DN 20160828  Por dever de ofício, inclinação natural ou gozo, os políticos sempre mentiram. A diferença é que antigamente a mentira implicava um esforço, alguma sofisticação, um esboço de enredo. No Portugal de hoje, atiram-se ao ar as mais descaradas e preguiçosas patranhas na esperança de que as pessoas as engulam. E o nível de exigência está tão baixo que a esperança é fundamentada e as pessoas engolem mesmo as patranhas. Segundo Catarina Martins, o BE não enviou um representante ao congresso do MPLA por "não pactuar com ditaduras". É preciso lata, mas também é preciso uma audiência particularmente anestesiada. Catarina, a Pequena, poderia justificar a ausência do partido dela em Luanda com o clima, o transtorno das viagens ou a aversão a mandioca: com a ditadura angolana é que não. Até é ridículo ter de lembrar a simpatia apaixonada do BE pela ditadura palestiniana, ou a simpatia assumida do BE pela ditadura venezuelana, ou a simpatia mal dis...

Esquerda antiliberal

Vital Moreira Causa Nossa , 20160822 Por diferentes que sejam as suas posições e propostas políticas (diferenças por vezes mais aparentes do que reais), uma das muitas coisas que a nova esquerda radical comunga com a velha esquerda ortodoxa é o visceral antiliberalismo doutrinário, tanto contra o liberalismo político (democracia liberal) como contra o liberalismos económico (economia de mercado). Mas é também por isso que a esquerda social-democrata - que respeita a democracia parlamentar e a economia de mercado - não pode fazer distinções substantivas entre as esquerdas antiliberais nem ignorar o que a distingue essencialmente delas. Se, como digo há muito, a social-democracia europeia consiste na trilogia democracia liberal + economia de mercado + Estado social, então a única coisa comum com as esquerdas radicais diz respeito ao Estado social, mesmo assim em versões assaz diferentes. É importante, mas, dada a divergência de fundo quanto ao modelo político e económico,...

Os malucos

Alberto Gonçalves DN 20160821  Encerrado o "rescaldo" dos incêndios, é tempo de fazer o "rescaldo" das declarações da ministra da Administração Interna sobre os incêndios. Antes de mais, coloco a hipótese de as declarações em causa terem sido realizadas sob coacção psicológica ou ameaça de arma, factores que justificariam a radical imbecilidade das mesmas. Nesse caso, peço antecipadamente desculpa à sra. ministra por tudo o que se segue. Enquanto o país ardia, uma revista "cor-de-rosa" fotografou a sra. ministra a passear o glamour inato numa festa algarvia ou similar. Embora as proverbiais más línguas se apressassem a condenar a dra. Constança, é inegável que, divertida e calada, esse foi o melhor momento dela nesta história. Depois, a sra. ministra cedeu às pressões populares, regressou a Lisboa e desatou a dizer coisas. A primeira coisa que disse consistiu em lamentar a falta de solidariedade europeia no combate aos fogos. Trata-se de uma re...