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A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: Jorge Almeida Fernandes

A guerra de Putin

JORGE ALMEIDA FERNANDES  Público 19/02/2015 - 18:40 Valdimir Putin continua a seguir, desde o início do conflito, a mesma linha: fazer da Ucrânia um país inviável e ingovernável. O acordo de cessar-fogo ainda não parou a guerra. Os rebeldes pró-russos ganham posições de importância estratégica. Após a tomada de Debaltseve, vital para ligar Donetsk a Lugansk, bombardeavam ontem a cidade de Mariupol, cuja conquista que lhes daria o acesso terrestre à Crimeia. A curto prazo, a Rússia parece querer "congelar" o conflito, consolidando uma importante área separatista dentro da Ucrânia. Mas permanece sempre o risco de escalada. A queda de Debaltseve, mais do que um revés militar, foi um desastre político para o Presidente ucraniano, Petro Poroshenko, que viu a sua posição enfraquecida. Os acordos de Minsk, assinados há uma semana por Angela Merkel, François Hollande, Vladimir Putin e Poroshenko, eram favoráveis a Moscovo e aos rebeldes. Numa posição de fraquez...

Para onde vai a Grécia de Tsipras?

JORGE ALMEIDA FERNANDES  Público  15/02/2015 - 11:47 O problema grego é político. Não é a dívida. É a reforma do Estado e da economia. A Grécia apanhou a Europa de surpresa em 2009 e continua a surpreendê-la. Historiadores, economistas e politólogos gregos sempre aconselharam os responsáveis europeus a conhecer um pouco melhor a História grega contemporânea. A questão da dívida ocupa quase toda a cena. Mas a dívida é uma manifestação, não a raiz do problema. Para os historiadores, o "problema grego" não é económico mas político — diz respeito ao funcionamento do Estado. A questão não está nos gregos mas nas instituições. A reforma do Estado e da economia é o nó do problema. O "sistema grego" O "sistema grego" remonta ao século XIX. A Grécia emancipou-se do Império Otomano em 1829 e o novo Estado começou a ser criado por altos funcionários alemães que acompanhavam o primeiro rei, o príncipe Otão da Baviera. Foi imposto um modelo centralizador...

Hoje a Grécia, amanhã a Espanha e depois a Itália?

JORGE ALMEIDA FERNANDES Público 01/02/2015 - 09:11 O Syriza interpreta a crise como uma luta de libertação nacional contra o jugo estrangeiro. Syriza escreveu Paolo Flores d'Arcais, filósofo e radical italiano: "Hoje na Grécia, amanhã na Espanha, depois de amanhã na Itália." Alexis Tsipras, líder do Syriza, prometeu refundar a Europa. "O 25 de Janeiro é o começo, a vitória do Syriza será seguida pela do Podemos em Espanha e, no próximo ano, pela do Sinn Féin na Irlanda." Pablo Iglesias, líder do Podemos, proclamou: "2015 será o ano da mudança na Espanha e na Europa. Vamos começar pela Grécia." Anuncia-se o fim da "era da austeridade" e um novo efeito dominó, inverso daquele que a Grécia abriu na zona euro em 2010. Os mais ousados sonham com uma nova "Primavera dos Povos", como a de 1848. Três factos perturbam a festa. Primeiro, o Syriza escolheu para aliado um partido da direita radical — Gregos Independentes (Anel). Foi um balde...

A “segunda morte” de Sedas Nunes

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Público, 2014.11.02  JORGE ALMEIDA FERNANDES A revista Análise Social ( AS ), fundada em 1963 por Adérito Sedas Nunes e editada pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS), produziu insolitamente o escândalo da semana: censura na universidade. O director do ICS, José Luís Cardoso, retirou da circulação o último número da AS . Porquê? Um "ensaio visual" intitulado "A luta voltou ao muro" e composto por uma selecção de graffiti conteria imagens "chocantes, ofensivas e de gosto duvidoso". Diz tratar-se de uma peça "inapropriada para publicação numa revista académica" e que, por ser considerada "decorativa", não foi sujeita "a avaliação e arbitragem científica". O "director cessante" da revista, João de Pina Cabral, acusa Cardoso de "censura" e de "ataque de lesa-ciência". Os graffiti em causa, argumenta, "reflectem a frustração popular que se vive em Portugal contra a...

Estado Islâmico: uma vocação totalitária

JORGE ALMEIDA FERNANDES Público | 24/08/2014 - 09:08 1. O Estado Islâmico (EI, ex-ISIS) é uma ameaça de tipo novo. Não é "mais um" grupo terrorista ou de fanáticos apocalípticos. Tem outra ambição. Encara-se como um verdadeiro Estado em construção — o "califado" — e não como uma organização de militantes. Controla, na Síria e no Iraque, um território da dimensão da Grã-Bretanha. Utiliza métodos de tal modo violentos que suscitou a repulsa da Al-Qaeda. Está a mudar o mapa do Médio Oriente e a dinâmica das "guerras por procuração" que lá se travam. Mais relevante do que o fanatismo é a sua vocação totalitária. Os analistas atribuíram inicialmente o seu sucesso a três factores: uma extraordinária mobilidade com elevado poder de fogo, a brutalidade dos ataques e uma refinada propaganda de actos de barbárie para desmoralizar quem lhe resiste. Chuck Hagel, secretário da Defesa americano, declarou depois do vídeo da decapitação do jornalista James Foley: ...

