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A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: João Carlos Espada

Dois livros, dois destinos

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JOÃO CARLOS ESPADA       OBSERVADOR          08.01.2018 Dois livros recentes revelam dois destinos possíveis para o Ocidente: o tédio e a submissão, por um lado; a honra e a resistência, por outro. A escolha cabe a cada um de nós. Dois livros recentemente traduzidos entre nós merecem atenta reflexão. Eles exprimem dois entendimentos opostos, mas claramente coexistentes entre nós, da civilização ocidental e dos deveres opostos que esses entendimentos implicam. É difícil exagerar a importância do que está em causa. O primeiro livro é a edição portuguesa de  Submissão , do francês Michel Houellebecq. É um livro certamente corajoso (e muito bem traduzido), que retrata duramente a imaginária futura rendição da França (e, com ela, da Europa) ao fundamentalismo islâmico. O mais incrível, à primeira vista, é que essa rendição será efectuada por via eleitoral: todos os partidos ‘respeitáveis’ (do centro-direita à extrema-esquerda...

Livros para o Natal (I)

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JOÃO CARLOS ESPADA                 11.12.2017                     OBSERVADOR Três livros sobre a indispensável associação entre liberdade e sentido pessoal de dever. A minha primeira sugestão de livros para o Natal é  Virtude Política: Uma Análise das Qualidades e Talentos dos Governantes , de Pedro Rosa Ferro (Almedina, 2017). Trata-se de um livro importante sobre um tema muito importante: a virtude política. O autor detecta um paradoxo curioso nas nossas contemporâneas democracias liberais. Por um lado, é voz corrente a condenação da falta de virtude política nos detentores de cargos públicos (por vezes designados como ‘elites’). Por outro lado, a praça pública, ou o debate político público, encara com sérias reservas (para dizer o mínimo) qualquer referência ao conceito de virtude — embora lance simultaneamente sobre os políticos a suspeita permanente de não praticarem...

A tradição democrática sob fogo cruzado

JOÃO CARLOS ESPADA     OBSERVADOR   22.05.17 Em boa parte, as recentes críticas académicas e políticas à democracia são expressão de um fenómeno comum: a perda de memória sobre a tradição ocidental da liberdade sob a lei. Pode ser apenas coincidência, mas vários obras académicas recentes têm vindo a pôr em causa o sistema e/ou a ideia democrática. Curiosamente também, umas criticam a democracia por ser demasiado “populista”, outras por ser demasiado “elitista”. Dá a impressão de que a dicotomia que tem dominado tantas batalhas eleitorais recentes — entre “populismo” e “elitismo” — chegou também aos (ou, quem sabe, partiu dos) seminários académicos. Against Democracy , de Jason Brennan (Princeton University Press) é um dos mais famosos títulos recentes. O autor passa em revista décadas de estudos empíricos sobre como as pessoas comuns pensam e decidem sobre política. E conclui que todos eles revelam que as pessoas escolhem e decidem na base de uma enorme ignorâ...

América, Churchill e a "corrente de ouro"

JOÃO CARLOS ESPADA    23.01.17   OBSERVADOR Se a democracia americana tem sido capaz de assimilar tantas mudanças inesperadas, isso deve-se a um quadro de tradições estáveis — a Churchilliana “corrente de ouro” — que permite mudar sem destruir. Já tudo terá sido dito sobre a semana política que (felizmente já) passou. De certa forma, ela exprimiu alguns dos mais entediantes traços das modas culturais que nos rodeiam: o culto das celebridades e da vulgaridade daquilo que dizem energicamente; o culto da mudança radical e da inovação, da celebração do futuro em ruptura com o que alcançámos no passado; o culto do entusiasmo e da exaltação, por contraste com a serenidade, a cortesia e as boas maneiras. Isto, creio, é o que pode ser dito educadamente sobre o discurso de tomada de posse do Presidente Donald Trump. E é também o que pode ser dito educadamente sobre os discursos das celebridades (e das massas) que desfilaram contra ele em Washington (e não só) no sábad...

Fidel Castro, o 25 de Novembro e a opção ocidental

JOÃO CARLOS ESPADA   OBSERVADOR  28.11.2016 Na passada sexta-feira, dia 25 de Novembro, foi lançado em Lisboa o livro precisamente intitulado  O 25 de Novembro e a Democratização Portuguesa  (Gradiva, 2016). Sob a coordenação de António Barreto, João Salgueiro, Luís Valença Pinto, Manuel Braga da Cruz e Vasco Rocha Vieira, a obra foi apresentada por Jaime Gama e Manuel Braga da Cruz. Em boa verdade, a iniciativa assinalou bastante mais do que o lançamento de um livro. Culminou um vasto programa de iniciativas da sociedade civil (onze, com efeito) que tiveram lugar durante o ano passado para assinalar os 40 anos do 25 de Novembro de 1975. O livro agora publicado dá conta das comunicações apresentadas em todas essas iniciativas. Um primeiro conjunto de comunicações tinha já sido publicado pela revista  Nova Cidadania  (No. 58, Primavera de 2016). Por que motivo terão estado tantas pessoas envolvidas na evocação do 25 de Novembro — sem subsídios d...

António Costa cita Marx para definir sociedade decente?

João Carlos Espada Observador 26/9/2016 Não quero crer que o Primeiro-Ministro tenha querido dizer no Parlamento aquilo que a frase de Marx (que reproduziu quase literalmente) realmente quer dizer. Na semana passada, Portugal experimentou um invulgar e muito saudável sobressalto contra as inacreditáveis declarações autoritárias de Mariana Mortágua contra a liberdade e a propriedade privada — declarações particularmente graves por terem sido proferidas numa iniciativa do Partido Socialista. Entre os inúmeros excelentes artigos que alertaram para a gravidade dessas declarações, não posso deixar de destacar o da historiadora Fátima Bonifácio neste jornal. A autora certeiramente recordou o ódio contra a liberdade que se encontra na raiz do fanatismo igualitário. E certeiramente apontou a origem moderna desse ódio em Rousseau e, a seguir, nos seus discípulos da ala mais extrema da revolução francesa de 1789. Mas, ainda esta saudável polémica estava em curso, ocorreu uma outra...

