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A democracia não é absoluta

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MÁRIO PINTO   OBSERVADOR   24.05.2018 Depois da enunciação da da dignidade da pessoa humana, a Constituição portuguesa faz a listagem enunciativa dos "Direitos, liberdades e garantias". E começa dizendo assim: "A vida humana é inviolável" 1.  A democracia constitucional moderna caracteriza-se pelo seu fundamento na dignidade da pessoa humana. No actual constitucionalismo, (ainda) faz parte do consenso universal que uma maioria, nos Parlamentos, não pode decidir tudo. O poder legislativo, como todos os poderes políticos democráticos, está sujeito à Constituição, que solenemente declara tudo assentar na base da dignidade da pessoa humana, que se desenvolve nos princípios fundamentais de Direito e nos direitos fundamentais pessoais. É neste sentido substancial, e não apenas em sentido formal ou literal, que as democracias são constitucionais; e não são democracias absolutas. 2.  Os Parlamentos estão limitados pela Constituição, mas não apenas em sent...

O cancro da democracia

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 JOÃO CÉSAR DAS NEVES      25.11.2017    DN A doença mortal da nossa democracia volta a manifestar-se. É a maleita que arruinou liberalismo e Primeira República, gerou as várias ditaduras que suportámos, causou a dívida que hoje nos oprime e a recessão de que ainda recuperamos. É ela que gerará o próximo colapso que, após as manifestações recentes, está cada vez mais próximo. O vírus é o corporativismo exacerbado, com grupos poderosos esquartejando o país a seu favor, exigindo condições acima das possibilidades, destruindo o desenvolvimento, justiça social e equilíbrio nacional. Os sectores que vivem à custa dos impostos são muitos e variados: construtoras, banca, comunicações, transportes, energia e tantos outros pseudoprivados, além do aparelho público, câmaras, médicos, professores, funcionários, pensionistas, e inúmeros outros. Foram estes os grupos que mais beneficiaram com o longo endividamento de 1992 a 2008 e, quando bateu a crise, devia...

Salvar a democracia

JOÃO CÉSAR DAS NEVES    27.05.17   DN Portugal tem uma democracia a funcionar. Esta simples afirmação carrega enorme significado, pois todas as experiências democráticas anteriores foram fiascos estrondosos. Em 1974, olhando para trás, era razoável dizer que o nosso país nunca conseguiria viver em sistema aberto e livre. Hoje resgatámos as credenciais democráticas. Tal não permite descansar: 250 anos de turbulência institucional recomendam a maior cautela. Acaba de ser publicado um livrinho com lúcido e incisivo diagnóstico e terapêutica dos vícios que o regime acumulou em 40 anos. O Sistema Político Português, do professor Manuel Braga da Cruz, na coleção Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, consegue, em menos de cem páginas, descrever a história, teoria, problemas e soluções para quatro pilares da nossa vida política: os sistemas eleitoral, partidário, parlamentar e de governo. Esta leitura fácil é indispensável para quem se interesse por Portugal...

A tradição democrática sob fogo cruzado

JOÃO CARLOS ESPADA     OBSERVADOR   22.05.17 Em boa parte, as recentes críticas académicas e políticas à democracia são expressão de um fenómeno comum: a perda de memória sobre a tradição ocidental da liberdade sob a lei. Pode ser apenas coincidência, mas vários obras académicas recentes têm vindo a pôr em causa o sistema e/ou a ideia democrática. Curiosamente também, umas criticam a democracia por ser demasiado “populista”, outras por ser demasiado “elitista”. Dá a impressão de que a dicotomia que tem dominado tantas batalhas eleitorais recentes — entre “populismo” e “elitismo” — chegou também aos (ou, quem sabe, partiu dos) seminários académicos. Against Democracy , de Jason Brennan (Princeton University Press) é um dos mais famosos títulos recentes. O autor passa em revista décadas de estudos empíricos sobre como as pessoas comuns pensam e decidem sobre política. E conclui que todos eles revelam que as pessoas escolhem e decidem na base de uma enorme ignorâ...

Trump e o resgatar do Liberalismo (*)

PEDRO NORTON    WWW.ESCREVERETRISTE.COM   18.02.17 Anda para aí uma grande confusão sobre a legitimidade de Trump e dos seus atropelos a muitos dos valores fundamentais das nossas sociedades ocidentais. Não quero dar lições de ciência política a ninguém mas permitam-me que tente contribuir para este debate tentando clarificar duas ideias geradoras de grandes equívocos:  Democracia e Liberalismo . Embora estes dois conceitos tendam, nas nossas sociedades ocidentais, a concretizar-se, na praxis política, de forma complementar (por isso falamos em regimes demo-liberais) a verdade é que cada um deles fornece uma resposta diferente a uma pergunta diferente. A Democracia responde a uma pergunta tão simples quanto antiga: Quem deve governar? E responde de forma inequívoca: a colectividade dos cidadãos, o povo. O povo (defini-lo historicamente dava pano para mangas e para outra história) é a única fonte de soberania admissível em democracia. Pode governar de forma diret...

