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A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: Vasco Graça Moura

Mais e menos

No amor, regras que contem, Há uma só que não é vã: Amar hoje mais do que ontem Mas bem menos que amanhã E eu num fado que isso guarde Também acrescentaria Amo-te mais cada tarde Do que amei nascendo o dia E cada vez muito mais Do que antes, mas tais requintes São muito menos, ver vais Do que nos dias seguintes Com resultados tão plenos Como somar dois e dois: Muito mais e muito menos Conforme "antes" e "depois" No amor, regras que contem Há uma só que não é vã: Amar hoje mais do que ontem Mas bem menos que amanhã Vasco G. Moura

quando eu morrer segura a minha mão

  quando eu morrer segura a minha mão Vasco Graça Moura Soneto do amor e da morte Vasco Graça Moura Em memória do Vasco Graça Moura recordo este texto que é talvez o melhor que dele o Povo publicou.

Soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção   que escrevo para ti. quando eu morrer  fica junto de mim, não queiras ver  as aves pardas do anoitecer  a revoar na minha solidão.  quando eu morrer segura a minha mão,  põe os olhos nos meus se puder ser,  se inda neles a luz esmorecer,  e diz do nosso amor como se não  tivesse de acabar, sempre a doer,  sempre a doer de tanta perfeição  que ao deixar de bater-me o coração  fique por nós o teu inda a bater,  quando eu morrer segura a minha mão.  Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

Vieira queimado em..."esfinge"

Vasco Graça Moura Público, 03/04/2013 O padre António Vieira nunca foi "imperador da língua portuguesa". Essa é apenas uma das muitas mistificações engendradas por Fernando Pessoa, que nem sequer percebeu que a língua não é um império mas sim a principal base identitária de uma comunidade humana. De resto, se fosse realmente reconhecido como "imperador" e o seu império fosse deste mundo, a sua obra não poderia deixar de ser estudada, e muito a sério, nas nossas escolas... Vieira foi, sim, um dos maiores escritores de todos os tempos da nossa língua, num quadro barroco em que soube fazê-la extravasar dos cânones e dos códigos parenéticos, teológicos, humanitários, oratórios, retóricos, argumentativos, políticos, diplomáticos, epistolográficos, proféticos, sociais e tantos outros em que a utilizava, assim como foi um mestre na maneira e no virtuosismo com que tão destramente se servia dela (e a servia) para a interpretação literal, analógica, tropológica e ana...

Urgentemente

VASCO GRAÇA MOURA DN 2013-01-09 Há uma semana, escrevi nesta coluna sobre o adiamento de aplicação do Acordo Ortográfico no Brasil, por decisão da presidente Dilma Rousseff, que atendeu uma série de protestos e manifestações pedindo a suspensão e revisão do documento. As implicações da situação assim criada, no plano internacional, são por demais evidentes. Escusamos de pensar que as Repúblicas Populares de Angola e Moçambique vão ratificar o AO nos próximos tempos, uma vez que não o fizeram quando não se esperava esta reviravolta da posição brasileira e é perfeitamente claro que nada farão enquanto não souberem em que param as modas. Esses países vão, e muito bem, manter o statu quo e a norma ortográfica vigente que, repito mais uma vez, não é, nem pode ser, a do Acordo Ortográfico. Sendo assim, e se Portugal nada fizer, o comando das operações ficará nas mãos do Brasil, que nunca mais aplicará o AO na sua forma actual. Note-se bem: nunca mais! Não digo isto com pruridos p...

Protecção de quem?

