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A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: Alice Vieira

Era tão bom que todos os nossos problemas se resolvessem demitindo o Governo...

José Manuel Fernandes Público, 31/05/2013 A ideia de Sampaio de que a oposição "tem de encorpar" lembra o intervencionismo dos nossos monarcas liberais no tempo do "rotativismo" Uma boa parte dos portugueses parece ter uma irresistível atracção por soluções mágicas. Sobretudo quando os problemas se revelam muito difíceis de resolver. A mais recente dessas ilusões é a de que bastaria demitir o Governo, dissolver a Assembleia e convocar eleições para boa parte das nossas dores de cabeça desaparecerem. O Inferno actual seria substituído por uma espécie de Paraíso onde um delicodoce Seguro apascentaria um país de repente capaz de refazer consensos e, claro, de viver sem austeridade. Nada nesta visão idílica resiste a cinco minutos de análise fria. Pior: tudo, ou quase tudo, nesta proposta deriva de uma visão autoritária da democracia e da ideia de que há, em Portugal, uns que são donos do regime e outros os seus eternos enjeitados. Dois dos principais advogados de...

Depois logo se vê

JN, 2009-03-28 Alice Vieira Vivemos no país do logo-se-vê. Do pode-ser-que. Do em-princípio. Do se-tudo-correr-bem. A dificuldade que temos em tomar decisões já quase se tornou característica nacional. É qualquer coisa que deve estar nos genes. Diante de qualquer problema dizer "é assim, é assim, pronto, vamos a isso" - é frase que os portugueses nem sabem como se pronuncia. E essa capacidade de ser rápido e eficaz - tipo "o que tem de se fazer que se faça depressa"- reflecte--se nas coisas (aparentemente) banais do dia-a-dia. Por exemplo: já repararam na dificuldade que as pessoas têm em pôr fim a uma simples conversa telefónica? "Adeus, adeus, beijinhos, sim, eu depois ligo, tá bem, adeus, sim, não me esqueço, sim, em princípio eu vou, beijinhos, então vá, pronto, tudo bem, adeus, adeus, beijinhos, vá, tá bem, sim..…" - são capazes de ficar naquilo horas seguidas! Será tão difícil tomar a decisão de desligar depois de um honesto "então, ...

O mau uso do Português

Jornal de Notícias, 2008-02-14 Alice Vieira Pronto, lá vou eu bater outra vez no ceguinho do costume, mas que é que querem, estas questões do mau uso da nossa língua, ou de um certo desamor com que ela é tratada - a sério que me tiram do sério (como se diria certamente numa qualquer telenovela brasileira onde, regra geral, se fala bem melhor Português do que nas nossas…) Eu sei que para a maior parte das pessoas isto não tem importância rigorosamente nenhuma, não nos vai tirar da crise, não vai resolver o problema do desemprego, nem sequer nos protege do buraco do ozono. Mas a língua portuguesa é património nacional - e se andamos sempre todos tão entusiasmados em votações para eleger o melhor monumento, ou a maior maravilha do Mundo, por que não nos lembramos de defender com igual vigor a utilização correcta da língua que, afinal, é o que a todos nos une? Basta ler os jornais e revistas, basta ouvir o que se diz nas televisões, basta ler legendas em filmes ou séries, basta ouvir o dis...

Entrevista a Alice Vieira: "Aconteceu uma coisa terrível na Educação: tudo tem de ser divertido, nada pode dar trabalho"

Público, 19.01.2009 - 08h42 Bárbara Wong É por causa dos seus livros que Alice Vieira é convidada para ir às escolas. Há 30 anos, falava de “Rosa, minha irmã Rosa” aos alunos dos 3.º e 4.º anos, hoje fala sobre o mesmo livro aos estudantes dos 7.º e 8.º. “Alguma coisa está mal” A escritora Alice Vieira começa por dizer que de educação percebe pouco. “Nunca fui professora na minha vida!”, justifica. Mas há três décadas que anda pelas escolas e observa o que se passa no mundo da educação. O retrato que faz, reconhece ser “assustador”: professores com fraca formação, alunos que não compreendem o que aprendem. Defende mais disciplina e mais autoridade para a escola. Quanto à luta dos docentes confessa, bem disposta: “Saúde e Educação seriam os ministérios que nunca aceitaria!”. Teme que se a contestação continuar o ano lectivo possa estar perdido. Esta é a segunda greve de professores, este ano lectivo. Em que é que estas acções influenciam a qualidade da escola pública? Os professores têm...

Senhoras donas, por favor!

Alice Vieira Jornal de Notícias, 2008-09-28 Cada país (cada língua, cada cultura) tem a sua maneira específica de se dirigir às pessoas. Mal passamos Vilar Formoso, logo toda a gente se trata por tu, que os espanhóis não são de etiquetas nem de salamaleques. Mas nós não somos espanhóis. Também não somos mexicanos, que se tratam por "Licenciado" Fulano. Nem alinhamos com os brasileiros, para quem toda a gente é "Doutor", seguido do nome próprio: Doutor Pedro, Doutor António, Doutor Wanderlei, etc.. Por cá, Doutor é seguido de apelido, e as mulheres, depois de passarem por aqueles brevíssimos segundos em que são tratadas por "Menina", passam de imediato-- sejam casadas, solteiras, viúvas ou amigadas, sejam velhas ou novas, gordas ou magras, feias ou bonitas, ricas ou pobres -à categoria de "Senhora Dona". Mas parece que uns estranhos ventos sopraram pelas cabeças das gerações mais novas que fizeram o "dona" ir pelos ares ou ficar no tinte...

O sacristão de S. Paulo

Alice Vieira , Escritora Jornal de Notícias, 20070409 Hoje vou contar uma história. A história de um homem que era sacristão na igreja de São Paulo, em Londres. Um dia, por motivos burocráticos, foi-lhe pedido que assinasse um documento e, para espanto de todos, o sacristão assinou de cruz. Para espanto de todos, o sacristão não sabia ler nem escrever. Um sacristão da Igreja de São Paulo analfabeto era coisa inadmissível e ele foi despedido. Abatido, sem saber o que fazer à vida, andou o pobre homem ali pelas imediações quando lhe apeteceu, desesperadamente, um cigarro. (Isto é ainda na era do pré-fundamentalismo antitabágico). Olhou em volta, mas não viu por ali nenhum lugar onde pudesse comprá-lo. Andou mais um pouco - e nada. "Se calhar era boa ideia abrir aqui uma pequena tabacaria", pensou. E, com algum dinheiro que tinha guardado e outro que pediu emprestado, foi o que fez. A tabacaria foi um sucesso. De tal maneira que, logo a seguir, abriu outra. E depois mais outra. ...