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A arqueologia e os tesouros deprimentes da Caixa

PEDRO SOUSA CARVALHO Público 17/06/2016 A instrumentalização da CGD não é de hoje e não é uma comissão que vai dar ética a políticos que não a têm. Por iniciativa do PSD, o Parlamento vai criar, de forma voluntária ou potestativa, uma comissão de inquérito para analisar o que se passou na Caixa Geral de Depósitos (CGD). O primeiro-ministro, António Costa, no debate quinzenal, respondeu ao repto da direita com a seguinte frase: “Vocês dedicam-se à arqueologia e nós à construção do futuro.” Que é como quem diz: nós no Governo vamos governar e vocês na oposição entretêm-se a escarafunchar o passado. Comecemos pela arqueologia. A arqueologia, segundo o dicionário, é uma “disciplina científica que estuda as culturas e sociedades antigas através da análise dos seus vestígios materiais”. E que cultura antiga é essa que tinha a Caixa Geral de Depósitos nos tempos idos? Escavações recentes no número 63 da João XXI, em Lisboa, mostram que foram encontrados alguns artefactos curiosos e q...

Nem se entendem sobre o que se entendem

PEDRO SOUSA CARVALHO Público 09/06/2016 Diz-me com quem votas e dir-te-ei quem és. O PS votou ao lado do PCP e Bloco. Mas também do PSD/CDS A ideia de Ferro Rodrigues era boa. Numa altura em que Bruxelas se prepara para aplicar sanções a Portugal e a Espanha pela violação das regras orçamentais europeias, o presidente da Assembleia da República lançou aos deputados o repto de aprovarem, em plenário, uma mensagem unânime do Parlamento a condenar o eventual castigo de Bruxelas. Tendo em conta que os sete partidos com representação parlamentar concordam todos que as sanções são injustas, seria de esperar que a Bruxelas chegasse um texto único a condenar o castigo. Apesar dos bondosos esforços de Ferro Rodrigues para que se conseguisse algum tipo de consenso, vão chegar aos serviços da Comissão Europeia não um mas dois textos a condenar as sanções a Portugal, o que retira toda a eficácia à iniciativa. Se o objectivo era mostrar a união do país à volta de um objectivo comum, a mensag...

O animal spirits e a vaca voadora

PEDRO SOUSA CARVALHO Público 02/06/2016 Uma economia que dependa excessivamente da dinâmica do consumo privado está condenada a definhar. Quando chegou, António Costa prometeu um tempo novo. “Um tempo novo que traga crescimento e prosperidade, um tempo novo para as famílias e um tempo novo também para as empresas.” Esta semana começaram a chegar as primeiras estatísticas do INE sobre o “tempo novo” e não é que esse “tempo novo” é muito parecido com o tempo antigo? As estatísticas do INE mostram a economia a desacelerar nos primeiros três meses do ano, com o PIB a crescer 0,9%, o que constitui um abrandamento face aos 1,3% registados no quarto trimestre de 2015. O que explica esta travagem? Portugal está a perder investimento a um ritmo expressivo. Este indicador, que no quarto trimestre de 2015 tinha registado uma variação homóloga de 4,4%, apresentou agora uma queda de 0,6%. Nos últimos 30 meses, o investimento aumentou sempre. Sem investimento não há economia que aguente. ...

Isto é um governo ou uma agência de emprego?

PEDRO SOUSA CARVALHO Público 27/05/2016 Não é a administração pública. É a decadência pública. PSD, CDS e PS transformaram a Cresap numa agência de emprego Isto já começa a ser embaraçoso. Espantoso. Para não dizer vergonhoso. Quem tem razão é Manuela Ferreira Leite: “A Cresap é uma fantochada.” Dia sim, dia não, o Governo anuncia a anulação de um concurso público feito pelo anterior Governo para cargos de chefia na administração pública. No dia "sim" manda embora um dirigente que lá foi posto pelo Governo anterior, e no dia "não" mete lá um boy do PS. Manuela Ferreira Leite tem razão: "A Cresap é uma fantochada.” E os dirigentes públicos, que nem fantoches, entram nos organismos e nas repartições públicas com um cartão de militante numa mão e saem quando muda o Governo com as duas a abanarem. Esta terça-feira foi dia "sim". Vieira da Silva correu com a direcção do Instituto de Segurança Social (ISS) que estava a ser assegurada por Ana Clar...

