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Não apaguem a memória

ZITA SEABRA     29.11.16    OBSERVADOR   É sabido que as vítimas dos regimes comunistas não têm nome, não têm monumentos, não têm baladas de homenagem, nem memoriais. Reduzem-se a números e, quando alguém sublinha que um fuzilado no «paredón» não é diferente de um assassinado no Estádio Nacional do Chile de Pinochet, cai um silêncio tal que se torna uma evidência que as vítimas do comunismo o foram por serem contrarrevolucionários e por colocarem em risco uma qualquer revolução comunista, tendo por isso apenas direito a ser apagadas da história com H grande. No entanto as vítimas do regime cubano têm nome, tem mães e têm filhos. As «Damas de Blanco», mães e esposas dos presos políticos e dos desaparecidos do regime cubano, sofrem tanto, são iguais, nada as diferencia, das mães de branco do Chile de Pinochet. Ou serão diferentes as mães dos fuzilados e desaparecidos no Chile de Pinochet das mães dos fuzilados e desaparecidos de Havana? As Damas de B...

Um prefácio para Chesterton

ZITA SEABRA   12/10/2016 Pedro Aguiar Pinto escreveu a meu pedido este texto para um livro de Chesterton. Em sua homenagem, aqui o publicamos com muita saudade. «Quando me foi pedido qu e escrevesse um prefácio a este livro de citações de Gilbert Keith Chesterton pensei que não conhecia com profundidade suficiente este extraordinário autor. Sosseguei ao recordar a função de um prefácio: procurar atrair o leitor curioso à leitura deste livro. Para um leitor curioso, esta modalidade de escrita que é o aforismo ou a frase curta que pode ser citada quando pareça oportuno, encontra nos vários escritos de G. K. Chesterton uma colheita que não é apenas abundante mas especialmente atrativa. Digo isto porque, pensando, foi assim que me atrevi a qualificar as minhas impressões sobre o que conheço da sua obra. Chesterton é talvez a minha fonte mais frequente de «frases do dia» no Povo por três razões fundamentais: 1-lógica — A consistência lógica, isto é, a conformidade com a razão ...

À sombra de Putin: o encontro do Papa Francisco com o Patriarca Russo Kiril

Zita Seabra Observador 22/2/2016 Após mais de 60 anos de comunismo, o que sobrou da Igreja Ortodoxa não perdeu os traços de submissão ao poder, herança da era soviética, consentindo e aceitando viver numa espécie de clausura monacal. O reconhecimento da importância do encontro entre o Papa Francisco e o Patriarca Russo Kiril, como um importante passo dado de aproximação de duas igrejas cristãs, suscitou algumas perplexidades e dúvidas, das quais sublinharia três: o local escolhido para o encontro, a atitude face ao conceito russo de proselitismo e o tratamento dado aos cristãos greco-católicos da Ucrânia. O local escolhido para o encontro entre o Papa Francisco e o Patriarca Russo Kiril, uma sala do aeroporto de Havana, é tão estranho e curioso que não pode deixar de suscitar fortes dúvidas. Mais perplexo se fica ainda quando se lê no documento do encontro o elogio ao local e se lhe refere como partindo «desta ilha, símbolo das esperanças do “Novo Mundo”» (como o foi no te...

Morreu a camarada André

Zita Seabra Observador, 201512.17 Cândida Ventura regressou a Portugal em 1976. Abandonou o PCP e deixou de ser comunista. O PCP apagou-a da sua história, do seu passado, dos seus livros, das suas narrativas heroicas. Como sempre faz. Morreu Cândida Ventura: a camarada André. Era sempre referida internamente por esse seu pseudónimo. Álvaro Cunhal e os outros dirigentes do PCP que a conheceram chamavam-lhe assim. Na clandestinidade todas tínhamos pseudónimos masculinos para enganar a Pide. Cândida era André. Ninguém pode negar que “André” foi um dos mais destacados militantes e dirigentes intelectuais comunistas portugueses, alguém que o PCP tentou apagar da história nesse seu «direito» de reescrever o passado e determinar quem pode ou não figurar na galeria dos heróis da resistência. Cândida foi apagada e colocada na triste memória de vala comum de silêncios e calúnias em que já nem se sabe do seu passado e, no presente, só existe para modelo de traição. Recordo-me, por ...

