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Reparação histórica e omissão histórica

Suzana Toscano, 4R - Quarta República , 2016.07.02 Basta uma simples consulta à Wikipédia ou às inúmeras notícias biográficas de Salgueiro Maia para saber que recebeu, em 1983, a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, e, a título póstumo, o grau de Grande-Oficial da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, em 1992. A Ordem da Liberdade é uma Ordem honorífica portuguesa, que se destina a distinguir serviços relevantes prestados em defesa dos valores da Civilização, em prol da dignificação do Homem e à causa da Liberdade. A Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito é a mais elevada  Ordem Honorífica de Portugal, Foi-lhe  agora  conferida nova distinção, desta vez a Grã Cruz da Ordem do Infante, a qual visa reconhecer a prestação de serviços relevantes a Portugal, no País ou no estrangeiro, ou serviços na expansão da cultura portuguesa, da sua História e dos seus valores. Entre as muitas e certamente atendíveis razões que podia...

Palavras esquecidas

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Suzana Toscano ionline 2014.08.29 Aquele que leva uma vida sem mancha(...); aquele cuja língua não levanta calúnias nem causa prejuízo a ninguém; aquele que não falta ao juramento (...). Quem assim proceder não há-de sucumbir para sempre." Livro de Salmos 15(14),2-3.3-4.5. Apesar de tudo nos parecer tão fugaz, o desejo de permanecer é um dos maiores impulsos que dita o comportamento. O desejo de permanecer no poder, no coração dos que amamos, no círculo de amigos ou enquanto parte de um ambiente de trabalho, de um clube ou de um partido. É o desejo de permanecer que nos move, que nos obriga a trabalhar mais, a ser atentos e generosos ou a lutar contra o que nos pode ameaçar. É também esse desejo que nos impele à mudança, quando não é para fugir mas para procurar, para evoluir a partir das referências que transportamos. Em tudo isto lá está o sentimento de resistir a sucumbir...Permanecer significa continuar lá mesmo depois de termos saído, mas isso só...

Ressaca

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Suzana Toscano ionline, 31 Jan 2014 Depois das Festas, chega a ressaca. Esgotado o tempo da breve visita, os nossos filhos voltam aos países que os acolheram. Estão diferentes e reparam nas nossas diferenças. Chegam cheios de energia, falam da vida que corre longe de nós, não conhecemos o seu dia-a-dia, as roupas que trazem, o novo corte de cabelo. Falam de amigos cujo nome nunca ouvimos, este é daqui, este dali, levam-lhes lembranças deste país curioso, muitos tiveram de ver no mapa onde fica, tiveram bailout? Ah, e como vivem, tão pobres? Guardam na bagagem coisas a que antes não ligavam nenhuma, camisolas tricotadas à mão, marmelada, dá-me aquela receita dos biscoitos. Nós rimo-nos das aventuras e dos novos gostos, perguntamos tudo, conta, conta, ó mãe, não consigo contar tudo, passa-se tanta coisa, onde guardaste aqueles sapatos de que eu gostava tanto, empresta-me o teu casaco, posso levá-lo?, ao menos aqui há sol, mas as pessoas são tão tristes, estão viciadas na crise, que ...

Tudo muito simples

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Suzana Toscano ionline 22 Nov 2013 Havia para os portugueses uma espécie de sacralização das refeições, um ritual em família durante o qual se ensinavam alguns valores como a importância da pontualidade, o respeito pelo chefe de família e pela organização doméstica, a educação à mesa nos gestos, na contenção das palavras, na precedência a servir- -se, enfim, as refeições, em particular o jantar, eram um momento educativo por excelência. Li algures que está a tornar-se moda as refeições "drunch", a emparceirar com os já populares "brunch", juntando-se agora o almoço tardio e o jantar, numa resposta prática para as necessidades de quem já não quer jantar a sério ou de quem recolhe cedo. Não digo que isto não seja muito prático e dinâmico, certamente que sim, há que simplificar. Mas, a pouco e pouco, almoço e jantar vão perdendo a sua formalidade, já não haverá crianças amuadas à frente de um jantar sem ketchup, nem jovens a ouvir ralhetes porque chegaram depois d...

Entre mulheres

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Suzana Toscano Ionline 2013-09-27 Mais do que a vizinhança das casas, foi a solidão que aproximou as duas mulheres. A caseira subia a ladeira íngreme até à casa do monte quando a doença do marido lhe dava uma trégua. Viviam ali desde que casaram, a vida toda, sentia o tempo nos ossos, no entorpecimento das mãos, mas a maior dor eram as ruínas das casas dos vizinhos de sempre e o peso imenso do silêncio, apenas quebrado pelos gemidos do marido condenado à doença sem remédio. Na casa do monte a solidão da senhora era igual, filhos e netos distantes da vista e parcos em notícias. As duas mulheres tornaram-se amigas, arrimo último uma da outra, sobreviventes à deriva da vida que lhes ditou a mesma solidão no lugar onde ambas, de formas tão diferentes, tinham sido felizes. Os filhos vieram à terra para o enterro do pai e decidiram que a mãe iria para um lar. A despedida foi para ela uma segunda morte, enterrava nas malas despojos sem vida e sentia na boca a resignação amarga d...

A aldeia das denúncias

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Suzana Toscano Ionline, 2013-08-16 Leio os jornais e vem-me à memória uma história contada por Gabriel Garcia Marquez no seu livro "Viver para contá-la". Conta ele que numa pequena aldeia pacífica começaram a aparecer cartas anónimas denunciando a vida de uns e de outros. Cada dia era portador de novas cartas e, a pouco e pouco, todos começaram a desconfiar de todos. Deixou de haver amigos, vizinhos ou irmãos, as ruas começaram a ficar desertas, as janelas fechavam-se aos olhares indiscretos, a vida tornou-se um pesadelo. Todos eram vigilantes de todos, todos eram vítimas de todos e a aldeia paralisou. Ao ver as nossas "notícias", lembro-me desta história. A voracidade com que se "suspeita", se comenta e duvida das razões e "ligações" de quem age ou decide parece que estamos todos empenhados em demonstrar que é melhor não fazer nada, ficar muito quietinho a dizer mal do que alguns incautos ousem decidir. Ai de quem falha ou, sequer, de ...

Declaração de amor

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Suzana Toscano, ionline15 Fev 2013 Quando fez 80 anos a família juntou-se toda para celebrar, numa algazarra que ele ouvia vagamente, naquele jeito que a doença lhe deixara de estar presente, silencioso, de querer sossego com todos à volta. Alheava-se, não gostava que o vissem debilitado, não queria que as suas mãos formidáveis lhe desobedecessem e deixassem cair os copos ou se recusassem a segurar a faca com firmeza. Mas festa é festa, e ele vestiu--se a rigor e sentou-se à cabeceira da mesa. Na altura do brinde todos pensaram que ele não ia falar e, por uma vez, não se fazia silêncio para ouvir um dos seus discursos, sempre tão divertidos, em que misturava referências de filmes, livros e trocadilhos, a desafiar a memória comum da família, que depois ficava a decifrá-los até ele acabar as discussões. Mas ele levantou-se a custo, pegou na taça com a mão trémula, ergueu-a e ficou assim um momento, como perplexo com a penumbra da sua memória. Virou-se então para a mulher, sua paixã...