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A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: José Luís Ramos Pinheiro

Depois do Brexit evitar o Exit

José Luís Ramos Pinheiro RR online24 jun, 2016 Sabendo que a História está cheia de acontecimentos impensáveis, a negociação de saída dos britânicos, complexa e dura para ambos os lados, funcionará como um teste decisivo à qualidade das lideranças europeias e à maturidade dos valores europeus.  Os conflitos políticos e económicos no continente europeu foram demasiadas vezes acompanhados de uma expressão militar, isto é, de guerra. Foi assim em muitos séculos. E foi assim, por duas vezes, no século XX - a desestabilização europeia provocou as duas primeiras guerras mundiais. Projectado por grandes personalidades de diferentes países, o sonho europeu no pós-guerra foi um grito a favor da paz e do desenvolvimento dos povos europeus, duramente fustigados no século XX por destruições em larga escala. Pilar essencial na derrota do nazismo, a Grã-Bretanha nem sempre esteve na linha da frente da construção do projecto europeu, tendo apenas aderido à comunidade económica europei...

Razões para a maior decisão política da campanha

José Luís Ramos Pinheiro RR online 21 Jan, 2016 Marcelo percebeu que o país estava cansado dos políticos e não quis aumentar a fadiga discursiva, nem ser vítima dela. Não fazer política foi a maior decisão política da campanha eleitoral e pertenceu a Marcelo Rebelo de Sousa, também ele o mais político de todos os candidatos. A opção de Marcelo tem sido explicada, dizendo-se que ao contrário dos outros, este candidato não precisa de grandes tiradas políticas para ganhar eleições. É verdade. Marcelo é suficientemente conhecido. Durante anos escrutinou e foi escrutinado: a vida do país e do mundo foi objecto de análises e pronunciamentos do “Professor”; análises e pronunciamentos que o país conheceu e sobre os quais também discorreu. Não precisa de prometer o que não pode garantir. Mas a intuição de que portugueses estão saturados dos debates do costume deverá ter pesado na decisão de Marcelo, optando por uma campanha eminentemente afectiva. A crise dos últimos anos e a baralha...

Presidenciais ou ajuste de contas sobre o Governo?

José Luís Ramos Pinheiro RR 15 Jan, 2016 A omnipresença das legislativas nas presidenciais ajuda a esconder o sentido da função presidencial. E esse desconhecimento, alimentado pela prática de dirigentes ou mesmo de candidatos, também contribui para alguma frustração com a actuação dos Presidentes. Em (quase) 42 anos de democracia, as eleições presidenciais acabam invariavelmente por ser vistas como continuação ou desforra das legislativas: um prolongamento do jogo anterior, sobretudo quando se inicia um ciclo presidencial, o que é o caso, em 2016. A omnipresença das legislativas nas presidenciais ajuda a esconder o sentido da função presidencial. E esse desconhecimento, alimentado pela prática de dirigentes ou mesmo de candidatos, também contribui para alguma frustração com a actuação dos Presidentes. O poder presidencial deve ajudar a ligar o país e a gerar consensos entre decisores políticos. Mas para que essa magistratura obtenha resultados é indispensável que o Presid...

A maior desilusão do debate

José Luís Ramos Pinheiro RR 10 Nov, 2015 Para Mário Centeno não foi, de facto, uma boa estreia. Mas é costume dizer-se que um mau ensaio geral é sinal de bom espectáculo. Bem precisávamos que assim fosse. Neste debate do programa do Governo, não era de esperar grandes novidades. Estando garantida a disciplina partidária na bancada do PS, já todos sabíamos ao que iam os diferentes protagonistas. Concretizou-se a ameaça: derrotado nas urnas, o PS cozinhou com Bloco de Esquerda e PCP e – não esquecer – com o nunca sufragado PEV uma solução de serviços mínimos. Por mais que se arreliem com a verdade, os próprios sabem que continuam a ser uma coligação negativa: serve para derrotar no Parlamento quem ganhou nas urnas, mas não garante estabilidade nem futuro. Neste quadro, aguardei com especial atenção e interesse, uma intervenção: a de Mário Centeno, de quem se diz ser o próximo ministro das Finanças, se António Costa vier a formar Governo. Não conheço Mário Centeno. Opiniões...