Uma conversa da treta

PEDRO SOUSA CARVALHO Público 29/04/2016 Teodora Cardoso foi acusada por alguns deputados de fazer análises com base em preconceitos ideológicos. No debate político em Portugal ganhámos o mau hábito de achar que quem defende contas públicas equilibradas é de direita. Que quem defende que o Estado deve ter um défice controlado é um liberal e que quem acha que a despesa do Estado deve ser igual à receita é um perigoso neoliberal. E se alguém se atrever a sugerir que o país até deveria era ter um superavit orçamental para poder abater a dívida pública é imediatamente conotado como sendo quase fascista. Fazer contas passou a ser uma quase actividade subversiva. Dizer que devemos viver dentro das nossas possibilidades passou a ser uma afirmação que não lesa, mas que incomoda de sobremaneira a pátria. Ainda alguns se lembram de João Galamba, no debate do Orçamento do Estado para 2013, acusar Vítor Gaspar de ter uma linguagem salazarenta e de Honório Novo do PCP defender que as idei...

Um PEC que não afronta Bruxelas e amarra o Bloco

PEDRO SOUSA CARVALHO Público 21/04/2016 O Programa de Estabilidade representa um reencontro (mais um) do Governo de Costa com a realidade Uma comunicação que ficou para a história. Estávamos a 3 de Maio de 2011, e o PEC IV já tinha sido chumbado no Parlamento. José Sócrates estava demissionário e faz uma comunicação ao país para anunciar as medidas do memorando de entendimento que tinham acabado de ser negociadas com a troika. Como já decorria o período de pré-campanha, Sócrates fez toda uma comunicação sui generis em que, ao invés de anunciar as medidas negociadas com a troika, anunciou as medidas que não foram negociadas. Ao lado de Teixeira dos Santos, Sócrates garantia: não haverá cortes nos salários da função pública, nem no salário mínimo, nem despedimentos na função pública ou por justa causa. A privatização da Caixa não vai avançar, o SNS não deixará de ser público e a idade da reforma não vai subir. No final do discurso ficámos sem saber, afinal, o que tinha o memoran...

Um Orçamento amigo dos cães e dos gatos

PEDRO SOUSA CARVALHO Público 18/03/2016 O PSD teve uma atitude birrenta e inútil na discussão do Orçamento. Pura intriga orçamental. O Orçamento do Estado para 2016 foi finalmente aprovado com os votos de uma aliança inédita à esquerda – genialmente apelidada por Vasco Pulido Valente de "geringonça" – e que entra em vigor a 1 de Abril, dia das mentiras. Parece mentira, diz a esquerda. É mentira, diz a direita. O PSD partiu para este Orçamento do Estado com uma atitude birrenta e bastante inútil para os 1.979.132 de portugueses que votaram na coligação Portugal à Frente (Paf). Em vez do “Portugal” à frente, os sociais-democratas resolveram colocar o “partido” à frente de Portugal. A sigla é a mesma. Passos Coelho amuou por não ter conseguido formar governo e teve razões para amuar. Mas já passaram mais de cinco meses desde as eleições, o país seguiu em frente e o PSD continua a andar em contramão, rumo ao passado. Carlos César, que no debate do Orçamento resolve...