A matemática do Irão

JORGE ALMEIDA FERNANDES Público | 17/08/2014 - 13:32 "Há uma única palavra para comentar esta notícia: finalmente!" A iraniana Maryam Mirzakhani, 37 anos, é a primeira mulher a receber a Medalha Fields, o mais relevante prémio na matemática. "Encontro uma única palavra adequada para comentar esta notícia: finalmente!" — declarou Elisabetta Strickland, chefe da delegação italiana ao Congresso Internacional dos Matemáticos que decorre em Seul. "Há anos que me bato para trazer à luz a excelência feminina na matemática e este ano esperava esta vitória." Desde a criação do prémio, em 1936, não consta nenhum nome de mulher – até 13 de Agosto de 2014. A Fields não distingue um grande matemático mas aquele que faz uma "descoberta excepcional". A Fields não se ganha com técnica mas com inventividade, diz o francês Cédric Villani, premiado em 2010. Mas sem técnica, não se vai a lado nenhum. "A imaginação e o rigor são duas das três qualidades ...

Há 100 anos em Sarajevo: o dia em que começaram a apagar-se as luzes na Europa

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JORGE ALMEIDA FERNANDES Público, 28/06/2014 - 06:20 A história da I Guerra não começa em Sarajevo mas muito antes. Deriva da crise dos impérios multinacionais sob pressão dos nacionalismos e da disputa pela hegemonia do continente. O arquiduque em Sarajevo pouco antes do atentado AFP 28 de Junho de 1914: era domingo e fazia sol em Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina. De manhã chegam à cidade, de comboio, o arquiduque Francisco-Fernando (Franz-Ferdinand), herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, e a sua mulher, a duquesa Sofia. Sobem para um automóvel descapotável. Os cinco carros da comitiva dirigem-se à câmara municipal para a cerimónia de recepção. Seguem pelo cais Appel, junto do rio Miljacka, no meio da multidão de curiosos. A visita tinha sido anunciada em Março. Na mesma manhã, seis jovens nacionalistas sérvios da Bósnia espalham-se ao longo do cais. Apenas um tem mais de 20 anos. Estão armados com bombas e pistolas. O primeiro a entrar em acção é Mu...

Os totalitarismos do século XX geraram a "banalidade do mal"

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JORGE ALMEIDA FERNANDES   Público 03/10/2013 A estreia, hoje, de   Hannah Arendt , de Margarethe von Trotta, e a apresentação em Outubro do Dernier des Injustes , de Claude Lanzmann, ilustram duas visões opostas das tragédias do século XX Num dos seus primeiros textos sobre o fim da II Guerra Mundial, escreveu Hannah Arendt em 1945: "O problema do mal será a questão fundamental da vida intelectual do pós-guerra na Europa - tal como a morte se tornou fundamental no fim da última guerra [1914-1918]." É um tema que nunca abandonou. O filme   Hanna Arendt , de Margarethe von Trotta, estreia hoje em Portugal. Todo ele roda em torno da questão da "banalidade do mal", levantada por Arendt no seu livro-reportagem sobre o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém, em 1961, que motivou, uma "guerra civil" entre os intelectuais de Nova Iorque e na elite judaica e deu lugar a infindos debates que ainda hoje se prolongam. Por isso o título inicial do filme ...

O Papa importa e fascina a Europa

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Jorge Almeida Fernandes Público, 17/03/2013 1. Bastaram 24 horas para que Francisco fosse definido como um "Papa de gestos", gestos simples que anunciam "mudanças revolucionárias". O grande gesto de ruptura que foi a renúncia de Bento XVI quer dizer que os tempos estão maduros. Para quê e em que direcção? É o que aguardamos saber. A multissecular Igreja Católica tem uma cultura de resistência à mudança mas sobrevive sempre, às grandes ameaças e às misérias próprias, porque mantém a sua identidade fundamental e acaba sempre por se adaptar aos tempos - ou por se purificar, quando é caso disso. Desta vez combina uma promessa de reforma com uma viragem geopolítica. Esta viragem é um grande sinal para a Europa. O gesto da renúncia de Bento "mudou para sempre o papado"- escreveram os vaticanistas - e trouxe também um papa do Sul. É um sinal dos tempos e da nova geopolítica religiosa: é na América Latina que vive a maioria dos católicos. O centro de gravi...

A primeira civilização ateia

Público 2011-12-24 Jorge Almeida Fernandes jafernandes@publico.pt Declarou Vaclav Havel em Setembro de 1994 num discurso na Universidade de Stanford: "O papel do intelectual é, entre outras coisas, antever, como Cassandra, as variadas ameaças, horrores e catástrofes. O papel do político é escutar as vozes de aviso, tomar nota dos perigos e, ao mesmo tempo, pensar intensamente no modo de os afrontar ou prevenir." Havel acaba de ser homenageado pelo seu papel histórico, pelo combate pela liberdade e pela verdade, como cidadão europeu ou como teórico do "pós-totalitarismo". Foi um dos grandes pensadores políticos da segunda metade do século XX. Tem, no entanto, muitas vidas e vozes - do dramaturgo ao boémio, do político ao profeta. Tentou, ao longo de décadas, deixar-nos um aviso: não tomem nada como automaticamente garantido, pois a nossa civilização corre o risco de catástrofe. É o trabalho de Cassandra, o mais silenciado e o que aqui nos interessa. Em O...