Primeiro-ministro fraco? Ou forte líder da oposição?

José Luís Ramos Pinheiro RR 09 Nov, 2015 Ao dar o passo que Soares, Sampaio, Guterres e Sócrates nunca deram (o que pensarão estes antecessores?...), o secretário-geral do PS sabe que nenhum dos seus novos aliados pretende o reforço eleitoral dos socialistas, mas antes o seu enfraquecimento. Os factos mais recentes confirmam que António Costa escolheu ser um primeiro-ministro fraco, em vez de um líder da oposição forte. No Governo, estará sempre dependente da vontade ou dos caprichos de dois partidos com os quais, no passado, o PS nunca se entendeu. Na oposição um combativo António Costa depende de si próprio, para fazer passar, à direita ou à esquerda, aquilo que mais lhe convier, em função de uma visão própria do país. Especializados, desde há muito, em danças de salão (parlamentar), Catarina e o seu Bloco continuarão a querer mandar na agenda da esquerda. Havendo governo PS, alguém duvida que as forças (marxistas-leninistas e trotskistas) do Bloco terão nas decisões e...

O Presidente, a esquerda e um Governo de gestão

José Luís Ramos Pinheiro, RR online 26 Out, 2015 O Presidente fez bem em indigitar Passos Coelho. Mas, se o Parlamento derrubar o Governo da coligação, o Presidente faria mal em insistir num governo de gestão politicamente mutilado. Ao longo da história, raros foram os momentos em que Cavaco Silva teve os favores dos analistas. Como líder do PSD, primeiro-ministro ou Presidente da República, Cavaco Silva perdeu quase sempre no tabuleiro dos comentadores e venceu quase sempre no terreno dos eleitores. Ganhar nas urnas não equivale a ter sempre razão. E Cavaco Silva, nas suas diversas funções, teve opções discutíveis e decisões erradas. Mas ninguém pode negar que no seu tempo e a seu modo procurou servir o país e as pessoas. A marca do serviço é mais importante do que qualquer ideologia. Aliás, nenhuma ideologia pode reivindicar o monopólio do serviço ao bem comum. E o sucesso de uma ideologia ou de um partido não coincidem necessariamente com o sucesso do país; e este é que...

Encruzilhada à esquerda

José Luís Ramos Pinheiro RR online 21 Out, 2015 Costa está hoje muito mais condicionado e dependente de terceiros do que na noite eleitoral. De facto, as aparências iludem. Para um deputado socialista que não morra de amores pela aliança com PC e Bloco, o que é mais fácil: viabilizar um governo da coligação vencedora das eleições ou votar contra um Governo chefiado pelo seu secretário-geral? A resposta a esta questão deve estar no espírito de António Costa quando pede ao Presidente da República que não perca tempo a indigitar Passos Coelho. Se António Costa for desde já indigitado primeiro-ministro, torna-se mais difícil aos deputados socialistas renitentes votarem contra um Governo, apesar de tudo chefiado pelo líder do seu próprio partido. Mas se couber a Passos Coelho a formação do Governo, os mesmos deputados socialistas que entendem politicamente errada a aliança com Bloco e PCP terão a vida mais facilitada: se porventura se abstivessem, estariam apenas a viabilizar...