Um avental e uma esfregona

PEDRO SOUSA CARVALHO Público 04/03/2016 António Lamas, do Centro Cultural de Belém (CCB), é a mais recente vítima da geringonça, que por onde passa vai fazendo tábua rasa de tudo o que foi feito pelo anterior Governo. Para quem está fora da história, António Lamas geria uma empresa pública chamada Parques de Sintra – Monte da Lua, que fazia uma gestão integrada de vários museus, monumentos e jardins na zona de Sintra. O facto de gerir em simultâneo vários equipamentos culturais permitia obter sinergias a nível dos custos (limpeza, pessoal, segurança, manutenção, etc.) e de receitas (sistema de bilhética comum, venda cruzada de bilhetes com descontos, etc.). É um modelo que resultou, foi premiado internacionalmente, deixou de pesar no Orçamento do Estado e o objectivo da contratação de António Lamas pelo anterior Governo era precisamente o de tentar replicar esse plano para a zona de Ajuda-Belém. Mas o novo Governo achou que não e João Soares correu com António Lamas por consid...

Chegou a conta do banquete socialista

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PEDRO SOUSA CARVALHO   Público 14/01/2016 - 17:23 O IGCP veio esta semana colocar uma etiqueta de preços na política de António Costa: são 11 mil milhões de euros. O Governo encontrou uma nova fórmula de fazer política. É a chamada "Fórmula 1". A rapidez dos socialistas em desfazer tudo o que foi feito nos últimos quatro anos pelo anterior Governo e pela  troika  desafia todos os limites de velocidade recomendados para uma governação tranquila e responsável. António Costa estará a levar demasiado à letra e demasiado à pressa a expressão "conduzir os destinos do país". À segunda o Governo desfaz, à terça anula, à quarta refaz, à quinta revoga, à sexta repõe. Ao sábado e ao domingo descansa para ter forças para na semana seguinte voltar a desmanchar, cancelar, abolir, alterar, devolver, destruir e, claro está, suprimir. Esta semana, enquanto ainda tentava perceber como é que o Governo vai descalçar a bota por ter rasgado os contratos de concessão do...

A técnica do Botox aplicada à ciência económica

PEDRO SOUSA CARVALHO Público 27/11/2015  O que se sente quando se junta o Botox e o Viagra? Uma imensa alegria. Alegria, porque se paga menos impostos. A gigante norte-americana Pfizer, que comercializa o famoso medicamento para a disfunção eréctil, anunciou esta semana que se vai juntar à irlandesa Allergan, fabricante do conhecido tratamento anti-rugas Botox, numa megaoperação contabilizada em 160 mil milhões de dólares. É a terceira maior operação de aquisição da história e a maior de sempre na indústria farmacêutica. A Pfizer, fundada em Brooklyn, em 1849, não escondeu a motivação para comprar a empresa com sede em Dublin: vai reduzir a sua factura fiscal em 21 mil milhões de dólares, já que nos EUA a empresa pagava uma taxa efectiva de imposto de 26,5% e depois de mudar a sede para Dublin irá reduzir esse valor para 17% a 18%. Isto, porque os lucros repatriados para a Irlanda serão taxados a 12,5%. Os democratas Hilary Clinton e Bernie Sanders acusaram a Pfizer de usa...

O admirável mundo das greves no metro

PEDRO SOUSA CARVALHO  Público  27/02/2015 - 06:40 A frequência com que os trabalhadores do sector dos transportes públicos fazem greves tem qualquer coisa de extraordinário. Basta uma breve visita à página de Internet da Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações (Fectrans) para chegarmos ao admirável mundo das greves. Por exemplo, na agenda desta semana da Fectrans, de segunda a sexta, em todos os dias estão marcadas greves na CP e na Carris ao trabalho extraordinário. Na terça-feira houve ainda a greve no metro de Lisboa e ontem estava agendada uma concentração de activistas do sector ferroviário e uma manifestação nacional de ferroviários. Para hoje estava prevista uma outra greve no metro de Lisboa que entretanto foi desmarcada. Só que, no mesmo dia em que o sindicato do Metropolitano desmarca a greve, agenda mais duas para 16 e 18 de Março. Convém sempre começar pela sacrossanta frase do "não está aqui em causa o direito à greve". Mas a verdade é que n...