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«Exulta Lusitania Felix»

Guilherme d’Oliveira Martins Voz da Verdade, 2016.06.19 Assinalam-se os setenta anos da proclamação de Santo António de Lisboa como Doutor da Igreja Universal, através da Carta Apostólica do Papa Pio XII - «Exulta Lusitania Felix». É a personalidade que levou mais longe a cultura portuguesa. Infelizmente, a cultura erudita ignorou a figura do Santo durante muitos séculos, esquecendo a riqueza do seu pensamento e o papel fundamental que desempenhou no franciscanismo. O ano de 1946 com a proclamação do Doutor da Igreja foi um marco fundamental para lançar luz sobre a sua figura. Contudo, não foram portugueses os pioneiros nessa descoberta. Foram Cantini, Scaramuzzi e Heerinkx que começaram a dar atenção à obra deste português que se tornou elemento crucial na organização da Ordem dos Frades Menores, por indicação expressa de S. Francisco de Assis. De facto, estamos perante o prenúncio do papel que irá ser desempenhado na Ordem dos Frades Menores por S. Boaventura – o grande teólog...

Misericórdia e sobriedade

Guilherme Oliveira Martins, Voz da Verdade, 20.Dez.2015 O Jubileu da Misericórdia assinala simbolicamente os cinquenta anos da conclusão do Concílio Vaticano II, ocorrida a 8 de dezembro de 1965, no dia da Imaculada Conceição. O Papa Francisco convoca este jubileu extraordinário em nome de um desígnio de abertura, de compreensão, de justiça e de paz - «ninguém pode ser excluído da misericórdia de Deus» e a Igreja, como corpo místico e como instituição, «é uma casa que acolhe todos e não recusa ninguém». «As suas portas estão escancaradas para que todos os que são tocados pela graça possam encontrar a certeza do perdão. Quanto maior é o pecado, maior deve ser o amor que a Igreja manifesta aos que se convertem». As palavras do Papa são claríssimas. E ainda há dias as conclusões do Sínodo da Família o recordavam, com uma ênfase especial. É aqui que deveremos insistir. O Concílio tornou-o muito claro nas suas conclusões fundamentais e por isso o Papa faz questão de assinalar a atualid...

Santa Teresa de Jesus (1515-1582)

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GUILHERME D'OLIVEIRA MARTINS Voz da Verdade, 2015.04.19 Celebrou-se há alguns dias o centenário do nascimento de Santa Teresa de Jesus, ocorrido a 28 de março. E devemos recordar que o escritor português Manuel de Lucena, que há pouco nos deixou, é autor, em língua portuguesa, da extraordinária tradução de uma das obras mais difíceis da fundadora das Carmelitas descalças. Trata-se de «Moradas do Castelo Interior» (Assírio e Alvim), livro que nos permite entender a riqueza espiritual de uma das grandes escritoras europeias de sempre. Nada melhor do que ler esse extraordinário repositório de ricas reflexões. E o cuidadoso e competente tradutor (num trabalho de décadas) mostra-nos muito bem com que zelo Madre Teresa de Jesus procurou equilibrar, na sua experiência mística, os elementos intelectual e volitivo ou cordial… E Manuel de Lucena confessa que recebeu inspirados conselhos do Padre Manuel Antunes, que se inclinavam para a razão, enquanto o filósofo Carmo Silva tendeu...

Faria hoje 80 anos: Lembrança de Francisco Sá Carneiro

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Guilherme d'Oliveira Martins |  OBSERVADOR | 19/7/2014, 11:09 Francisco Sá Carneiro nasceu a 19 de Julho de 1934. Faria hoje 80 anos. Pretexto para recordar o seu papel na Ala Liberal e na fundação da democracia. E lembrar o político voluntarioso e determinado Conheci pessoalmente Francisco Sá Carneiro nos primeiros dias de Maio de 1974, na Rua Viriato, à porta da SEDES – num momento em que as esperanças sobre o nosso futuro eram ilimitadas. Acompanhá-lo-ia na criação do PPD, tendo colaborado diretamente com ele, em especial no fim de 1975 e início de 1976, como secretário-geral adjunto para as questões da juventude e como membro do Secretariado Nacional. Com José Pedro Pinto Leite Tinha seguido com grande interesse e entusiasmo a ação que desenvolveu na Assembleia Nacional na "Ala Liberal", nos anos do fim do marcelismo, em especial nos domínios da justiça e do sistema prisional, da liberdade religiosa e da revisão constitucional. Depois da morte de José Ped...