Uma tília para o Paulo

Zita Seabra Observador 11/11/2015 Com ele a cultura no Porto voltou a sair à rua com uma marca de qualidade e sem preconceitos populistas ou vanguardistas. Tinha um sentido estético sem limites e sem preferências por nenhuma das artes Hoje chegou a notícia inesperada: o Paulo Cunha e Silva morreu. A cultura ficou mais pobre, muito mais pobre. Contactei com ele em diversos momentos da minha vida. É daqueles amigos que nunca se esquecem, que se vão reencontrando quando andamos pelas mesmas bandas. Em Lisboa, cruzamo-nos quando ele estava nas Artes Plásticas. Criou um instituto que inovou o relacionamento do Estado com as artes e fez o que ninguém ainda tinha feito. Mais tarde, vi-o por Roma na Embaixada de Portugal e partilhei os sentimentos que tinha pela Cidade Eterna. Em Roma estava em casa e provocava sentimentos de fidalguia nostálgica, que se enquadrava nas heranças dos príncipes renascentistas de grandes obras de arte que se cruzam connosco em cada esquina. Médico, pr...

A propósito da coadoção

Zita Seabra. Expresso, 2013.06.22 Ex-deputada lembra o calvário dos casais heterossexuais para adotar uma criança Uma criança não é um objeto para uso de um adulto, nem um direito de alguém. A adoção existe para dar uma família a uma criança e não para o inverso. No entanto, assim aconteceu na argumentação usada no debate que levou à aprovação, na generalidade, do projeto de lei do PS de coadoção por um casal de homossexuais em que a criança se transformou num direito que alguns adultos pretendem ter. É sabido que a adoção nos casais heterossexuais é acompanhada por múltiplos cuidados para que a criança não venha a sofrer mais ao ser acolhida numa nova família, onde não nasceu. A legislação foi sucessivamente melhorada para salvaguardar os direitos da criança que se encontra geralmente institucionalizada, e consta da lista nacional de adoções, numa situação de orfandade, marcada pela ausência do que há de mais fundamental na vida: uma mãe e um pai — uma família. Assim, um casal...

Auto-de-fé excerpto: "Os católicos: uma espécie em vias de extinção"

Auto de Fe Miolo Excerto

Os "boys"

Zita Seabra JN 2011-05-29 Eles acham que são os donos do país. Portugal é deles. O Estado pertence-lhes. Vale tudo. Estão acima da lei e das deontologias. Não conhecem ética em política, nem educação. Não sabem o que é o Estado de direito. São filhos directos de Maquiavel porque agem sempre como se os fins justificassem os meios. Sentem-se príncipes que desconhecem o Estado de direito porque são os donos absolutos do país. Usam a propaganda como ninguém. Alimentam-se dela. Sabem de cor como inventar cenários, como criar factos que desviem do essencial, como dar a parecer o que não é. Mentem por palavras, actos e omissões.... Omitem números se não lhes interessam, guardam-nos e escondem-nos para apresentar boas execuções orçamentais. Mudam critérios para contar desempregados, como quem apaga pessoas. As pessoas são números. Afirmam meias- verdades para não serem apanhados na totalidade da mentira e não parecerem mentir tanto quando são apanhados em flagrante. Levam, sem vergonha, figura...

Fartos disto

Zita Seabra JN 2011-05-15 Nas campanhas e pré-campanhas eleitorais, há gente que vira o seu discurso normal e inteligente para conversa de motorista de táxi (sem ofensa para os motoristas de táxi). Como não quero ofender esses profissionais, direi que o valioso argumento também é usado por alguns ouvintes profissionais, participantes dos fóruns de debate matinais das rádios e reza assim: "Os políticos são todos iguais, uns ladrões". Simultaneamente, sentenciam que a classe política que nos governa só merece ser presa, chegando mesmo alguns, com linguagem mais colorida, a declarar pena de morte, sussurrando com raiva e entredentes: "Eu matava-os a todos!". Há ainda quem acrescente com ar saudoso: "O que nos falta é um ditador para pôr os desgraçados políticos na ordem e nos vermos assim livres de quem nos rouba todos os dias". Necessitamos de um Salazar, asseguram! Ou, então, outros mais saudosos do pós-25 de Abril e dos tempos da revolução asseguram que j...

Não tenhais medo!

Zita Seabra JN 2011-05-01 O dia de hoje é de João Paulo II. Vai ser recordado de muitas formas, pelas muitas memórias que deixou nos quatro cantos do Mundo e, sobretudo, pelo que simboliza a força impressionante do seu exemplo na vida e na morte. Como padre, bispo e particularmente como Papa foi um homem que viveu e marcou de forma determinante o seu e nosso tempo. Quando, em 1978, foi eleito um Papa polaco, o mundo comunista tremeu. Um Papa vindo do Leste, do coração do comunismo, foi de imediato entendido como um imenso problema pelos soviéticos e pelos comunistas de todo o Mundo, incluindo os portugueses. Tinham razão. Karol Wojtyla, logo que foi eleito, quis iniciar o seu mandato com uma visita ao seu país natal, a Polónia, mas foi evidentemente proibido de o fazer pelo regime comunista polaco. A indignação na Polónia e no Mundo foi tal que o regime teve de acabar por ceder e ele visitou a Polónia entre 2 e 10 de Junho de 1979. Chegou a Varsóvia e foi saudado por uma multidão nunc...