Inveja e democracia

José Manuel Moreira, Professor Universitário Jornal Económico 20160930 Quem trabalha e gera empregos é opressor e parasita, já os verdadeiros parasitas, são vítimas.  Já quase tudo se disse sobre o “Temos de perder a vergonha e ir buscar a quem está a acumular dinheiro”, os aplausos e o repto de Mariana: “Cabe ao PS, se quer pensar as desigualdades, dizer o que acha deste sistema capitalista e encontrar alternativa”. Apelo que ganhou vida nova com a definição marxista de Costa de uma sociedade decente. Mas, mais que o regresso ao ódio de classes e aos tempos de vivência leninista na casa paterna, importa ir além das justificações para o assalto ao património dos mais ricos ou à devassa de contas bancárias do cidadão comum. Recorde-se o não pagamento de IMI pelos partidos e a indignação face à quebra do sigilo bancário no caso do enriquecimento ilícito dos políticos. Uma classe com muitos licenciados em assalto fiscal e mestres na inversão de valores: quem...

Brasil: o que é uma democracia?

Rui Ramos Observador 2/9/2016 No Brasil, importa menos o que aconteceu, do que o modo como aconteceu. Dilma não foi derrubada na rua, por soldados ou manifestantes. Caiu onde devia, no Senado. É a diferença que faz a democracia. Como já se esperava, a presidente do Brasil foi deposta pelo senado. Toda a gente no Brasil tem opinião, mas parece que fora do Brasil também. O que aconteceu? Não, não foi o golpe de Estado de uma classe reaccionária contra um governo do povo e das minorias. Mas também não foi a rejeição pela parte sã do país de um governo demagógico e corrupto. Foi outra coisa: um realinhamento de forças nas câmaras legislativas, suscitado pela maior recessão económica das últimas décadas e pelo maior escândalo de corrupção de sempre. Que diz isso sobre a democracia no Brasil? O que importa neste caso não é o que aconteceu, mas o modo como aconteceu. Dilma Rousseff não foi derrubada na rua, por soldados ou por manifestantes. Caiu onde devia cair, nas câmaras legi...

O BE não pactua é com democracias

Alberto Gonçalves DN 20160828  Por dever de ofício, inclinação natural ou gozo, os políticos sempre mentiram. A diferença é que antigamente a mentira implicava um esforço, alguma sofisticação, um esboço de enredo. No Portugal de hoje, atiram-se ao ar as mais descaradas e preguiçosas patranhas na esperança de que as pessoas as engulam. E o nível de exigência está tão baixo que a esperança é fundamentada e as pessoas engolem mesmo as patranhas. Segundo Catarina Martins, o BE não enviou um representante ao congresso do MPLA por "não pactuar com ditaduras". É preciso lata, mas também é preciso uma audiência particularmente anestesiada. Catarina, a Pequena, poderia justificar a ausência do partido dela em Luanda com o clima, o transtorno das viagens ou a aversão a mandioca: com a ditadura angolana é que não. Até é ridículo ter de lembrar a simpatia apaixonada do BE pela ditadura palestiniana, ou a simpatia assumida do BE pela ditadura venezuelana, ou a simpatia mal dis...

Democracia em bruto

João César das Neves DN 20160825  O sistema democrático norte-americano é impressionante. Não é preciso admirá-lo, ou sequer gostar dele para o achar impressionante. Uma coisa destas tinha de existir, mesmo que só para se verem as qualidades e os defeitos. Ela é impressionante quando funciona bem e quando funciona mal. Ambas as situações são visíveis nas eleições deste ano. A origem da turbulência é óbvia e genérica. As magnas perturbações do nosso tempo em termos geopolíticos, financeiros e tecnológicos criam descontentamento generalizado em todo o mundo desenvolvido. Incomodadas com as novidades, as populações favorecem o empolamento das forças extremistas, de direita ou de esquerda. O choque é comum, mas cada sociedade lida com ele à sua maneira. Nos EUA a questão adquire um alvoroço e uma profundidade únicos. A partir de agora, quando os dois candidatos se defrontam diante do povo, a situação segue o padrão normal. Mas nos longos meses das primárias, procedimento peculi...

Sobre a forma da democracia

POVO  22.07.16  Na  mensagem do Povo de ontem  dava conta da minha desilusão pela aprovação da lei das barrigas de aluguer.  O processo nesta quarta-feira teve dois tempos: a apresentação de um requerimento que a ser aprovado teria adiado a votação e permitido uma discussão mais alargada; caso o requerimento não fosse aprovado, o que, de facto, aconteceu, passar-se-ia à votação da proposta de lei com as alterações introduzidas pelo Bloco de Esquerda após o veto do Presidente da República.  Acrescentava que o requerimento tinha sido perdido por um voto e adicionava que a ausência na votação da presidente de CDS teria feito diferença. De facto, não fez, porque como me observou um amigo que comentou comigo o Povo de ontem, a votação foi por "bancada". O que é que isto quer dizer? Fui ver o  Regimento da Assembleia da República  e no artº 94 sobre a forma das votações aparece a votação por levantados e sentados em que " a Mesa apura os resu...