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A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: Paulo Baldaia

Irmãos e cuidadores

PAULO BALDAIA     DN     31.05.17 Num mundo perfeito, a humanidade funciona como uma família onde todos são irmãos. As religiões gostam, aliás, de tratar assim os que comungam da mesma fé. Agnóstico, amo religiosamente os irmãos que tenho. Tenho sorte por pertencer a uma família de nove filhos em que todos estão dispostos a ajudar cada um. Hoje é o Dia dos Irmãos. Como há o Dia do Pai e o Dia da Mãe, a Confederação Europeia das Famílias Numerosas aprovou, em 2014, a celebração deste dia. Primeiro em Portugal, depois no resto da Europa. Escrevo este texto a pedido de José Ribeiro e Castro, um dos promotores desta iniciativa. Faço-o com gosto, para homenagear uma irmã entre nove. Em famílias grandes, como a minha, há a fase de crescimento em que os mais velhos fazem de pai e de mãe, dando o exemplo. Há, depois, a fase de consolidação das vidas de cada um, em que solidariamente multiplicamos a felicidade do sucesso de alguém e dividimos tristezas pelos tropeç...

A culpa é do Benfica

PAULO BALDAIA    DN    17.05.17 A discussão sobre a paternidade da recuperação económica, com a direita a cobrar créditos pelas reformas estruturais que é suposto ter feito e a esquerda a fazer o mesmo pela viragem de 180 graus que é suposto ter operado, é um insulto aos portugueses que sofreram na pele a crise que vivemos e aos empresários que criam riqueza. Bem esteve ontem o Presidente da República, ao lembrar que quem faz o país andar para frente "são as empresas de Portugal. Esse é um dado adquirido, que não muda com presidentes, não muda com governos, não muda com orientações conjunturais". Marcelo foi mais longe e salientou que "devemos evitar perder tempo a descobrir quem teve mérito". Este puxar a brasa à sardinha de cada um dos partidos políticos faz lembrar a discussão futebolística que se viveu neste ano, de que eu como adepto muitas vezes fiz parte. Jogo que não se ganha tem dedo do adversário. A certa altura, para tudo o que acontece ...

A suprema hipocrisia das esquerdas

Paulo Baldaia | TSF | 26.abr.2016 Até quando poderão os partidos de esquerda enganar o seu eleitorado, dizendo que não têm nada a ver com aquilo que só eles são capazes de viabilizar? Andamos nisto quase desde o início. O Bloco e o PCP, à vez cada um ou os dois juntos, acham normal estar contra medidas estruturais do governo socialista, não os chumbar, mas fazerem de conta que não têm responsabilidade nenhuma. Depois de repetirem à exaustão que o orçamento do Estado que aprovaram não era o orçamento deles e de lhes apontarem inúmeras expectativas não cumpridas, agora é o Programa de Estabilidade que manifestamente não agrada ao Partido Comunista, mas que vai seguir em frente porque as esquerdas se recusam levá-lo a votação, como pretende o CDS. A ideia do CDS está a "roçar a chicana política", como diz o PCP? Pode ser que sim, mas em nada é diferente de outras ideias do género dos restantes partidos, noutras alturas. Alguém achará normal que Jerónimo de Sousa dig...

Para onde vai Passos e quem lhe faz sombra?

Paulo Baldaia DN 2016.04.03 Pedro Passos Coelho afinou a estratégia. Já não tem pressa de ir para eleições, já reconhece que a coligação das esquerdas está para durar, pelo menos para durar mais tempo do que estava previsto. Não tem pressa porque precisa que o tempo lhe dê razão, precisa que o modelo económico da nova coligação falhe com evidência. A melhor hipótese de Passos é o pior cenário para o governo do PS. Sem uma catástrofe, sem o risco de um novo resgate, mas com a acção dos mercados a obrigarem a Europa a exigir ao governo o que o PCP e o Bloco não possam dar. Passos aumentou o seu prazo de validade ao alargar o prazo de validade da coligação das Esquerdas. Anuncia-a mais consistente, ainda que com arestas por limar, responsabilizando igualmente PS, PCP e Bloco para poder reafirmar que o PSD não dará a mão a António Costa, quando lhe falhar o apoio de comunistas e bloquistas. Nem tudo mudou, Passos não se reinventa porque não quer, nem reinventa o PSD porque não pod...

Cavaco não foi tão mau

Paulo Baldaia DN 20160309 Num país de memórias curtas, a última imagem é muito poderosa. Cavaco Silva vai precisar que o tempo jogue a seu favor e que muitas das histórias que ainda estão mal contadas sejam contadas com todos os factos. Não julguemos nós, comentadores, que a realidade está errada, o Presidente que termina os seus mandatos com os mais baixos índices de popularidade é o político de maior sucesso na democracia portuguesa. A opinião publicada é muitas vezes bipolar. O que serve para apresentar como um ganho do país na utilização dos fundos comunitários, a construção das infra-estruturas ao melhor nível europeu, também serve para criticar Cavaco Silva, apelidado de construtor de auto-estradas. A agricultura, que tem hoje níveis de produtividade europeus e que deixou para trás a lógica de subsistência, também serve para acusar o ex-primeiro-ministro de a ter destruído. O mar, que é hoje uma paixão de Cavaco, também é apresentado como vítima do ex-chefe de governo, m...

