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A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: Pe. Miguel Almeida

Silêncio: não há fé sem dúvida

                             Pe. MIGUEL ALMEIDA, sj    OBSERVADOR    19.01.17 A vida é complexa. Recusando uma visão exclusivamente triunfalista do martírio ou miserabilista da fé, Silêncio convida-nos a acolher a vida na sua complexidade, sem juízos superficiais ou simplistas. No tão badalado  Silêncio  de Martin Scorsese, adaptação do livro de Shusako Endo com o mesmo título, há um percurso que, rapidamente se percebe muito mais longo, profundo e denso do que a distância que separa geograficamente Portugal do Japão. Mal podiam saber os padres Rodrigues e Garupe que, depois da longa travessia que os conduziu ao País do Sol Nascente, a grande distância ainda estivesse por percorrer. A viagem ainda estava no início. De facto, há um itinerário que é o mais difícil de percorrer: o itinerário interior de cada um. Os dois jesuítas rumam ao Japão em busca do seu mestre, P. ...

Natal: das luzinhas ao essencial

P. MIGUEL ALMEIDA, sj   OBSERVADOR   24.12.16  Não, não temos que estar sempre bem e ter a vida toda moralmente ou regradamente direitinha para que Deus nos visite. Nem tudo na vida é bem sucedido e nós experimentamos os seus fracassos na pele. As cidades transformam-se. Luzes e estrelinhas por todo o lado. Músicas de fundo nos cafés, nos centros comerciais e nas ruas. Azáfama, gente, muita gente a correr de um lado para o outro. Associações beneméritas fazem peditórios, escuteiros ajudam a angariar bens para os mais necessitados, igrejas mobilizam os seus fiéis para organizar consoadas para os sem-abrigo, concertos gratuitos, jantares solidários. As pessoas tornam-se mais simpáticas, sorridentes, queridas. Desejamo-nos paz e alegria, saúde, boas viagens… A atividade económica dispara, nascem barraquinhas e florescem pequenos negócios, barretes de pai natal de todas as cores, cheiro a castanhas, jantares de natal nas empresas, mães natal meio despidas a publicita...

Desce daí ó Marquês que eles estão cá outra vez

P. Miguel Almeida, sj Observador 1/10/2016 O voto de obediência de um jesuíta inclui por natureza uma postura crítica. Mesmo quando a atitude crítica periga pisar o risco. Só assim se avança, só assim se caminha realmente ao encontro do outro. A Companhia de Jesus, fundada em 1540, viveu altos e baixos, entre a glória e a humilhação, ao ponto de chegar a ter sido suprimida. De Portugal foi expulsa três vezes. Depois da última expulsão, na República, os jesuítas voltam definitivamente para Portugal em 1932, instalando-se inicialmente no Minho e posteriormente, em 1934, chegam a Lisboa. Por curiosidade, a Estátua do Marquês de Pombal em Lisboa, tinha sido inaugurada em 1933. Conta-se, que os descontentes com o regresso da Companhia de Jesus, diziam à boca cheia, quando passavam pela estátua “Desce daí ó Marquês, que eles já cá estão outra vez!” De facto, vieram para ficar. E estão em fase de renovação a nível mundial. Nestes dias haverá em Roma uma magna reunião de jesuítas para...

O contrário da alegria não é a tristeza

P. Miguel Almeida, sj Observador 3/4/2016, 9:06 A ressurreição diz-nos que mesmo as perdas, as dores, os vazios e a própria morte não têm a última palavra. A última palavra é sempre de vida. Portanto, nenhuma tristeza nos pode roubar a alegria. Queria escrever sobre a alegria. Mais especificamente aquela alegria da ressurreição que celebramos na Páscoa. Mas, assaltado pelas notícias, umas atrás das outras, desde o assassínio bárbaro das Missionárias da Caridade no Iémen ao atentado do Paquistão que visou especialmente mulheres e crianças, dos atentados de Bruxelas ao acidente na estrada da morte que matou os emigrantes portugueses… Como falar da alegria da ressurreição? Conta-nos o evangelho de S. João que, no primeiro dia da semana, ainda escuro, Maria de Magdala foi ao sepulcro e encontrou-o vazio. Depois de chamar Pedro e João e de estes terem ido também ao túmulo e voltado para casa, Maria, prostrada à entrada do sepulcro, chora. Porque choras? Porque levaram o meu Sen...

De que género é o teu sexo?

P. Miguel Almeida, sj Observador 9/1/2016 Nem tudo o que somos é socialmente construído ou exclusivamente biológico. Mas negar que a biologia é a base daquilo que somos é negar a realidade. A propósito dos presentes de Natal, discutiu-se sobre se à feminilidade ou masculinidade das crianças ajuda ou desajuda dar camiões ao menino e bonecas à menina. Se se deve vestir o filho de azul – ainda que turquesa – e a filha de cor-de-rosa, ou se esta é uma atitude ofensiva e provoca distúrbios psicológicos imperdoáveis. Até há relativamente pouco tempo, em linguagem comum, as pessoas tinham sexo e as coisas tinham género. A palavra género era usada para categorizar gramaticalmente nomes, adjetivos, artigos e pronomes. Num artigo de Ana García-Mina Freire (La categoría «género»: historia de una necesidad), encontrei alguns dados históricos interessantes que uso para este meu escrito. A meados do século passado, John Money, deparando-se com diversos casos de hermafroditismo, sentiu a...

As barrigas têm coração

P. Miguel Almeida, sj Observador 2/12/2015 Uma barriga traz consigo um coração que sente e uma cabeça que pensa. O que se pede à mulher que “suporta a gravidez” é ou que não pense nem sinta nada, que seja uma “coisa”, uma caixa, uma incubadora O novo governo precisava disto. Um projeto que galvanizasse as cadeiras à esquerda do hemiciclo, afirmando (antes de mais) para dentro e para fora, que a esquerda está unida! Houvera quem duvidasse, tais suspeitas caíram. Logo na primeira oportunidade, levou-se à discussão um conjunto de decisões chamadas fraturantes. E, afinal, sem qualquer fratura a não ser nuns banquinhos mais à direita, tudo foi aprovado. Fixemo-nos no projeto de lei apresentado pelo Bloco de Esquerda sobre a gestação de substituição, vulgo “barrigas de aluguer”. Há, ao longo de todo o texto, desde a exposição de motivos ao último artigo, uma ausência quase absoluta, muito significativa e perturbadora: não se fala da criança que vier a nascer deste processo. Quer...