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Os cidadãos e a gramática

MARIA REGINA ROCHA Público 04/05/2016 Talvez não tenha sido muito feliz a criação do termo “igualdade de género”, pois as pessoas não são palavras, sendo mais adequada a expressão “igualdade de direitos, deveres e garantias entre sexos”, e, quanto ao “Cartão de Cidadão”, esta designação naturalmente que engloba todo e qualquer cidadão. Recentemente, tem sido objecto de discussão a denominação do Cartão de Cidadão, documento por meio do qual, em Portugal, se procede à identificação das pessoas, verificando-se em diversos artigos, e invocando-se a “igualdade de género”, alguma confusão entre sexo e género, pelo que talvez valha a pena distinguir estes dois conceitos e explicar como funciona a língua portuguesa (e respectiva gramática) no que diz respeito à designação dos seres e das pessoas em geral. Como ponto prévio, convém referir que o signo linguístico é arbitrário, o que significa, genericamente, que a designação de um determinado objecto, ser, fenómeno, etc., obedece a ...

Esquecer o nome dos bois

Raquel Abecasis RR online 21 Abr, 2016 Chamar gestação de substituição às barrigas de aluguer faz parte de uma estratégia em que a semântica tem um papel determinante. O Parlamento está a tentar legislar sobre a gestação de substituição. Gestação de substituição? O que é isso? Não sabe? Eu explico: é aquilo que é vulgarmente conhecido por barrigas de aluguer. Mas então, pergunta-se: porquê dar um nome complicado a uma coisa que tem uma designação simples? Faz parte de uma estratégia em que a questão semântica tem um papel determinante, ao ponto de chegamos ao ridículo de ter um ministro a embarcar na proposta do Bloco de Esquerda de alterar a designação de Cartão de Cidadão para Cartão de Cidadania. É que as mulheres estavam ofendidas porque cidadão é masculino. É ridículo, mas não inocente, porque não há nada que melhor defina o que as coisas são do que a forma como falamos delas e a nova linguagem que nos está a ser imposta em nome de uma alegada conquista de dir...

O sexo das palavras

NUNO PACHECO Público 22/04/2016 Se o ridículo matasse, Portugal estava constantemente pejado de cadáveres. Não bastava a tolice do acordo ortográfico, tolice aliás que o Bloco de Esquerda abraça estoicamente, voltámos agora à mais tola e inútil das cruzadas: a da chamada “linguagem inclusiva”; o contrário da linguagem “sexista” e “discriminatória” onde se diz pais, irmãos, avós, primos, etc. Tudo discriminatório, naturalmente. Ora foi com base em tal pressuposto que, num momento de particular inspiração, o BE propôs que o Cartão de Cidadão passe a chamar-se Cartão de Cidadania. Talvez porque Cartão de Cidadão e Cidadã fosse demasiado comprido. Ricardo Araújo Pereira, no Governo Sombra, já caricaturou devidamente esta paranóia correctiva. Disse ele, imaginando um discurso bloquista: “Portugueses e portuguesas, estamos aqui reunidos e reunidas porque estamos todos e todas preocupados e preocupadas com a questão dos desempregados e desempregadas”. Pois. Mas mesmo assim não chegava. E...

A insustentável leveza da Língua Portuguesa

Paulo de Almeida Sande Observador 15/3/2016 Ora sendo a língua portuguesa a pátria de nós todos, como quis o desassossegado Soares, que dizer dos homens públicos de todos os quadrantes que a usam descuidadamente ou com ignorância? “Morde a língua, rapaz, morde a língua”. Recordo esta expressão do meu professor de português da (então) escola primária, nuns idos há muito idos, de cada vez que algum de nós, jovens cábulas, proferíamos aquilo a que ele chamava “uma calinada”. Recordo o pavor que me provocava o sentido literal da frase, o único que entendia, antecipando a dor provocada pelos meus próprios dentes espetados na minha língua indefesa. E cuidava por isso com especial cuidado em evitar erros de português, fáceis de cometer por quem só há cerca de nove anos começara a manejar a fala, o mais essencial dos instrumentos, usando um idioma que evolui desde os seus primórdios latinos, há mais de dois mil anos. “Morde a língua”: chegava a passar horas agarrado à gramática e ao...

Géneros e feitios

ANTÓNIO BAGÃO FÉLIX Público 09/03/2016 Pela pena de Miguel Esteves Cardoso (MEC) relançou-se um curioso debate sobre o uso da expressão “portugueses e portuguesas” como alguns políticos gostam de dizer em vez de apenas “portugueses”. No seu texto, MEC escreve: “Como somos todos portugueses quando alguém fala em ‘portugueses e portuguesas’ está a falar duas vezes das mulheres portuguesas. As mulheres estão obviamente incluídas nos portugueses. Mas, ao falar singularmente das portuguesas, está-se propositadamente a excluir os homens, como se as mulheres fossem portugueses de primeiro (ou de segundo, tanto faz) grau”. Depois, pude ler interessantes dissertações críticas do texto de MEC. Uma delas é-nos dada por Edite Estrela: “A história da língua portuguesa pode ajudar a perceber a prevalência das desinências masculinas sobre as femininas. O português foi-se transformando a partir do latim vulgar, que possuía os géneros masculino, feminino e neutro. Os idiomas vindos do latim sup...

Portugal aos ais

NUNO PACHECO Público 04/03/2016 - 00:30 “Concursais”, “societais”, “vivenciais” e outras que tais Não, não tem qualquer relação com a dívida pública. Tem que ver, isso sim, com a mania de escrever palavras como "procedimentais", "concursais", "societais", "vivenciais" e outras que tais. Não se sabe se quem as inventou quer mostrar erudição ou apenas irritar o parceiro. Por exemplo: concurso é o acto de concorrer, toda a gente sabe e os dicionários confirmam. No entanto, como concurso era demasiado simples, inventaram uma coisa chamada "procedimento concursal". E até invocam a Constituição, vejam lá! Na portaria n.º 83-A/2009 escreve-se: "O procedimento concursal para ocupação de postos de trabalho, constitucionalmente exigido..." No entanto, na Constituição apenas se fala de acesso à função pública "por via de concurso" (art.º 47.º), seja ele "concurso curricular" (art.º 215.º), na magistratura, ou...

Pobre Língua

Causa Nossa , 27.02.2016 Publicado por  Vital Moreira Compartilho da indignação que vi numa página de Facebook acerca dos frequentes erros grosseiros de Português no discurso de governantes, incluindo ministros, e outros responsáveis públicos (quase todos com cursos superiores). É inadmissível ouvir dizer, por exemplo, "intervIU" em vez de "intervEIO", "havIAM pessoas" em vez de "havIA pessoas", "ir DE encontro a" em vez "ir AO encontro de", "acÓrdos" em vez de "acÔrdos", "compeTIvidade" em vez de "compeTITIvidade", "MELHOR colocado" em vez de "MAIS BEM colocado", "AONDE estás" em vez de "ONDE estás", etc. Isto sem falar dos tratos de polé da pronúncia típica do lisboês vulgar ( que já ilustrei aqui )... Um verdadeira  carnificina do Português , com erros que dariam lugar a palmatória na escola primária de há umas décadas. Quando é que se res...