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Silêncio que se vai manifestar o facho

JOSÉ DIOGO QUINTELA      WWW.CMJORNAL.PT      21.10.2017 Pessoas na rua indignadas com segunda leva de mortos em incêndios mal combatidos pelo Estado? Tresanda a fascismo. Estas ‘Manifestações Silenciosas’ topam-se à légua. Já os estou a ver logo à tarde, naquela solidariedade para com os mortos, tão típica dos nazis, a limparem as lágrimas nas fraldas das camisas castanhas. Quem é que se move em silêncio? Os perigosos ninjas! À traição. Como a PIDE. Tão reaccionários, manifestam-se calados, para não serem interrompidos por uma democrática grandolada. É que as boas manifestações têm um propósito. Por exemplo, em 2012 houve a ‘Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas!’ Isso, sim, é um objectivo legítimo. Desta feita, a não ser que se acredite em zombies, é impossível recuperar quaisquer vidas. Para quê sair à rua? Uma coisa é uma manifestação que declara ‘A Merkel não manda aqui!’. Outra, é uma que questiona ‘O Costa não manda aqui?’ Mero bo...

Sumário: 1. Ditongos; 2. O Aborto

JOSÉ DIOGO QUINTELA   CM  19.12.16 Acho estupendo que se comece a leccionar o que é o aborto a crianças do 5º ano. Aliás, acho que se devia leccioná-lo a crianças ainda mais novas. Quanto mais novas, mais fresca a memória do que podia ter sido. O Ministério da Educação tem de adoptar o método que aplico cá em casa e que tão bons resultados tem granjeado. Ainda esta semana foi-me muito útil o facto de a minha filha de 5 anos ser doutoranda em aborto: - Filha, temos de falar sobre o Nenuco que pediste para o Natal. - O que foi? - O Nenuco foi abortado. - Ah! Foi espontâneo ou desmancho? - Desmancho. Na ecografia das 8 semanas descobriu-se que era feito de borracha. Tiveram de interromper a gestação. - E agora? O que é que eu recebo? Terá sobrado alguma coisa da raspagem? - Vou ver se é possível entregarem o que ficou do saco de plástico amniótico. - Ok. Eu percebo, papá. De certeza que foi uma escolha difícil. Com esta brincadeira já poupei 60 euros. Quem defende o ensino ...

Voluntariado de parto

José Diogo Quintela Correio da manhã 21.05.2016 01:45  É trabalho de parto, não é voluntariado de parto.  Imagine o leitor que o seu patrão o põe a trabalhar intensivamente durante 9 meses seguidos, sem descanso, numa tarefa desconfortável e enjoativa, proibindo-o de fumar, beber álcool e comer certos alimentos. Imagine que, em vez de lhe pagar mais por isso, não paga nada. Faz queixa ao Sr. Arménio Carlos, não é? Mas, se o trabalho for carregar um bebé na barriga, tem mesmo de ser à borla. O que é estranho, uma vez que é trabalho de parto, não voluntariado de parto. Só que, segundo a nova lei, não pode ser remunerado. Ou seja, se uma mulher der um bebé a outra, que, por sua vez, lhe oferece um presente, o que a lei condena é o brinde. Transacção de bebé, sim, desde que não envolva negócio. O dinheiro suja o negócio de bebés. Só pode ser por amor. A esquerda está radiante. Conseguiu conjugar uma causa fracturante com sanha anti-capitalista. (Por outro lado, está a rej...

Vacina de escola pública

José Diogo Quintela | Correio da manhã | 07.05.2016 A esquerda renegar subvenções estatais é como o Drácula anunciar que agora é vegan.  As escolas com contrato de associação têm dois problemas: o primeiro é que não vendem nada; o segundo é que não estão localizadas no centro de Lisboa. Se, em vez de escolas espalhadas pelo país, fossem lojas na Baixa, podiam ser consideradas históricas e serem mais facilmente subsidiadas. Tiveram azar. Azar por isso e por esta ser a altura que a esquerda escolheu para renegar subvenções estatais. Bizarro. É como o Drácula anunciar que agora é vegan. Mas o Governo tem razão. Se há duas escolas onde basta uma, não se devem duplicar custos. Só se justifica em casos muito específicos, em que a escola particular seja uma escola do tipo Lacerda Machado, que presta serviços de borla ao Estado. Haver duas escolas no mesmo sítio, uma pública, outra privada, cria desigualdades. Obviamente, os alunos da pública são beneficiados. É que, numa privada,...

