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Ulisses não volta a Ítaca

Miguel Sousa Tavares Expresso 2016.05.24 António Costa voltou de Bruxelas aliviado e satisfeito por ter ganho mais dois meses de suspensão de sanções pelo défice excessivo de 2015. Provavelmente ganhou até um ano de adiamento, sendo 2016 em definitivo o ano do “ou vai ou racha”. E vai? Ou racha? Ninguém sabe ao certo, nem o próprio António Costa. No planeta feliz em que ele vive, a previsão do défice para este ano é de 2,2%, mas, mesmo acreditando que não nos vai aparecer mais um Banif pela frente, já será uma sorte se conseguirmos ficar abaixo do limiar fatal dos 3%, que nunca conseguimos. Até porque não faltam outras oportunidades “extraordinárias” para derraparmos: a conta da resolução do Novo Banco, a capitalização da Caixa, a conta da TAP e da reversão das privatizações nos transportes metropolitanos de Lisboa e Porto.  Mas tudo a seu tempo. Costa já mostrou que é um notável malabarista, capaz de dançar sobre um fio de arame e um fosso de leões. Caminha por pequenos p...

Voltemos ao fado

Miguel Sousa Tavares, Expresso, 20160130 Na manhã seguinte a ter sido eleito, Marcelo Rebelo de Sousa revelou já ter 1800 SMS de felicitações no seu telemóvel. Isso significa que há, pelo menos, 1800 felizardos que tinham o número de telefone privado do candidato. Eu julgo que não haverá nem 180 que tenham o meu e, se houvesse, ficaria preocupado: corria o risco de me confundirem com o Miguel Relvas ou de me tomarem por candidato à Junta de Freguesia. Mas não tiremos o mérito a Marcelo: foi das mais brilhantes, inteligentes e minuciosas campanhas para se fazer eleito a que já assisti. É claro que tudo seria diferente se Guterres tem ido a jogo, mas Marcelo não é responsável por quem não estava e limitou-se a tratar dos que estavam ou queriam estar, com uma subtileza e frieza de cálculo de verdadeiro mestre de xadrez. E os termos em que o fez garantem-lhe uma independência futura e uma liberdade de actuação de que nenhum Presidente antes dele beneficiou. Esse é o seu principal tru...

Ao fim e ao cabo

Miguel Sousa Tavares, Expresso, 20151024 Depois do que disse Cavaco Silva na quinta-feira, não me restam grandes dúvidas de que o Presidente não dará posse a um governo de esquerda que António Costa lhe venha a apresentar. Mas isso não vai obstar a que António Costa se junte ao Bloco e ao PCP para chumbar à partida um governo PSD/CDS. E tudo indica que o fará sem, simultaneamente, revelar as linhas finais do acordo que terá estabelecido para um governo alternativo de todas as esquerdas chefiado por ele. A ideia veiculada na imprensa é a de que Costa não pretende desviar as atenções da discussão sobre o programa da coligação, misturando-a com a discussão sobre o seu próprio programa alternativo. É legítimo e faz sentido: eu quero ouvir primeiro os fundamentos do PS para recusar a viabilização de um governo de centro-direita, com concessões feitas ao PS, para depois comparar com um eventual programa de governo da esquerda. E vai ser curioso fazê-lo, porque, ou muito me engano, ou o ...

Greve dos Professores

Miguel Sousa Tavares in Expresso 2013-06-15 (artigo integral sem qualquer tipo de alterações, cortes, highlights ou comentários) A minha entrada no ensino foi feita numa pequeníssima aldeia rural do norte. Éramos uns 80 alunos, da 1ª à 4ª classe, todos juntos na mesma e única sala de aula da escola - que não me lembro se tinha ou não casas-de-banho, mas sei que não tinha qualquer espécie de aquecimento contra o frio granítico, de Novembro a Março, que nos colava às carteiras duplas, petrificados como estalactites. Lembro-me de que o "recreio" era  apenas um pequeno espaço plano, enlameado no Inverno, e onde jogávamos futebol com uma bola feita de meias velhas e balizas marcadas com pedras. A escola não tinha um vigilante, um porteiro, uma secretária administrativa. Ninguém mais do que a D. Constança, a professora que, sozinha, desempenhava todas essas tarefas e ainda ensinava os rios do Ultramar aos da 4ª classe, a história pátria aos da 3ª, as fracções aos da 2ª, e as ...