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Já não se pode dizer “Boa!”

Lucy Pepper Observador 3/1/2016 Com as suas piadas, taxistas e empregados de café estão a limitar o uso da língua portuguesa. Já não se pode usar o condicional num pedido. Agora, é a vez da exclamação "boa!" desaparecer. Há uns dias, apanhei um táxi e quando chegámos ao destino, um sítio onde era difícil parar, o taxista mostrou a sua perícia e conseguiu deixar-me quase em frente da porta. “Boa!”, exclamei, mas já não tive tempo de dizer “obrigada”. “Ah!”, interrompeu-me o taxista, “já não se pode dizer BOA… AHAHAHAH!” Olhei para ele durante um momento, sem perceber nada, até me lembrar que aquele era o dia em que a lei do piropo entrava em vigor. “Ah, sim, pois… “, respondi, sem demasiado entusiasmo “…suponho que já não podemos…pois …” Como é costume em Portugal quando alguém conta uma piada, ele teve de a repetir, e ficar a rir-se por mim, enquanto eu tentava pagar-lhe a corrida, receber o troco e continuar com a minha vida (um dia, alguém me há-de explicar...

Nós todos somos os relações públicas dos terroristas

Lucy Pepper Observador 15/11/2015 Hoje, quando acontece uma atrocidade, as reações tornam-se parte do evento. E as redes sociais são utilizadas por nós todos para fazermos a nossa parte do trabalho dos terroristas. Há dez anos que fazemos isto, correndo à internet para nos exprimirmos logo que acontecem atrocidades. Não podemos conter-nos. Não me lembro como era nos tempos pré-internet, quando acontecia um atentado terrorista. E houve muitos. Pareciam menos reais? Menos horrorosos? Menos bárbaros? Com os muitos sequestros, bombas em bares e hotéis – será que nesses tempos tínhamos menos opiniões? Ligávamos menos a essas coisas? Tínhamos de esperar pelo telejornal da noite para ver umas imagens pouco nítidas dos acontecimentos. Não tínhamos grande audiência para o nosso ultraje, além das nossas famílias diretas, companheiros de café ou colegas de escritório, numa pausa do trabalho. Hoje, quando acontece uma atrocidade, as reações tornam-se parte do evento. Os canais d...

Afinal, Portugal existe mesmo.

Lucy Pepper | Observador | 2013.04.05 Há muitos portugueses a fazer coisas importantes, aqui e lá fora. Nos negócios, na ciência, nas artes. Será que têm de viver até aos 106 anos para merecerem uma menção na imprensa internacional? Não é frequente Portugal ser notado no resto do mundo, a não ser como aquele país que actualmente tem um pouco menos de problemas financeiros do que a Grécia. É verdade que aparecem agora uns artigos nas secções de viagens dos jornais a proclamar as novas virtudes de uma “fashionable” Lisboa, mas quase nenhuma palavra sobre qualquer outra coisa portuguesa. As vezes, ajudo uma amiga que guia turistas em Lisboa, quando lhe acontece ter um grupo demasiado grande, não vá ela perder um turista pelo caminho. Tento sempre explicar um bocadinho de história, enquanto passamos pela Câmara Municipal, pelo Terreiro do Paço, ou pelo Largo do Carmo. E sim, preocupo-me em acertar nas datas. Mencionei um dia que um rei tinha sido assassinado no Terreiro do Paço....

Os especialistas

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Lucy Pepper OBSERVADOR | 19/10/2014 Há Especialistas em qualquer ramo: médicos, enfermeiros, recepcionistas, veterinários, advogados, professores, vinicultores, maquilhadores, jornalistas, cozinheiros, lojistas, baristas, psicólogos... Estamos a ver televisão, e de repente aparece o Especialista. O Especialista tem algo para nos contar e está a ser entrevistado por um jornalista ou apresentador. Não fala de astrofísica, mas de um assunto mais quotidiano, como o tempo, um problema de saúde, as necessidades educativas de uma criança de sete anos, o modo de aplicar maquilhagem, bolos reis — esse tipo de coisas. O Especialista entrevistado pode ser meteorologista, médico, farmacêutico, assistente de loja, padeiro ou ter outra qualquer "especialidade", mas seja esta qual for, o Especialista faz sempre uma coisa que me põe doida: fala connosco como se fôssemos crianças. O Especialista descreve-nos o problema, a ideia, o desafio ou o bolo como se nunca tivéssemo...