Onde se encontraram os reis magos…

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Onde se encontraram os reis magos… por Guilherme d'Oliveira Martins http://www.e-cultura.pt Que é um Conto de Natal? Eles estão já talvez todos escritos, mas há sempre um espaço para algo de novo no que se refere à magia e à imaginação. Um dia destes, lendo um conto célebre, onde se descrevia as cuidadas preparações para as viagens dos Reis Magos, um dos pequenos ficou intrigado por nada se dizer nesse relato sobre o momento e o lugar em que, segundo a tradição, esses três homens se encontraram, vindos de lugares diferentes, para chegarem ao Presépio. E nesse momento começou uma verdadeira aventura policial. As crianças não descansaram enquanto não descobriram o enigma. Era necessário descobrir qual tinha sido esse lugar de encontro. E os pequenos puseram-se todos em ação, cada um procurando descobrir uma pista. Houve logo quem fosse rapidamente buscar o livro onde pela primeira vez se falava desses sábios vindos do Oriente. É o Evangelho de S. Mateus que primeiro refer...

Em prol do bem comum

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GUILHERME D'OLIVEIRA MARTINS Voz da Verdade 2013-09-22 «O bem comum consiste no conjunto de todas as condições de vida social que consintam e favoreçam o desenvolvimento integral da personalidade humana» - afirmava João XXIII na encíclica «Mater et Magistra» (1961), citada em «Pacem in Terris» (1963). Estamos perante a referência, na sociedade contemporânea, ao respeito pelos direitos e deveres fundamentais da pessoa humana. Nestes termos, os poderes públicos orientam-se no sentido do respeito, da harmonização, da tutela e da promoção dos direitos invioláveis das pessoas, prescrito na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). Por isso, se uma autoridade não reconhecer os direitos ou os violar «não só perde a razão de ser, como também as suas injunções perdem a força de obrigar em consciência», como insistia João XXIII há cinquenta anos, num documento moderno que hoje se tornou mais atual do que em algum outro momento. A noção de serviço público não se atém ...

Portugal merece confiança

GUILHERME D"OLIVEIRA MARTINS   Público 07/08/2013 - 00:00 Os sinais internacionais que se vão desenhando no horizonte, sendo contraditórios, podem oferecer motivo de alento. E o certo é que esse estímulo não significa menos preocupação, mas sim apelo exigente a não facilitar as coisas e a mudar de atitude. Abundam as tentativas de explicação e sobretudo demasiadas invetivas, mas falta a ponderação serena e desapaixonada dos erros cometidos, que permita a prevenção futura, para que não se repitam. Discute-se se a União Europeia estará à altura das circunstâncias e apela-se a que cada Estado assuma as suas responsabilidades. Tudo isso é verdade. Precisamos de mais Europa, como convergência de esforços, não apenas por nós, mas com vista à redução dos riscos de instabilidade mundial, necessitando de vontade própria, de determinação - que não podem confundir-se com protecionismo ou isolamento. A confiança tem de ser reforçada. O Tratado Orçamental, que ficou aquém do desejáve...

Pentecostes

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Guilherme d'Oliveira Martins Voz a Verdade 2013.05.19 Para a cultura portuguesa a festa do Pentecostes tem uma importância especial. As celebrações do Espírito Santo são um sinal do «humanismo universalista», de que falou Jaime Cortesão, e devem ser recordadas como uma exigência de esperança, de liberdade e de igualdade. A coroação de quem não tem poder, uma criança normalmente, a abertura dos Impérios do Espírito Santo e a vivência comunitária de uma refeição de que todos são beneficiários sem exceção (desde a sopa do Espírito Santo à massa sovada, passando pela alcatra e todas as iguarias) são a prefiguração de um tempo de reconciliação e de paz, a que nenhuma sociedade ou pessoa pode renunciar. E, num contexto de dificuldades, como o atual, estes símbolos ganham uma importância acrescida, uma vez que se trata, a um tempo, de dizer que há motivos para mobilizar vontades em torno da justiça, e que a esperança tem de se construir num horizonte em que o sentido comunitário d...

A lição de Bento XVI

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Voz da Verdade, 2013-03-17 Guilherme d'Oliveira Martins Neste tempo de renovação e de reflexão, importa estarmos atentos aos fatores de continuidade e aos elementos de mudança. Nos últimos dois textos, apresentei-vos os contributos publicados na revista «Didaskalia» a propósito dos cinquenta anos do Concílio Vaticano II, hoje invoco o ato de renúncia do Papa Bento XVI e procuro a sua lição. E cito o editorial do último número da «Brotéria» (nº 2, volume 176, Fevereiro de 2012, a merecer leitura atenta), onde o Padre António Vaz Pinto nos diz: «há três notas que gostaria de sublinhar, até para que esta decisão se torne exemplar para nós: a lucidez, que mostrando não estar agarrado ao poder e ao sucesso, lhe permitiu reconhecer a fragilidade e a incapacidade para o desempenho adequado das suas funções; ligada à lucidez, a humildade, que ultimamente é o reconhecimento da verdade da nossa vida, com as suas limitações e fraquezas. E, finalmente, a coragem: não é precisa pouca ...

Se nos lembrarmos. [À memória de Maria José Nogueira Pinto, um ano depois.]