Modernos e progressistas

Zita Seabra, JN 2011-04-03 Em nome da modernidade e do progresso aprovaram--se duas leis que constituem um ataque brutal contra a condição feminina: a lei da legalização do aborto, a pedido, até às 10 semanas, e a lei do divórcio "à la carte". Passaram agora alguns anos sobre a entrada em vigor destas duas leis e os resultados já estão à vista. Convém olhar para eles e verificar os efeitos que tiveram para a sua principal destinatária: a mulher. Começando pela lei da legalização do aborto, a Direcção-Geral da Saúde divulgou números "provisórios" de 2010: realizaram-se 19 438, segundo dados ainda não definitivos e mais de 250 mulheres que interromperam a gravidez em 2010 tinham feito três ou mais abortos anteriormente, sendo que destas quatro já tinham abortado mais de dez vezes. Perante estes dados, Miguel Oliveira e Silva calcula que 50% das mulheres que recorrem a um aborto não se dirigem à consulta posterior de planeamento familiar. A lei de 1985, que tinha admit...

Sem saída

JN 2011-02-20 Zita Seabra O país está num impasse dramático. Numa negação da realidade, o primeiro-ministro aparece fugazmente com uma triste e decadente agenda política com a única preocupação de (ainda) tentar "vender" a imagem de que nada se passa com o país. Os ministros sumiram e ninguém sabe o que estão a fazer. Suspeita-se apenas. O primeiro-ministro finge, já sem nenhuma imaginação e convicção, que tudo está bem e mostra-se em tristes "reprises" das cenas que outrora eram encenadas com "pompa e circunstância". Esta semana lançou a primeira pedra de uma barragem e fez uns quantos discursos sem nexo e aos gritos. Certamente que lamenta que já ninguém visite Portugal e permita regressar ao brilho de uma fotografia ao lado de. Nem mesmo Hugo Chávez vem e parece que já não liga muito a um pobre país europeu endividado, com Magalhães para vender e à espera de alguma esmola. Assim, arrastamo-nos numa decadência pesada. Para "animar a malta", o B...

A Agenda Europa

Zita Seabra, 2011.01.23 Abolir as raízes cristãs da sociedade europeia é um atentado cultural mas é também alinhar com a perseguição que se abate sobre os cristãos que são hoje as maiores vítimas das perseguições do Mundo. A Agenda da UE teve este ano uma importante novidade: a referência no calendário anual das festas religiosas de diversas religiões, excluindo as datas de referência do cristianismo. Nem Natal, nem Páscoa! O dia 25 de Dezembro é tão-só o dia 25 de Dezembro Os factos são conhecidos. A Comissão Europeia mandou imprimir três milhões de agendas para oferecer a outros tantos alunos e professores de escolas dos países que compõem a União Europeia. Esta agenda, cheia de informações, teve este ano uma importante novidade: a referência no calendário anual das festas religiosas de diversas religiões, excluindo as datas de referência do cristianismo. Nem Natal, nem Páscoa! O dia 25 de Dezembro é tão-só o dia 25 de Dezembro. Numa Europa berço da civilização ocidental, filha direc...

O fato usado do presidente

Zita Seabra, DN 2010-12-26 Três dias antes do Natal, assistia calmamente ao Telejornal da RTP1 quando vi a grande notícia da noite. Entre os atentados em Bagdade e as agências de rating, uma voz off anuncia o que as câmaras filmam: o presidente da maior empresa pública portuguesa a levar dois saquinhos de papel com roupa usada e um brinquedinho (usado) para uns caixotes de cartão, cheios de coisas usadas para oferecer no Natal. Fiquei comovida. Que imagem de boa pessoa, que gesto bonito: pegar num fatinho usado do seu guarda-vestidos que deve ter uns 200 e num pequeno brinquedo de peluche, e depositar tudo no caixote de cartão para posteriormente ser redistribuído? À administração da empresa? Não, a notícia explica que é para oferecer aos pobrezinhos, que estão a aumentar com a crise. A RTP, Telejornal à hora nobre, filma o comovente gesto. Em off, o locutor explica o sentido dizendo que alguém vai ter no sapatinho um fato de marca. Olhando para os sacos de papel, percebe-se que esse a...