DN 2012-11-28 VASCO GRAÇA MOURA Toda a gente viu, nos serviços noticiosos de televisão, a horda ululante e desvairada que ao fim da tarde de 14 de Novembro atacou as forças da polícia em frente a São Bento. A arruaça promovida por essa associação de malfeitores ao longo de mais de uma hora, insultando e agredindo as forças da ordem, praticando danos avultados em bens públicos, causando um tumulto inaceitável e agindo com violência incendiária e criminosa só impunha um tipo de actuação por parte da polícia: varrer aquela canalha selvática desde a primeira agressão e sem quaisquer contemplações. A PSP optou por esperar pacientemente, talvez tempo demais, sujeitando-se a toda a espécie de vexames até lhe ser mandado que impusesse o respeito da ordem pública. E então agiu e agiu bem, embora pudesse ter agido muito melhor se tivesse ali por perto um carro da água para limpar à mangueirada, depressa e eficazmente, a escadaria do Parlamento e adjacências. Em qualquer país civilizado,...

'How do you undo?'

DN 2012-08-01 VASCO GRAÇA MOURA O Governo anterior resolveu macaquear a Espanha e mandar fazer um estudo sobre o valor económico da língua portuguesa. Os espanhóis tinham concluído que a sua língua valia 17% do PIB e o estudo português, segundo recordo, não terá chegado a uma conclusão muito distante dessa percentagem. Mas também podia ter chegado a 3%, ou a 45%, ou a outro número qualquer. Não levava a lado nenhum. Não servia para nada. O valor de uma língua não se pode medir assim e muito menos quantificar. Avalia-se por uma série de parâmetros mais ou menos flutuantes e que por vezes se alteram rapidamente (veja-se o que aconteceu nas últimas décadas com a perda de importância do francês à escala mundial). A avaliação não pode deixar de ser impressionista e deve ter em conta, entre outros aspectos, a dimensão do universo dos que falam essa língua, a importância que ela tem na produção cultural, literária, artística e científica, a frequência da sua utilização internacional,...

A questão dos feriados

DN 20120425 VASCO GRAÇA MOURA Os feriados religiosos, ligados a evocações e cerimoniais do calendário litúrgico, têm na sua origem a destinação de certos dias para celebrações religiosas de sinal específico e para a interiorização das orações correspondentes, no caminho da salvação da alma. O feriado teria sido inicialmente destinado a permitir a participação numa determinada festa da Igreja e a concentrar mais intensamente a devoção do cristão num dia em que ele não teria mais nada que fazer a não ser isso. Não seria propriamente um dia de descanso, mas de devoção, que era vista como obrigação, sendo proporcionado assim um tempo interior para a vida religiosa. Por sua vez, os feriados laicos ou civis, ligados por via de regra a datas históricas e à correspondente celebração, pretendem-se dotados de uma fortíssima carga simbólica, capaz de unir os cidadãos em torno de certos acontecimentos fundamentais pelo sentido patriótico de que se revestem. Parece no entanto que, tanto no ...

Vivam os exames!

DN 2012-04-18 VASCO GRAÇA MOURA Um país que de há muito está "chumbado" em múltiplos aspectos, incluindo os atinentes à sua própria sobrevivência, se quiser mesmo sair desse catastrófico estado de coisas, não poderá deixar de aumentar a sua exigência em matéria de aproveitamento escolar. Isto é, não pode deixar de encarar os exames e o rigor que lhes seja conexo como factores cada vez mais sérios do sistema e como condições indispensáveis da construção de um futuro decente. O "eduquês" de serviço ao longo de décadas e de vários espaços ideológicos deu cabo da escola em Portugal. E agregaram-se-lhe a concepção da criança como bom selvagem que devia ser deixada tanto quanto possível nesse estado natural de brutidão, a impreparação de muitos professores, as teorias pedagógicas abstrusas e coladas com cuspo na cabeça de muitos outros, as catadupas de faltas ao serviço com atestado médico, as conspirações corporativas, o laxismo das famílias, a evaporação de um ...