A democracia não é de esquerda

Paulo Baldaia DN 2016.02.28 A maioria dos portugueses olha para o governo de Portugal como o governo de Portugal, não como o governo da esquerda ou da direita. Milhões de portugueses, seguramente a maioria, se contarmos com os que não votam, não é dos que nasceram para votar toda a vida PS, PSD ou outra coisa qualquer. Por isso, não aceitam o campeonato patrioteiro em que criticar um governo em início de funções é um crime de lesa-majestade. Já vivemos em democracia tempo suficiente para perceber que não há nada a ganhar quando se vive em uniões nacionais, em que a determinado momento deixamos os governos em paz, à espera de que eles mostrem o que valem, para depois estarmos juntos na crítica e exigir que cedam o lugar a outros, para voltarmos a ter a quem dar um estado de graça. Não há nada de antipatriótico, nem de antidemocrático em criticar quem está no poder e quem o apoia. Habituem-se. Dito isto, alguém pensa que uma estratégia em que se aprova aquilo com que não se conc...

Quem se lixa é sempre o mexilhão

Paulo Baldaia DN20160131  Quando estão no governo, as críticas são olhadas como o resultado de uma confusão entre alhos e bugalhos. Na oposição, são avisos à navegação, alertas para levar a sério. Não há paciência para o PSD e para o PS, sempre transvestidos e incapazes de fazer uma conversa séria sobre o que nos vão dizendo a Comissão Europeia, as agências de rating, a UTAO, o Conselho de Finanças Públicas... Também não há paciência para o Bloco de Esquerda, que espalha cartazes pelo país contra as soluções que foram encontradas para o Novo Banco e o Banif. Julgarão, por certo, que os seus eleitores nunca vão perceber que as medidas que eles contestam só existem porque eles apoiam o governo que as concretiza. Não há paciência igualmente para o PCP, que apoia o governo para ter ganhos na função pública e no sector empresarial do Estado, com destaque para os transportes, mas que a cada conquista põe os sindicatos da CGTP a ameaçar com uma nova greve para ganhar mais um pouco d...

Hipócrates

Paulo Baldaia DN 20151227 Como é possível que alguém jure "solenemente consagrar a sua vida ao serviço da Humanidade", garantir que "a saúde do seu doente será a sua primeira preocupação" e que guardará "respeito pela vida humana" e venha depois para os jornais denunciar que houve várias mortes num hospital por falta de cuidados médicos, sem que nada tenha sido dito de lá até cá? É um desrespeito pela família de David Duarte a forma como se transformou a morte numa luta política e corporativa com um claro ajuste de contas em relação ao anterior ministro da Saúde. Não digo que não haja responsabilidades políticas no que aconteceu. Se os médicos não queriam ir, porque lhes reduziram a compensação financeira em 50%, era preciso garantir uma melhor organização, enquanto não fosse possível estabelecer um acordo entre empregadores e empregados. Essa será a responsabilidade máxima de Paulo Macedo, tudo o resto tem muito mais que ver com as administrações hos...

O poder e a humildade

PAULO BALDAIA DN 20150913 Não há treino que mude a natureza das pessoas. Nesta semana voltou a ficar evidente que o ego dos políticos funciona como funciona o ego de outro cidadão qualquer. Inchando, com excesso de autoconfiança, qualquer um dá um trambolhão pensando estar a dar um passo seguro. Não sei se o problema é dos marqueeteiros políticos se é dos próprios candidatos, mas alguém tem de lhes dizer que, na conquista do poder, o que gera mais confiança é a humildade, não é a soberba. A ideia de que só é humilde quem pode foi, aliás, muito bem expressa por Vergílio Ferreira para quem "não será difícil ser humilde quando se é grande. Difícil é ser humilde quando se é medíocre. Como é fácil ser generoso quando se é rico e não quando se tem pouco". Não estou com isto a querer arrasar os políticos, estou a humanizá-los, a lembrar que eles são como nós. Terá sido, aliás, essa soberba que fez Pedro Passos Coelho perder o debate com António Costa. O primeiro-ministro, t...

Gaiola dourada

PAULO BALDAIA DN 2013-08-18 A crise ainda não acabou, mas não faltam razões para estarmos todos mais bem-dispostos, mesmo os  que estão fartos deste Governo. Sim, politicamente, o crescimento do PIB no último trimestre é mais favorável aos partidos que estão no poder do que à oposição, mas para os cidadãos de uma forma geral são boas notícias, ponto final. Os comentários gerais transportam-nos, aliás, para uma característica de ser português, muito bem retratada na comédia Gaiola Dourada. O José e a Maria, emigrantes em Paris, são dois profissionais de mão cheia que vivem uma vida humilde e sempre disponíveis para todos os outros. Até aí, só se esqueceram de tratar tão bem de si próprios como tratam dos outros, mas isto (nem bem nem mal) não é uma característica de ser português. Onde eles se revelam portugueses é no modo como lidam com as boas notícias. Sem querer contar o filme todo, revelo apenas que o José e a Maria tiveram uma dificuldade imensa em lidar com as boas n...

Pela nossa saúde

DN 2012-07-15 Paulo Baldaia Pela nossa saúde, o ministro Paulo Macedo tem feito o melhor que sabe fazer em defesa da sustentabilidade do Sistema Nacional de Saúde, no que ele comporta de público e privado. É um profissional de méritos reconhecidos em várias áreas e não se lhe conhecem ódios de estimação. Não é por embirração com os médicos, enfermeiros, farmacêuticas, farmácias e laboratórios que vem trabalhando para lhes reduzir as receitas. É por imposição de um programa de austeridade que procura diminuir as despesas dos contribuintes que são, afinal, os financiadores dos cuidados de saúde que o Estado garante a todos os cidadãos. Dito isto, e sabendo de antemão que a maioria dos profissionais de saúde e os militantes das oposições deixarão de atender aos argumentos que forem apresentados, convém recordar aos contribuintes de que é que estamos a falar. É que sendo legítima a luta dos profissionais de saúde ela não deve ser inquestionável. Na primeira década do século em q...