A arte de desconversar em tempo de eleições

José Luís Ramos Pinheiro RR online 16 Set, 2015 O “manual de desconversar” em tempo de eleições é bem capaz de ser o método mais eficaz para privilegiar a emoção, fulanizar a discussão e, sobretudo, evitar a todo o custo discutir qualquer coisa de essencial para o futuro. A propaganda faz parte da actividade política. Ainda que melhor propaganda não signifique melhor política nem melhores políticos. De resto, os diferentes sistemas políticos ditatoriais que a Europa conheceu no século XX coincidiram todos num ponto: doses maciças de lamentável propaganda. Nas democracias, a propaganda tem vindo a sofisticar-se, o que é compreensível e legítimo, já que o modo de fazer chegar o esclarecimento aos eleitores está sempre a evoluir. Mas reduzir a política à propaganda é sinal de desespero, porque nesse caso o verbo esclarecer fica na gaveta, prisioneiro das conveniências eleitorais. Apenas cinco exemplos, domésticos e recentes. A gestão político-financeira de José Sócrates condu...

Quando muitos eleitores derrotam alguns analistas e jornalistas

José Luís Ramos Pinheiro RR online 25-05-2015 21:16 As eleições inglesas e espanholas deixaram à vista um certo jornalismo de “wishful thinking”, em que os desejos de uns quantos procuraram sobrepor-se à realidade. Mas ela, a realidade, trocou-lhes as voltas. Depois do que se passou no Reino Unido, também em Espanha as sondagens não conseguiram retratar com segurança as opções dos eleitores, nas eleições municipais e autonómicas. Apesar da austeridade e dos casos de corrupção, o PP, perdendo muitos votos, mantém-se como força política mais votada, seguido de perto pelos socialistas. O Podemos - estrela maior do debate político espanhol dos últimos meses - ainda que tendo concorrido sob várias denominações ficou aquém do sucesso, celebrado antes de tempo por sondagens e analistas. Sabendo-se que são dois casos muito diferentes, quer no Reino Unido quer em Espanha não se pode concluir que a austeridade não fez estragos; nem se diga que os eleitores estão cegos perante as vis...

A Cultura da Crise

José Luís Ramos Pinheiro RR on-line 16-04-2014 18:36 Na economia, como na vida pessoal, a cegueira com o presente paga-se mais tarde, inevitavelmente com juros tão desnecessários quanto insuportáveis. Está a chegar ao fim o período da "troika" em Portugal. Indesejável, porque externa, a intervenção tornou-se indispensável. A irresponsabilidade dos gastos do Estado, no quadro de um sistema financeiro internacional deslumbrado com o lucro, não permitiu melhor saída. Três anos passados, a economia dá sinais de recuperação e as finanças públicas aparentam melhor saúde. Trata-se de um sucesso assinalável. Sem ele o presente seria mais negro e o futuro próximo mais penoso. Mas ainda que a intervenção da "troika" tenha sido a menos má das alternativas, é impossível fechar os olhos à realidade. Há muitas famílias carenciadas, desemprego de longa duração, jovens precocemente desencantados e muitos pensionistas financeiramente derrotados. A solidariedade cresc...

No jornalismo não vale tudo

RR 08-01-2014 14:21 José Luís Ramos Pinheiro Mário Soares goza de uma generosa tolerância a que muito poucos podem aspirar. Se os comentários que teceu sobre Eusébio viessem da boca de outros dirigentes, teriam caído o Carmo e a Trindade. Mas respeitar Mário Soares implica estender-lhe o microfone por tudo e por nada? As declarações de Mário Soares a propósito da morte de Eusébio têm sido vivamente discutidas, sobretudo nas redes sociais; declarações penosas, para mais, no momento e no contexto em que foram proferidas. Não duvido que, se tais comentários viessem da boca de outros dirigentes, teriam caído o Carmo e a Trindade; e de imediato se falaria em ofensas insuportáveis à memória de Eusébio. Mas sendo o último e mais carismático líder da geração política pós-25 de Abril, Mário Soares goza de uma generosa tolerância a que muito poucos podem aspirar. A mesma tolerância que permite quase silenciar as incómodas declarações sobre Eusébio, autoriza depois todos os pretextos pa...