Questões do Estado de Direito

VASCO GRAÇA MOURA DN 22 Fevereiro 2012 O que é que haverá de comum entre personalidades tão diferentes como Pedro Santana Lopes, Jorge Bacelar Gouveia, José António Saraiva e Henrique Monteiro? Face aos jornais das últimas semanas, a resposta é muito simples: todos defendem o Acordo Ortográfico, todos discordam das posições que tenho sustentado, todos, pelos vistos, entraram em alerta vermelho com os textos publicados no Jornal de Angola, e todos evitam tomar posição sobre questões que são essenciais. A primeira dessas questões é a da entrada em vigor do AO. Toda a gente sabe que, não tendo sido ratificado pelas Repúblicas Populares de Angola e de Moçambique, ele não entrou em vigor. A ratificação é o acto pelo qual um estado adverte a comunidade internacional de que se considera obrigado nos termos do tratado que subscreveu juntamente com outros estados. No que a este caso interessa, o tratado entra em vigor na ordem jurídica internacional logo que ratificado por todos os esta...

Pietà'

VASCO GRAÇA MOURA DN 2012-02-15 A imagem da mulher que segura o filho morto nos braços tornou-se, a partir da Idade Média, uma importante referência plástica e emocional do Cristianismo. Da rude imaginária medieval, de origem alemã (os Vesperbilder), desde o século XIII, e da Pietà dita de Avignon , de meados do século XV - esta ainda com processos típicos dos primitivos na elaboração realista da representação -, até aos Renascentistas e Maneiristas, à estatuária religiosa do Barroco e a Van Gogh, a figuração da mater dolorosa tornou-se um símbolo do drama humano que representa a perda de um filho. Mas na série avulta, sem carga expressionista, a Pietà do Vaticano , de Miguel Ângelo (1499), em que são representadas a gravidade melancólica da mãe, alcandorada a um idealizado plano neoplatónico e metafísico, e a morte do filho, a finitude irremediável do corpo humano, numa articulação indissociável e deslumbrante entre esses dois planos. Na escultura do Buonarroti, a mãe de Jesus...

Fado e identidade

VASCO GRAÇA MOURA DN 30 Novembro 2011 O fado de Lisboa é um género híbrido e nem sequer muito antigo (Rui Vieira Nery situa as primeiras referências documentais que lhe são feitas no segundo terço do século XIX). Nasce no Brasil e, transplantado para Lisboa, começa por ser dança de bordel e canção de rameiras. Mas, vindo de além Atlântico, mantinha uma relação com as origens africanas da música dos escravos negros e hoje ainda se pode notar nele algum parentesco com a música brasileira, com a cabo-verdiana e com algum jazz. Não tanto porque o encontremos nos exemplos de época numa perspectiva arqueológica do exame de modinhas e lunduns, mas porque a inovação musical que nele se opera tem intuitivamente presente essa relação ou redescobre essas afinidades. Nas letras populares que, já aclimatado em Portugal, foram sendo cantadas no fado, era natural que se tivesse desenvolvido uma propensão para falar da saudade que, em literatura, anda entre nós com expressão lírica desde os can...

Prova de vida

A não perder este artigo de Vasco Graça Moura onde ele dá conta com “alguma dificuldade em exprimir estas coisas” do impacto do testemunho da vida de Maria José Nogueira Pinto. Onde se vê a diferença entre um discurso e um testemunho… Prova de vida DN 2011-07-13 VASCO GRAÇA MOURA "Terminal", dizia-me alguém há cerca de dois meses, "- Ela está em estado terminal". Vi-a chegar com o marido a esse almoço de amigos, em que participou discreta e aparentemente bem disposta, na sóbria gravidade da sua postura algo emaciada, conversando sem aludir à doença, nem à inquietação ou ao sofrimento por que passava. Era assim que aliava estoicismo e bom gosto. Tinha uma maneira directa e inteligente de abordar as questões, encarando as coisas de frente, dizendo o que pensava, apresentando os seus argumentos com total clareza. Era uma mulher sem ambiguidades nem falhas de coragem e todos os que a leram regularmente nesta página podem testemunhá-lo. A sua vida familiar, a sua carre...