Lojas históricas, fãs histéricas

José Diogo Quintela | Correio da manhã | 09.04.2016 01:45  Se estas lojas fecham, perde-se uma das maiores características portuguesas: a economia subsidiada pelo Estado.  Em Lisboa há três tipos de lojas: as recentes, as antigas e as com história. As recentes são recentes, as antigas são antigas e as com história são falidas. A diferença entre uma loja antiga e uma com história é que a loja antiga vende produtos a clientes; a loja com história, não. Uma é parte activa da economia da cidade, a outra é património imaterial. Literalmente: não tem material que atraia clientes. Mas aguenta-se porque é "histórica" no sentido em que, historicamente em Portugal, todos desejam viver a expensas do Estado, que vai manter as rendas baixas. Às custas dos proprietários. A loja com história não tem clientes, tem fãs. Que, como se lembram de ter lá ido em criança, decretam que deve permanecer aberta. Na Baixa é costume ouvir: "Ai, que loja tão apetitosa! Vinha cá com a minha a...

Eutanásia, já; Nóstanásia, um dia

José Diogo Quintela Correio da manhã 13.02.2016 00:30 Com estas taxas de juro, o Governo está a praticar uma espécie de suicídio assistido de Portugal.   Como era de esperar, já apareceram pessoas a protestar por se trazer à discussão o tema da eutanásia quando ainda se está a resolver o do Orçamento do Estado. Como se os portugueses não conseguissem tratar de dois assuntos ao mesmo tempo. Para que é que serve ter cada vez mais mulheres na política, se não lhes aproveitarmos a capacidade para o multitasking? Além disso, a eutanásia tem tudo a ver com a situação actual do país. Com estas taxas de juro, as reprimendas europeias e a próxima reavaliação da única agência de rating que ainda nos sustenta, o Governo está a praticar uma espécie de suicídio assistido de Portugal. É tempo de debatermos a eutanásia. Como diziam no manifesto de notáveis, há que permitir que as pessoas morram com dignidade. E eu concordo. Já chega de mortes sem dignidade. Não há pior do que assistir ...

O leitor tem opinião sobre o caso José Sócrates? Não tenha

José Diogo Quintela Público, 20151129 O leitor tem opinião sobre o caso José Sócrates? Não tenha. Isso configura um delito de julgamento na praça pública. A não ser que ache que José Sócrates está a ser vítima de justicialismo. Nesse caso, tem licença de porte de opinião. Para não haver dúvidas, aqui vai uma cartilha com o que é admissível pensar: a) Avaliar a hipótese de José Sócrates ser culpado? Não se pode. b) Levantar dúvidas sobre a idoneidade do juiz Carlos Alexandre? Pode-se. c) Questionar as reais motivações do procurador Rosário Teixeira? Pode-se. d) Sugerir que Joana Marques Vidal orquestrou este charivari? Pode-se. e) Desconfiar de um propósito tenebroso do sistema judicial? Pode-se. f) Suspeitar de manipulação obscura pela comunicação social? Pode-se. g) Insinuar que o Passos Coelho lucra com isto? Pode-se. h) Alvitrar que Portas é que devia ir preso por causa dos submarinos? Pode-se. i) Considerar que Cavaco Silva tem negócios ilícitos com os seus...

O Lenine no lugar certo

José Diogo Quintela Correio da manhã, 2015.10.31 Começou outra campanha que conta com a contribuição dos cidadãos para adquirir uma relíquia: um Governo marxista-leninista.  O Museu Nacional de Arte Antiga está a recorrer aos portugueses para comprar a ‘Adoração dos Magos’, pintura de Domingos Sequeira. Uma estupenda iniciativa que está, erradamente, a ser anunciada como a primeira do género em Portugal. É a segunda. Uns dias antes, começou outra campanha que conta com a contribuição dos cidadãos para adquirir uma relíquia: um Governo marxista-leninista. Cheira-me é que vai custar aos portugueses mais do que os 600 mil euros do quadro. Era inevitável. Depois dos relógios Casio, dos ténis All Star e da Abelha Maia, mais cedo ou mais tarde o revivalismo dos anos 80 havia de chegar aos regimes políticos, com o ressuscitar desta antiguidade soviética. Eu, que ainda ouço Duran Duran e guardei o ZX Spectrum, estou radiante com este regresso da extrema-esquerda a um Governo. Me...

PAN que o diabo amassou

José Diogo Quintela | Correio da manhã | 24.10.2015 O PAN vive em estado de graça.  Há duas estreias na nova legislatura: a de um deputado eleito pelo PAN e a da extrema-esquerda num governo constitucional. A AR tem agora um deputado que quer dar mais direitos aos animais, e um grupo de deputados que passam a ter poder para tirar direitos a animais como o porco capitalista, o leitão burguês e, basicamente, qualquer suíno que não viva do Estado. Um quer repensar o conceito de pessoa, para passar a incluir animais. Os outros já repensaram o conceito de animal, para incluir algumas pessoas. O PAN deseja que os animais integrem o agregado familiar e contem para o IRS. Aprovo. Neste momento há um trabalho escolar a decorrer cá em casa, que envolve 12 bichos-da-seda. O meu contabilista rejubila. (Por outro lado, como produzem fio de seda, o novo governo vai cobrar IRC). Mas o PAN não quer só dar direitos aos animais, para que se aproximem de nós. Também deseja tirar-nos direitos...

