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Manter em segredo que se vai morrer

Blasfémias 11 JANEIRO, 2016 by   vitorcunha Uma observação sobre as notícias do falecimento de David Bowie: muitos órgãos de informação não conseguiram deixar de referir que o músico padeceu de doença que  manteve em segredo , como se fosse devida ao público qualquer explicação sobre o estado de saúde de alguém pelo simples facto de a pessoa ter uma faceta pública reconhecível. Outros, ainda, referiram que o artista terá  optado por omitir  a informação, exacerbando a noção de que haveria uma hipótese mais confortável, a da partilha do seu estado de saúde. É nesta altura, quando se assume que o foro privado e o foro público são indistinguíveis para uma sociedade expectante de uma partilha permanente de estados de alma, que compreendemos que o excesso de informação é, em si mesmo, um grande factor desumanizante do nosso tempo.

As saudades

  vitorcunha | Blasfémias | 3 SETEMBRO, 2014 A língua portuguesa tem a honra duvidosa de, alegadamente, ser a única com uma palavra capaz de expressar o sentimento de "saudade". Mesmo correndo o risco de qualquer linguista me contradizer, parece-me que a questão está mal abordada. O problema é que "saudade" não é verdadeiramente um sentimento, nem em Portugal, nem em lado algum. Várias línguas expressam melancolia (essa sim, é um sentimento) através de um verbo ( I miss my dad ), o que implica tratar-se de uma acção ou, em alternativa, de uma mudança de estado, uma alteração em relação ao estado normal. Em Portugal optamos pelo substantivo, algo que nos permite a inacção através do verbo "sentir". Uma pessoa sente saudades, como sente frio, como sente fome. Além da tendência para o melodramático, atribuir a um verbo que implica uma acção o distinto prazer da subjectividade de um substantivo próprio, ainda por cima (alegadamente) não passível de tra...