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As rendas do descontentamento

RUI RAMOS   OBSERVADOR   02-06-17 O turismo urbano, ao mesmo tempo que está a gerar crescimento económico, está a inspirar frustrações sociais, ao tornar patente que este é um crescimento muito mais limitado do que no passado. Falemos de casa. Ou melhor: falemos de rendas. À primeira vista, pode parecer que voltámos ao “problema da habitação” dos anos 70 e 80. Mas não. A questão é muito diferente. Nos anos 80, o mercado de arrendamento tinha sido destruído e os subúrbios ainda não haviam começado a expandir-se com o crédito bancário. Hoje, casas não faltam. O que faltam são as casas que, de repente, muitos portugueses começaram a desejar: em Lisboa, um andar antigo na Graça, com vista para o Castelo, que pudessem alugar ou vender a turistas. Em Portugal, o novo “problema da habitação” surgiu como um efeito secundário do dilúvio turístico. A contaminação da margem sul do Mediterrâneo pelo terrorismo, os voos e alojamentos baratos e as novas tecnologias puseram Lisb...

Lisboa e os lisboetas expulsos

CATARINA FONSECA      fonsecaville.activa.sapo.pt      18.05.17 Um dia destes, vou deixar Lisboa. Não porque não goste, mas porque me obrigam. Lisboa tornou-se um sítio onde as pessoas não são bem vindas ( só os chineses com dinheiro, mas esses não contam). Lisboa está linda, arranjadinha, ai que belos passeios para ir com a família, mas qual família? Onde estão os lugares para estacionar os carros? Já não vivemos no século XIX: já não trabalhamos ao lado da nossa casa. É muito lindo dizer 'vão trabalhar de transportes', mas eu para chegar ao sítio onde trabalho preciso de apanhar quatro transportes. É lindo,  não é? À chegada a casa, demoro uma hora às voltas. Uma hora roubada à família, à minha vida, ao raio que o parta. Além disso, eu tenho direito a ter carro e tenho direito a ter onde estacioná-lo. Tão simples como isso. Quase que aposto que os senhores vereadores têm todos o seu lugarzinho de garagem.  Mas não. Nesta Lisboa tão verd...

Medina sonhava ser Napoleão

Sofia Vala Rocha SOL 13 de setembro 2016 A Segunda Circular pode ter sido o ‘general inverno’ de Fernando Medina A segunda Circular só foi uma surpresa para quem não conhece Fernando Medina. Foi apresentada como a ‘obra do regime’. Seria uma avenida de tipo francês, a imitar os Campos Elísios. Monumental, cheia de árvores. Teria um custo de 10 milhões de euros e iria revolucionar a grande área metropolitana de Lisboa. Intervenientes públicos qualificados mostraram dúvidas e reservas, mas isso não demoveu o presidente da Câmara de Lisboa. Esta semana, Medina recuou com o argumento pobre de que a culpa era do júri.  É a segunda vez que o executivo a que Fernando Medina preside – o PS coligado com o movimento político de Helena Roseta – tem uma derrota clamorosa. A primeira foram os terrenos da Feira Popular. Já os levaram à praça, em hasta pública, três vezes. Das três vezes, os responsáveis da CML fizeram declarações públicas a dizer que tinham muitos interessados. Ora os...

Medina fora de Lisboa já!

Corta-fitas João Távora, em 03.09.16 É evidente que Fernando Medina percebeu a tempo o risco que seria para as suas ambições avançar com as polémicas obras de requalificação da 2ª Circular e agora arranjou um subterfugio para recuar no seu desvario. Valeu-lhe o cálculo político, ao pressentir que trágicas consequências daquelas obras na já precária mobilidade da cidade poderiam comprometer a sua eleição para a câmara. Valeu-lhe certamente a experiencia dos trabalhos no eixo central que por estes dias tornam a circulação na capital uma tortura para os lisboetas e visitantes, sem escapatória. O que é para mim evidente é que Fernando Medina não conhece, não sente, não gosta de Lisboa. Só se preocupa com os lisboetas na medida em que estes se tornem um trampolim para a sua carreira profissional. Acontece que fazer política exige uma mistura assisada de razão e paixão – a Fernando Medina faltam-lhe as duas coisas. Ele fazia um enorme favor à minha cidade e aos meus conterrâneos se re...

Preservar a Praça do Império é defender a Portugalidade

Para:  Assembleia Municipal de Lisboa A Nova Portugalidade, grupo de cidadãos que visa o estudo, promoção e defesa do património material e espiritual da Portugalidade, lastima a decisão, anunciada ontem por diversos órgãos de comunicação social, de remover da Praça do Império o conjunto de brasões florais que presentemente a adornam. A Câmara Municipal de Lisboa, iniciadora do processo, fá-lo precipitadamente, pois não podemos – não no-lo permitiria a fé que temos nessa alta instituição - crer que o faça por preconceito ideológico e em atentado à nossa memória colectiva. Parece claro, contudo, que a decisão obedece à visão, aliás conhecida e insistentemente difundida, de importantes responsáveis camarários para o local. Ora, os canteiros alusivos às antigas províncias portuguesas do ultramar não são marca de anacronismo, mas dessa história que a Praça evoca e deve celebrar. Os canteiros floridos da Praça do Império são, pese embora o desprezo que lhes parecem votar alguns esp...