Oscillococcinum Cadabra

José Diogo Quintela, Público, 2015.01.25 Tenho a casa transformada em enfermaria. Neste momento, estão internados cinco Nenucos, três Barbies (tecnicamente, uma delas é Barbie-Sereia) e um Action Man. Padecem de gripe. A minha filha é muito atenciosa com os pacientes. Está a levar a sua função terapêutica muito a sério. A minha mulher está convencida de que a miúda vai ser médica. A mim, pela maneira como ela trata as bonecas, dá-me mais a sensação que ela vai ser homeopata. É que os remédios que ela receita são colheradas de ar e pingos de água aplicados a partir de um biberon de brincar. Como pai preocupado com o futuro, é óbvio que estou contente. A homeopatia não é tão prestigiante quanto a medicina, mas dá mais dinheiro. E o curso é mais fácil. Só é preciso aprender a medir porções, diluí-las e sacudi-las num recipiente. No fundo, é um curso de barman em que só se usa água. Aliás, qualquer pessoa que já teve preguiça de ir à despensa buscar uma embalagem de champô nova, pref...

O leitor tem opinião sobre o caso José Sócrates? Não tenha

José Diogo Quintela Público, 2014.11.30   O leitor tem opinião sobre o caso José Sócrates? Não tenha. Isso configura um delito de julgamento na praça pública. A não ser que ache que José Sócrates está a ser vítima de justicialismo. Nesse caso, tem licença de porte de opinião. Para não haver dúvidas, aqui vai uma cartilha com o que é admissível pensar: a) Avaliar a hipótese de José Sócrates ser culpado? Não se pode. b) Levantar dúvidas sobre a idoneidade do juiz Carlos Alexandre? Pode-se. c) Questionar as reais motivações do procurador Rosário Teixeira? Pode-se. d) Sugerir que Joana Marques Vidal orquestrou este  charivari ? Pode-se. e) Desconfiar de um propósito tenebroso do sistema judicial? Pode-se. f) Suspeitar de manipulação obscura pela comunicação social? Pode-se. g) Insinuar que o Passos Coelho lucra com isto? Pode-se. h) Alvitrar que Portas é que devia ir preso por causa dos submarinos? Pode-se. i) Considerar que Cavaco Silva tem negócios ilícitos...

Má sorte ter sido jihadista

JOSÉ DIOGO QUINTELA   Público 31/10/2014 - 05:41 Não foram só os terroristas portugueses com emprego a serem prejudicados pelas declarações de Rui Machete. Espero que apertem bem com Rui Machete na Comissão Parlamentar. Irresponsavelmente, pôs em causa a segurança de cidadãs portuguesas que combatem num exército cuja ambição última é tornar Portugal numa província do Califado. Enquanto estavam sossegadas na jihad , o máximo que lhes podia acontecer era terem uma morte estúpida. Agora que os chefes sabem que uma ou duas ponderam voltar, passam a correr o risco de ter uma morte estúpida. De repente, por uma machetice, encontram-se numa situação periclitante. Não se trata apenas de ter colocado em perigo as raparigas que se alistaram numa guerra. A inconfidência de Machete é um símbolo do desprezo deste Governo para com as condições de trabalho em que os jihadistas lusos espalham a morte na prossecução dos objectivos da organização terrorista onde são voluntários. Os...

Um mês sem eutanásia, meu menino!

José Diogo Quintela, Expresso, 2014-02-23 A Bélgica legalizou a eutanásia infantil. Vai ser possível a uma criança doente decidir que quer falecer. Julgo que a palavra de que o leitor está à procura é "inveja". Aposto que nenhum pai belga foi obrigado a ter este diálogo com a filha: — Vai para o banho. — Não quero! Odeio banho! Odeio-te! Passada meia hora: — Sai do banho. — Não quero! Adoro banho! Odeio-te! Na Bélgica isto não sucede. E não é só porque os belgas têm uma relação bissexta com a higiene. É também porque, aparentemente, a volubilidade infantil não é uma característica das crianças belgas. Pelos vistos, os belgas conseguem fazer com que uma criança tome decisões finais sobre assuntos de relativa importância. Tenho inveja dos pais belgas. Principalmente no Natal. Crianças que têm a capacidade de se decidirem pela eutanásia, de certeza que não fazem uma birra no chão do Toys'R'us por não conseguirem escolher um pre...