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A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: Luís Carvalho Rodrigues

À custa do nosso sangue

Luis Carvalho Rodrigues 24/9/2016, 22:12122 O mundo não se juntou para conspirar contra os homossexuais e os problemas de autoestima de grupos minoritários não podem ser resolvidos à custa da segurança colectiva em temas como a doação de sangue Há coisa de um ano, o presidente do Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST) foi mandado comparecer no parlamento para explicar às luminárias do BE as razões de um abuso inaudito: apesar da proibição de incluir nos questionários feitos aos dadores de sangue perguntas sobre o seu comportamento sexual, tais perguntas continuavam a ser feitas. O professor Hélder Trindade bem tentou explicar que há uma diferença entre “orientação” sexual e “comportamento” sexual, e que o “contacto sexual de homens com outros homens” (e não a orientação hetero ou homossexual) comporta um risco especialmente elevado para doenças como a SIDA: não se livrou da acusação de preconceituoso e homofóbico. Que as suas posições fossem suportadas por ...

A Festa

Luis Carvalho Rodrigues Observador 4/9/2016 Por trás do ethos da Festa do Avante! estão atitudes arcaicas e tendencialmente perigosas: sentimentos de pertença, o conforto de uma identidade comum e a vertigem do “espírito colectivo”. Fui pela primeira vez à “Festa” há uns bons trinta anos, ainda no Alto da Ajuda, levado por um amigo com tendências de esquerda. Guardo da excursão uma vaga memória dos intermináveis pavilhões dos “países socialistas”, onde se apresentavam as maravilhas da economia planificada e retratos folclóricos ao estilo do SNI. Na época, os “países socialistas” ainda eram muitos. Incluíam os do leste europeu, que deixaram de ser socialistas assim que puderam, e os PALOP, que ainda se não tinham rendido aos benefícios superiores da cleptocracia. Eu e o meu amigo fomos assistir a um concerto. Voltei à Festa uma segunda vez por causa de outro concerto, dez anos depois. Era então em Loures e choveu torrencialmente na noite em que lá fui. Recordo-me sobretudo de...

Eutanásia: compreendo mas sou contra

Luis Carvalho Rodrigues Observador 4/3/2016 A questão é que não serão, nem o doente nem aqueles que o amam, a decidir sobre o pedido e oportunidade da eutanásia. Serão funcionários, em gabinetes, às voltas com os seus formulários. Burocratas. A discussão pública sobre a eutanásia já resvalou para o folhetim, o que tem, pelo menos, a vantagem de manter o assunto nas páginas dos jornais e nos écrans das televisões. Não fosse isso, é bem possível que fôssemos confrontados, um destes dias, com uma decisão da Câmara discretamente publicada em DR entre a promoção de duas vilas a cidade e a proibição de as casas de banho públicas fazerem discriminação de género. Fico satisfeito que o assunto continue a ser discutida porque creio que poucas questões serão, hoje, mais importantes para a res publica. Devo esclarecer já que sou contra a despenalização. Não são os argumentos morais que me movem. Esses, confesso que os não entendo. Passam da defesa do “direito à vida” para a afirmação de...

S. José ou a irresponsabilidade

Luis Carvalho Rodrigues Observador, 20151227 Se o hospital não dispunha de recursos, se o doente não podia ser deslocado, talvez a equipa de outro hospital pudesse deslocar-se. Podia nada disso resultar mas, pelo menos, tinha-se tentado. Não sei mais sobre o caso das mortes em S. José do que aquilo que tem saído nos jornais. Mas, por incompleta que ainda seja a informação, há pontos que parecem já certos e que chegam para colocar algumas questões incómodas. Primo, esta terá sido a quinta morte nas mesmas circunstâncias desde 2014. Secundo, desde 2013 que o Ministério sabia o que se passava e, por maioria de razão, a ARS, o Conselho de Administração do centro hospitalar e, sobretudo, os directores dos serviços de Neurocirurgia e da Urgência. Sobre a ARS e os administradores hospitalares que agora se demitiram não quero alongar-me. A sua demissão, agora que a situação caiu na praça pública e não quando verificaram ser incapazes de a resolver, é uma demissão sem honra e sem d...

Eutanásia, suicídio assistido e compaixão

Luis Carvalho Rodrigues observador 27/1/2015, 12:01 Histórias como a de Mar Adentro são uma armadilha. Porquê? Porque definem situações-limite com as quais é impossível não simpatizar. Mas será lícito pensar estes temas a partir de situações-limite?  Nos últimos dias correu pelos  jornais  a notícia de um condenado a prisão perpétua por violação e assassínio que pediu a eutanásia por não suportar mais o "sofrimento psicológico". O pedido, primeiro aceite, foi depois recusado. É uma boa história porque permite falar da questão da eutanásia sem cairmos nos habituais casos-limite que apelam à empatia: casos como o de Ramón Sampedro (que deu o filme  Mar Adentro ), um pescador, tetraplégico há 20 anos, a quem o Estado e a sociedade não permitiam que morresse e a quem os amigos serviram cianeto, que ele bebeu voluntariamente por uma palhinha, ou o de  Vincent Humbert , um jovem bombeiro que ficou tetraplégico, cego e mudo num acidente e a quem f...