A voz da verdade, 20120715 Guilherme d’Oliveira Martins Se nos lembrarmos do que aconteceu na Europa nos anos trinta do século passado depressa descobrimos que então houve quem pensasse que o confinamento nas soluções nacionais constituiria uma saída. E chegou-se ao paradoxo de entender que uma suposta superioridade cultural legitimaria a violência e a dominação. Não é preciso explicar onde nos conduziu essa via. Quando a guerra geral destruiu o mundo ou quando o extermínio permitiu a morte de milhões de pessoas, pôde perceber-se que uma cultura de paz exige abertura e respeito mútuo bem como a perceção de que a dignidade universal das pessoas assenta na possibilidade de aceitar a imperfeição, a diversidade e o pluralismo. Hoje, porém, uma certa indiferença e um forte esquecimento determinam que se considere que a liberdade, a democracia e a paz são bens definitivamente adquiridos para o futuro. Assim também se pensou no início do século XX, julgando-se que a paz perpétua estav...

Os cristãos e a cultura

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  Guilherme d’Oliveira Martins A voz da verdade, 2011.11.20 Recordo uma fotografia emblemática, é de 1948, que representa Graham Greene com François Mauriac. Ambos estão no auge do seu sucesso e aquele encontro representa as diferenças e as confluências das obras dos dois romancistas. Vê-se que se admiram e respeitam, muitos dos temas que tratam são profundamente diferentes, mas as preocupações confluem. Pela vida fora, surpreenderão os seus leitores, cientes de que o cristianismo que os une exige um compromisso com a verdade, que é muito mais importante do que a previsibilidade. Conhecem bem a técnica das parábolas e, no fundo, procuram reescrevê-las com ingredientes contemporâneos. A austeridade da fotografia a preto e branco esconde para todos os leitores dos dois celebrados escritores uma multidão de temas e de personagens. Com Graham Greene vem-nos à memória o drama de “O Poder e a Glória” em que a Graça e o Pecado se encontram e desencontram – uma vez que o romancista b...

Maria José Nogueira Pinto...

Maria José Nogueira Pinto... Guilherme d’Oliveira Martins Voz da Verdade, 17 Jul. 2011 «O Senhor é meu Pastor, nada me falta» (Sl., 23, 1). Não me sai da memória o verso do Salmo que Maria José Nogueira Pinto escolheu para encerrar um belíssimo texto que escreveu pouco antes de nos deixar. Nestes momentos, há muito poucas palavras a dizer, fica apenas o exemplo. Recordo, por isso, a mulher de ideias e de causas, de convicções e generosidade, que conheci desde quando ambos tínhamos dezassete anos. Sempre lhe encontrei uma especial atenção aos outros e à justiça, que, com o tempo, se foi acentuando – com abertura e afetuosidade. E a verdade é que se foram tornando evidentes significativas convergências quanto à necessidade de renovar as políticas sociais, de recusar a pura lógica do mercado ou a economia de casino e de apontar para a diferenciação positiva, em nome da dignidade. Há muito pouco tempo (parece ontem, porque a doença foi rápida e fulminante), debatemos longament...

O símbolo de Nuno Álvares

Agência Ecclesia, 24.04.2009 Guilherme d'Oliveira Martins À primeira vista há quem manifeste perplexidade. Porquê falar de Nuno Álvares Pereira em pleno século XXI, e ainda por cima como referência religiosa? Porquê homenageá-lo como referência cristã? A dúvida tem, no entanto, muito menos a ver com a personagem histórica e com o seu significado, do que com a sua escolha em diversos momentos (cuja recordação está viva) em nome de uma relação equívoca entre o Estado e a Igreja ou de uma relação na qual havia quem desejasse que as fronteiras não fossem nítidas – como em tempos da pré-história da liberdade religiosa, distantes de uma laicidade serena e criadora. É, pois, tempo de olhar a figura, em si, para além de equívocos e de aproveitamentos. Não há, assim, razão para associá-la a um nacionalismo desajustado dos sinais dos tempos de hoje, nem para a ligar a um patriotismo fechado e retrógrado, que Nuno Álvares Pereira nunca assumiu. É que aquilo que muit...

A presença de António de Sousa Franco

Guilherme d'Oliveira Martins Público, Cartas ao director, 20080921 No dia em que completaria 66 anos de idade, a homenagem da Câmara Municipal de Lisboa a António de Sousa Franco constitui um acto de justiça que merece destaque e que nobilita a instituição que a deliberou. A concessão do nome do cidadão e do político, do universitário e do estadista a uma artéria da cidade é uma homenagem a quem nasceu na capital e a quem amava profundamente a cidade, onde viveu sempre e em cuja Universidade Clássica se formou e fez uma carreira brilhantíssima como professor catedrático e jurisconsulto de primeiríssima água. Os seus amigos mais chegados lembram as longas caminhadas, falando sobre os mais diversos temas, e exprimindo sempre uma perspectiva enciclopédica, oportuna e pertinente e nunca meramente erudita. Desde a política internacional à economia, da história à filosofia, da política ao direito público, o mestre era sempre o mais informado e o comentador mais arguto. Era apaixonante ...