O rescaldo

DN20110202 Vasco Graça Moura Em 23 de Janeiro, com a reeleição do Presidente da República extinguiram-se não apenas a maioria que o elegeu mas também, e sobretudo, as minorias que se polarizaram nos candidatos derrotados. Descontado o eventual interesse dos elementos de análise que fornecem, os valores percentuais respectivos não servem rigorosamente para nada, nem dão qualquer autoridade ou força política aos vencidos. Por sua vez, a autoridade de Aníbal Cavaco Silva não sai beliscada, nem de perto nem de longe. Mas ainda há, aqui e ali, uns trejeitos ranhosos de gente que não desarma e, como não pode contestar a legitimidade da sua eleição, continua a regougar, a ratar, a roer, talvez a regurgitar e a remoer de novo, a propósito da figura e da força do Presidente, o qual, a despeito de vencedor, teria saído ingloriamente enfraquecido da eleição. Cavaco Silva não apenas ganhou com uma confortável maioria, como ganhou em todos os distritos, do Continente e das regiões autónomas, mas p...

Um monumento de ignomínia

VASCO GRAÇA MOURA , DN 2010-10-06 A Primeira República portuguesa foi um monumento de ignomínia. As comemorações em curso não podem escamotear esse facto e deveriam proporcionar aos portugueses uma visão altamente crítica desse período da nossa história. Historiadores como Vasco Pulido Valente e Rui Ramos já o têm feito e bem. Mas nunca será demais insistir. Tem sido frequentemente observado que, na monarquia constitucional, o liberalismo foi abrindo a porta a uma dimensão republicana. De facto assim foi. A partir da estabilização ocorrida em meados do século XIX, viveu-se em Portugal uma era "republicana" de tolerância e de fruição das liberdades que só havia de extinguir-se pela força em 1910. Isto, apesar de todos os problemas que o constitucionalismo português foi tendo, da fragilidade do Estado e das suas instituições a uma catadupa de situações escandalosas e insustentáveis, passando por políticas erráticas, incompetentes e contraditórias, crises políticas e soc...

O fim da picada

DN 20090610 Vasco Graça Moura Se as coisas se passaram assim, e eu gostaria de não ter de sair do plano da hipótese, então o caso é de extrema gravidade Não advogo há perto de 25 anos. Todavia, no ano 2000, por ocasião de uma discussão parlamentar, em Bruxelas, sobre o sigilo profissional no foro, tive ocasião de invocar a posição da Ordem dos Advogados que oportu- namente me tinha sido transmitida pelo então bastonário Dr. António Pires de Lima. O texto da minha intervenção encontra-se a págs. 98/99 do livro Anotações Europeias que publiquei na Bertrand em 2008. Cito-o apenas para referir que a posição da Ordem era, a tal respeito, extremamente clara e podia sintetizar-se nos cinco pontos seguintes: 1. O segredo profissional constitui pedra angular e pressuposto da profissão de advogado. 2. O advogado que seja arguido de autoria ou cumplicidade em prática criminosa é passível de perseguição como qualquer outro cidadão. 3. A nenhum advogado pode impor-se a declaração ou ...

NÃO QUEREMOS, PURA E SIMPLESMENTE

Diário de Notícias, 2008.10.01 Vasco Graça Moura Escritor A audição dos responsáveis pela petição "Em Defesa da Língua Portuguesa", de que sou o primeiro subscritor, teve lugar na Comissão de Ética, Sociedade e Cultura da Assembleia da República no dia 25 de Setembro, em sessão presidida pelo deputado-relator Feliciano Barreiras Duarte.Num texto que publicou no blogue oficial da petição ( http://emdefesadalinguaportuguesa.blogspot.com/ ), Maria Alzira Seixo dá conta do modo como aquela audição decorreu. E nunca será demais encarecer a demolição total do Acordo Ortográfico a que, tanto Jorge Morais Barbosa como António Emiliano, os dois reputados professores de Linguística que com ela e comigo se deslocaram a São Bento, procederam uma vez mais na sessão referida.Neste momento, o número de signatários da petição de todos os sectores ideológicos, políticos, profissionais e sociais já ultrapassa os 95 mil, o que, apesar do inevitável abrandamento de ritmo ocorrido em período de...