Em defesa de Durão Barroso e do ideal europeu

João Carlos Espada Observador 19/9/2016 Numa velha democracia parlamentar, a tomada de posição de Juncker contra Durão Barroso teria merecido uma gargalhada geral e a sua convocação pelo Parlamento — onde o seu lugar estaria em sério risco. Já muito terá sido dito sobre o surpreendente ataque a José Manuel Durão Barroso pelo seu sucessor, Jean-Claude Juncker, e por outros responsáveis da União Europeia. Mas não creio que neste caso tenha sido dito o essencial. E — após estupefacção inicial — receio ter de concluir que o essencial possa ser bastante grave: bastante grave a respeito da debilidade das tradições e da cultura política de Bruxelas. Não vale a pena perder tempo com os detalhes. Mas vale a pena recordar a evidência empírica fundamental. Durão Barroso cumpriu todas as regras gerais até à data definidas pela União Europeia acerca da reforma dos membros da Comissão Europeia. Isso foi claramente reconhecido pelo sr. Juncker e por todos os que até agora se pronunciar...

Em defesa da democracia, contra o terrorismo

João Carlos Espada Observador 18/7/2016 A culpa do terrorismo não é nem da democracia nem da “oligarquia capitalista” ocidental; a culpa do terrorismo é dos terroristas. Por isso devemos unir-nos no combate contra eles. Tivemos na noite da passada quinta-feira mais um bárbaro atentado contra civis inocentes e desarmados em França. É mais um atentado reclamado pelo chamado Estado Islâmico. As democracias ocidentais reagiram prontamente, manifestando total solidariedade com as famílias das vítimas e com a democracia francesa. Mas, a seguir, ocorreram as tristemente habituais confusões politicamente correctas — à esquerda, sobretudo, mas também à direita. Foi dito, em regra à esquerda, que o terrorista neste caso não era um activista islâmico, mas apenas um dos muitos excluídos da oligarquia capitalista reinante em França e no Ocidente. E que era preciso evitar a “exploração” do atentado para exacerbar a oposição entre “nós e os outros”. À direita, em contrapartida, houve “argu...

Ainda sobre a convergência entre comunismo e fascismo

João Carlos Espada Observador 13/6/2016 Receio ter de recordar que não existe nada de novo na asserção de que são comuns as origens intelectuais do comunismo, do fascismo e, já agora, do nacional-socialismo nazi. Creio que deve ser bem-vindo o debate que tem ocorrido entre nós sobre a relação intelectual entre comunismo e fascismo. É um dos raros debates sobre teoria política que adquiriu alguma permanência na nossa comunicação social. Esta raridade pode ser preciosa. Mas é também seguramente muito reveladora. Um dos aspectos mais reveladores — e até certo ponto intrigantes — reside na surpresa, até indignação, de tantos comentadores perante a alegada “novidade”: como é possível “inventar” uma comum genealogia intelectual entre comunismo e fascismo? Na verdade, este tem sido o motivo principal da indignação: a hipótese de existir uma comum origem intelectual entre fascismo e comunismo (mais, com efeito, do que a questão bizarra de saber qual deles veio primeiro, se o ovo s...

Em defesa de um elitismo aberto e antiquado: gentlemanship

João Carlos Espada Observador 23/5/2016, 7:45176 Antes mesmo de conseguirmos identificar as origens do fenómeno populista, de esquerda e de direita, nós temos um dever: denunciá-lo. Na altura em que escrevo, não conheço ainda os resultados das eleições presidenciais de Domingo na Áustria. Mas, de certa forma, o resultado principal já é conhecido. Os candidatos em confronto são oriundos dos extremos, um ecologista à extrema-esquerda, um proto-fascista à extrema-direita (espero que ainda me seja permitido o privilégio elitista de não ter fixado, nem estar a planear fixar, os nomes dos personagens em causa). Por outras palavras, os candidatos do centro-esquerda e do centro-direita não chegaram á segunda volta. Isto é muito sério, qualquer que seja o vencedor. E o ponto crucial foi aqui identificado no Observador por José Manuel Fernandes num dos seus notáveis Macroscópios (que, infelizmente, não consigo depois encontrar no jornal): o centro está a ceder. O cen...

Ainda sobre a liberdade de educação – Liberalismo(s) versus tradição da liberdade ocidental

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João Carlos Espada Observador 16/5/2016 O ideal seria que alguém conseguisse explicar aos adeptos do “Ocidente racionalista” que podem praticar o seu culto à vontade — desde que não obriguem os outros a adoptar o culto deles. Tem continuado com muito interesse o debate promovido pelo Observador sobre a liberdade de educação e o que deverá ser considerada nesta matéria como a perspectiva liberal. Gostaria de sugerir um contributo, talvez um pouco heterodoxo. Consiste ele basicamente em argumentar que a tradição da liberdade ocidental inclui certamente o(s) liberalismo(s), mas inclui muito mais, incluindo disposições conservadoras, social-democratas e democratas-cristãs. O que certamente rejeita é a adopção pelo Estado de uma doutrina substantiva particular, seja ela designada de liberalismo, ou de laicismo, ou qualquer outro “ismo” particular. Nesta perspectiva, a tradição da liberdade ocidental é produto de uma longa e gradual conversação entre várias vozes ou várias tradiçõ...