Os ciclos eleitorais e as obras em Lisboa

Helena Garrido Observador 14/7/2016 Obras pelo país quando se aproximam as autárquicas é algo que todos já conhecemos. Nas democracias desenvolvidas esta gestão política tem cada vez menos efeitos. Porque há regras e responsabilização. A cidade de Lisboa está em obras. Na avenida Infante Dom Henrique, perto do Parque das Nações, na 24 de Julho, na zona do Campo das Cebolas, no Cais do Sodré, no eixo central que vai do Marquês de Pombal a Entrecampos assim como em algumas ruas laterais. E aguardam-se para breve as obras na Segunda Circular. Nem quando se fez o túnel do Marquês nem quando o Terreiro do Paço esteve durante anos em obras se assistiu a um número tão elevado de obras na cidade, todas ao mesmo tempo. Todas as cidades precisam obviamente de ser modernizadas e adaptadas a novos hábitos. Mesmo que algumas obras nos pareçam incompreensíveis, nomeadamente porque há casos em que só vemos lancis, a Câmara Municipal de Lisboa saberá com certeza o que está a fazer. Terá c...

Quem paga os autocarros da CGTP?

JOÃO MIGUEL TAVARES Público 14/07/2016 O colinho do Estado, de facto, é muito vasto e atraente – e dá para todos. A 10 de Novembro de 2015 caiu o segundo governo de Pedro Passos Coelho, 11 dias após ter tomado posse. Nessa tarde, em frente ao Parlamento, uma vasta manifestação da CGTP celebrou o acontecimento, em nome da “rejeição das políticas de direita”. Tal manifestação mostrou uma CGTP felicíssima no seu papel de bengala sindical do PCP, aceitando servir de cenário à queda de um governo que nem sequer tinha começado a governar, e demonstrou a total falta de pudor com que os meios das autarquias são colocados ao serviço dos sindicatos amigos. Nesse dia, o DN dava conta de uma circular do Agrupamento de Escolas de Montemor-o-Novo onde os pais eram informados que nem o transporte escolar, nem o fornecimento de refeições, nem os prolongamentos de horário estavam assegurados na tarde de dia 10, já que a câmara dera dispensa aos funcionários do município para poderem ir à manif...

O vírus do faraó

João César das Neves DN 20160707 A situação económico-financeira de Portugal inclui um enigma. Será que o país não aprendeu nada com os erros da crise, repetindo as tolices de há dez anos? É evidente, e não apenas na retórica partidária, a trajectória que levará a uma recaída. A economia, mais do que a política, mostra o problema. As famílias poupam menos do que alguma vez pouparam e as empresas perdem capital. O crédito aos privados desce ininterruptamente desde Junho de 2011, mas em dois sectores o número de novos empréstimos tem subido há dois anos: habitação e consumo dos particulares. Os hábitos de gastos a crédito estão de regresso e, em certas dimensões, pior do que antes. Uma explicação simples é histórica: há 40 anos, o programa de ajustamento de 1978 com o FMI também não chegou e teve de haver outro em 1983. Ora, agora até os cinco anos de intervalo parecem repetir-se. Mas há uma diferença abissal: na altura foi um novo desastre, o choque do petróleo de 1979, que...

Mouraria ou Chinatown?

Maria João Marques Observador 8/6/2016 Já estamos em boa hora de começar a ver uma expropriação de propriedade privada como  o último recurso de qualquer problema. E de fazermos t-shirts com o slogan ‘nem mais um metro quadrado para a CML’. Fernando Medina – presidente da Câmara de Lisboa em punição por todos os pecados da capital – é o político socialista exemplar. ‘Inimigo dos automobilistas e voraz com os recursos dos lisboetas’ seria um bom mote para a sua campanha de 2017. Já muita gente escreveu sobre a mesquita que a CML entendeu por bem tomar as dores de construir e a hipocrisia flagrante de pretender defender o Estado laico radical, rasgando contratos de associação livremente estabelecidos pelo Estado para poupar as suscetíveis criancinhas à exposição ao ópio do povo por um lado, e, por outro, correr a substituir-se à comunidade islâmica na construção de uma mesquita. E se calhar atrás da mesquita vem a madrassa e a querida câmara socialista de Lisboa é bem ...

Uma mesquita na Mouraria

JOÃO MIGUEL TAVARES Público 26/05/2016 - 07:49 A laicidade não diz respeito apenas ao catolicismo, pois não? A primeira notícia que li sobre o assunto saiu no PÚBLICO do passado dia 18, mas a desatenção é minha: em Outubro de 2015 já vários jornais haviam dado conta da intenção da Câmara de Lisboa em construir uma nova mesquita na Mouraria. Deixem-me sublinhar logo à cabeça, que é para não pensarem que receio a infiltração do Daesh na Baixa de Lisboa, que nada me move contra mesquitas. Aliás, se há sítio onde faz sentido construí-las é na Mouraria, como o próprio nome indica. A minha questão é muito mais comezinha, e não tem nada a ver com o papão do terrorismo islâmico. Ela resume-se a duas breves palavras e um ponto de interrogação: quem paga? A notícia do PÚBLICO centrava-se em António Barroso, proprietário de dois edifícios que a câmara decidiu expropriar e demolir para a construção da mesquita e requalificação da Praça da Mouraria. António Barroso quer mais dinheiro pel...