Yes, minister!

Guilherme Valente, Expresso, 2016.02.13

Editor da Gradiva questiona as opções do atual ministro da Educação, que decidiu acabar com os exames no fim do ano letivo 

De biologia, o ministro deve saber muito. Do resto, que é tudo, duvido que saiba grande coisa. A educação deve recorrer à Ciência, mas não se reduz à Ciência, tal como a vida. E a Ciência não propõe o que ele está a fazer. Os atos não revelam espírito científico. A que ciência foi buscar a ideia da inconveniência universal dos exames? 
Lembro-lhe a asserção de Marx, “análise concreta da situação concreta”. Na Finlândia, Japão e confuciana Coreia, onde a educação é vivida como uma religião, não são necessários muitos exames. 
Em Portugal, sem exames poucos estudam, menos se ensina, muitos pais deixam de acompanhar o estudo dos filhos. 
Os exames não são para “chumbar”. Conjugados com outras medidas, são para que haja cada vez mais alunos a transitarem sabendo. 
E bastaram três anos para que o resultado se visse: “Chumbos e desistências tiveram queda generalizada no último ano letivo”, (“Público”, 1/7/2015)! 
Perante esta prova dos factos o que faria um ministro animado pelo espírito científico? Aperfeiçoaria o que resultou, prosseguiria no caminho que a realidade provou acertado. 
Fez o contrário. Liquidou sumariamente tudo. Cegueira ideológica? Ou submissão ao projeto, desesperado, do quanto pior melhor? 
Foi a brincar, sem exames, que o ministro entrou em Cambridge? 
O consenso atual na educação, informado pelas ciências, é explorar, sem dogmatismo, o melhor de cada uma das várias teorias e práticas, aperfeiçoando as soluções que se revelarem mais fecundas. Exceção para o facilitismo, repudiado universalmente. Como sublinha S. Dehaene, investigador nas ciências cognitivas, verificou-se que uma exigência forte no início é benéfica para a criança. Logo no pré-escolar, onde as desigualdades devem começar a ser enfrentadas. E as crianças gostam desse desafio, e da recompensa da avaliação. A aquisição precoce de certos automatismos, na língua como na aritmética, permite libertar o cérebro para a compreensão do texto e para outras aprendizagens na matemática. Há na Europa escolas experimentais, públicas e privadas, onde as crianças já sabem ler aos quatro anos. E outras em que terminam o 4.º ano sabendo a gramática e aritmética do ciclo seguinte. 
Num exame de Matemática, uma catedrática de Coimbra começou a ouvir um sussurro na aula. Estariam a copiar? Aproximou-se e viu, atónita, que os alunos... soletravam o enunciado dos problemas! Sabe o ministro de quem é o primeiro registo confirmado de uma leitura mental? Santo Agostinho, quando observou Santo Ambrósio a percorrer com os olhos um texto... sem falar (ano 384)! 
A deficiência na leitura comprometia todo o percurso escolar. Por isso era vital um exame no 4.º ano. Em breve se verá o resultado da sua liquidação... 
No secundário a mudança deve passar por se personalizarem os percursos, para promover o melhor de cada aluno. Um secundário comum que escolarize todos, mas ofereça diversidade de percursos, que tenha em conta a variedade dos interesses, as potencialidades de cada um. Exatamente o contrário do que o ministro veio para fazer. Com o resultado no abandono escolar que se verá em breve
Na chegada a Portugal, as teorias a que chamámos eduquês apresentaram-se como novas. Não o eram. 40 anos depois são ainda mais velhas! E também entre nós foram uma experiência devastadora. 
No delírio ideológico de tornar todos iguais, cavaram um fosso maior entre os mais favorecidos e os outros. Exigência e sucesso para o ensino privado, facilitismo e miséria para o público. Grande esquerda! 
Pois são essas ideias decrépitas, fechadas à realidade e aos avanços da ciência, combatidas em todo o mundo, que o ministro terá sido encarregado de pôr de novo à solta. 
  1. Jean-Michel Blanquer, “L’école et la Vie”, Odyle Jacob, 2015 
  2. No último ano de Sócrates, 28,3%. No primeiro de Passos Coelho, 23%. Em 2014, 17,4%. Meta europeia, 10% para 2020. Saberemos em breve a percentagem em que Crato o deixou
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