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A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: José Manuel Fernandes

Vamos ter de mudar quase tudo, mas não queremos mudar nada

JOSÉ MANUEL FERNANDES   02.06.17    OBSERVADOR Somos um país cada vez mais envelhecido e isso tem e terá imensas consequências no nosso futuro - e também na forma como vivemos a velhice. Mas enquanto houver geringonça ninguém discutirá o problema. 86 anos no caso dos homens, 88 no caso das mulheres. Em 2014-2016 foram essas as idades em que se registaram mais óbitos. No mesmo período duas em três das pessoas que morreram tinham mais de 80 anos. No caso das mulheres foram mesmo três em cada quatro óbitos os que ocorreram depois dos 80 anos. Habitualmente olhamos para a esperança de vida e celebramos, com razões para celebrar, a extraordinária evolução registada em Portugal. De acordo com um  relatório do INE  divulgado esta semana, a esperança de vida à nascença era em 2015 de 80,62 anos. Nos últimos dez anos – dez anos que foram quase sempre de crise e de “cortes” que, como sabemos, “destruíram” o nosso Serviço Nacional de Saúde – nunc...

Fátima, ou a confissão de humildade de um não-crente

JOSÉ MANUEL FERNANDES  OBSERVADOR   10.05.17 Como pode um não-crente olhar para Fátima? Com a humildade de procurar entender, nunca com a superioridade dos iluminados bem-pensantes. Afinal a fé é capaz de ser liberdade e, também, de ser um dom. Olho para Fátima como um não crente. Mas o gosto por tentar perceber o que se passa à minha volta e a humildade que a idade vai permitindo, fazem com que olhe sem a sobranceria típica do urbano bem-pensante. Porque há em Fátima muito mais do que podemos racionalmente compreender. Aqui há uns anos a peregrinação a Fátima de um advogado e político conhecido – António Pinto Leite – suscitou o escárnio dos letrados e dos iluminados quando começou por confessar, em 1991, na sua coluna do Expresso, que ia a Fátima “numa confusão de sentimentos unidos pela minha determinação”; depois por acrescentar em 1996 que iria fazer a peregrinação a pé, para “pisar o silêncio que não tenho na vida de todos os dias, para conseguir falar com De...

A melhor qualidade de um político é ter muita lata

 JOSÉ MANUEL FERNANDES   OBSERVADOR    21.12.16 Custa a crer.  No principal salão da residência oficial do primeiro-ministro, com enorme pompa e circunstância, o anfitrião, os presidentes do Banco de Portugal e da CMVM, essa figura esquiva que dá pelo nome de Diogo Lacerda Machado e tem como principal atributo ser o “melhor amigo” do anfitrião, mais o representante dos “lesados do BES”, brindaram a um acordo que este último classificou como uma “bênção de Natal”. Quanto ao primeiro-ministro, este preferiu a metáfora – “ não endireitámos a vara nem a sombra ” – e a auto-congratulação – falando de “dever cumprido”. Não houve brindes com champanhe, mas podia ter havido. Também não houve direito a perguntas, nem podia ter havido: as respostas, se as houvesse e houvesse franqueza, seriam duras de ouvir. No essencial o que António Costa anunciou é que um conjunto de pequenos e grandes (alguns mesmo muito grandes) aforradores do BES, daqueles que acreditaram...

Estamos tão afogados em boas notícias que nem notamos que estamos... afogados

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JOSÉ MANUEL FERNANDES  21.11.16   OBSERVADOR   Viva o foguetório, viva a decadência: o que conta é que não incomodem a nossa elite. O resto é conversa de uns desmancha prazeres como este vosso escriba. A conta pagá-la-ão os meus e os vossos filhos. Saíram os números do INE sobre o crescimento económico no 3º trimestre e o país – literalmente – embandeirou em arco. 1,6% de crescimento homólogo. 0,8% de crescimento em cadeia. Espectacular. E – agora sem qualquer ironia – ainda bem. No entanto podíamos ter ouvido vozes dissonantes. Vozes que dissessem, por exemplo, que os bons resultados do turismo eram fruto do contexto externo. Ou que o grande contributo para o salto no PIB vinha da retomada da produção da refinaria da Galp em Sines. Ou ainda que o sucesso das exportações não traduzia nenhuma reforma estrutural da economia. Ou que um bom trimestre não muda “um quadro geral de estagnação ou de crescimento pontual medíocre”. Não nos deveria surpreender que alguém ti...

Eles falaram. Mas insistem em não os ouvir

JOSÉ MANUEL FERNANDES   OBSERVADOR  14.11.16 Trump venceu e vêm aí novas tempestades, agora na Europa. Assim, que tal deixar de insultar e menosprezar os seus eleitores e começar a tentar perceber as (muitas) razões de quem vota nos populistas? Lixo branco. “White trash”. Aqui chegámos. De uma forma ou outra, quem votou em Donald Trump não presta. São velhos. Incultos. Pobres. Vivem longe do cosmopolitismo dos centros urbanos. E, claro, são racistas. Machistas. Xenófobos. E por aí adiante. Uma parte do que escrevi atrás foi escrito em letra de forma nos mais consagrados órgãos de informação, dito por doutorados de ciências políticas no  prime time  dos mais sisudos canais de televisão. A outra parte foi acrescentada nas redes sociais e nas caixas de comentários pelo exército de militantes do costume (aliás as redes sociais, que Obama tão “brilhantemente” usara, passaram agora a ser as responsáveis pela vitória de Trump, apesar de serem mais utilizadas pelos no...

Já tenho saudades das greves no Metro

José Manuel Fernandes Observador 2/10/2016 No Metro de Lisboa todo o dinheiro que há serve para repor antigos privilégios dos seus trabalhadores, não para reparar as carruagens que se avariam ou para evitar a degradação da qualidade do serviço É verdade. E não é por o Verão ter sido mais quente e o calor estar a entrar por Outubro adentro, fazendo com que seja ainda mais difícil respirar em carruagens apinhadas. Tenho saudades das greves do Metro porque a sua ausência é o melhor sinal de que o serviço público se está a degradar. Ao mesmo tempo, o algodão não engana: estando os sindicatos calados e sossegados, é porque estão a atingir os seus objectivos, e estes, numa empresa pública dependente do dinheiro dos contribuintes, são inevitavelmente contraditórios com o interesse dos utentes e de todos os que pagam impostos. Os sinais estão aí, como de resto o  Observador  e outros órgãos de informação ( aqui ,  aqui ,  aqui  e  aqui , por exemplo)...

O livro de Saraiva e a hipocrisia dos jornalistas

José Manuel Fernandes Observador 26/9/2016 O livro de Saraiva tem pouco valor histórico e comete pecados graves, mas se queremos falar de jornalismo não devíamos estar antes a discutir como o DN, o JN e a TSF são hoje usados por José Sócrates? Não faço parte daquele grupo de activistas das redes sociais (e de colunistas de jornal) que se não se envergonha de escrever “não li esse livro, mas…”, desatando a seguir a proferir a maiores inanidades sobre o que não se conhece. Tratei por isso de ler Eu e os Políticos, de José António Saraiva (com quem trabalhei nos anos em que estive nos Expresso, já lá vão três décadas), antes de escrever fosse o que fosse. E devo dizer desde já que não alinho com a turba ululante. Passo a explicar. Eu e os Políticos é um livro de memórias. Na verdade, é o terceiro livro de memórias do antigo director do Expresso e do Sol. Antes escreveu Confissões de um Diretor de Jornal  2003  e Confissões – Os Últimos Anos no Expresso, o Nascer do S...