Porque sofrem as mães, e os pais nem tanto?

Inês Teotónio Pereira
ionline, 2016.02.16

Eles só sofrem quando tem mesmo de ser, não fazem telenovelas do assunto, não vão para o café carpir com os amigos e muito menos escrevem sobre o assunto.

Uma mãe nasce para sofrer. Não faz mal nenhum, mas é mesmo assim. Nós sofremos imenso e nem sabemos porquê. Achamos que temos culpa de tudo e principalmente de tudo o que não depende diretamente de nós. Somos culpadas e sofremos verdadeiramente sempre que vamos ao médico com eles e que descobrimos que não tratámos devidamente a pele atópica, que não lhes damos todas as vitaminas, que os óculos estão riscados, que não lhes proporcionamos os desportos que eles merecem para crescerem saudáveis e ainda porque nos lembramos que um dia, há dois verões, não espalhámos protetor solar na nuca da criança.
Também somos culpadas e sofremos cada vez que um professor nos chama à escola. Vamos de cabeça baixa, carregadas de culpa e de dor, qual Egas Moniz de corda ao pescoço, ouvir que o menino anda atrevido na aulas, não faz os trabalhos todos, tem uma letra impercetível e, claro, não trabalha o suficiente em casa. Tudo culpa nossa, mesmo que o professor não ache. Depois sentimo-nos culpadas quando o bebé espirra porque não lhe vestimos o casaco há dois dias, quando até estava sol, ou quando o menino se queixa por não ter um cão e a culpa é nossa por não estarmos a criar todas as condições para ele ter uma infância parecida com as crianças d’Os Cinco. Isto dói. Também nos sentimos culpadas e sofridas porque somos muito exigentes numas coisas mas, por outro lado, sofremos porque somos moles noutras coisas e assim não os estamos a preparar convenientemente para a vida.
Mas o pior sofrimento de todos é quando eles sofrem. Quando os nossos meninos sofrem é verdadeiramente o fim do mundo. E a culpa, claro, só pode ser nossa. Pelo que não fizemos para evitar o sofrimento ou pelo que fizemos provocando sofrimento – como seja fazer uma sopa de legumes não passada. Uma mãe até sofre porque não consegue dar de mamar e enche-se de culpa por isso, tal como sofre porque adormece a ler histórias, porque não gosta de brincar com legos ou porque está mais vezes cansada do que não. Sofremos de remorsos por tudo isto mais do que um criminoso de guerra arrependido.
Depois, no fim do dia, vamos para a cama e, no silêncio da almofada, prometemos que amanhã será diferente, que a partir de amanhã seremos melhores mães e teremos então menos razões para nos sentirmos culpadas e sofrermos. Fazemos isto 300 noites por ano e nas outras 65 adormecemos antes do arrependimento. Ser mãe é mesmo assim e não há psicólogo que nos cure. Viveremos com culpa e com culpa morreremos.
Já os pais é outra loiça. Os pais são objetivamente mais espertos. Eles só sofrem quando tem mesmo de ser, não fazem telenovelas do assunto, não vão para o café carpir com os amigos e muito menos escrevem sobre o assunto. Um pai sofre objetiva e concretamente. Ele sofre quando o filho é de outro clube que não o dele, quando descobre que o filho tem mais jeito para desenho do que para futebol, quando a criança não o deixa dormir à noite, quando percebe que vai passar o resto da vida a guiar carrinhas e, só na outra encarnação, descapotáveis, quando lhe comem as bananas ou roubam as meias, quando lhe vão à carteira e/ou aos cigarros, quando lhe limpam a conta bancária numas férias das quais ele sai arrasado, quando escorrega em brinquedos na casa de banho e, claro, quando o primeiro estupor adolescente envia o primeiro sms à sua filha e ela cora ou chora.
Um pai sofre, mas só sofre depois da mãe. Ele sabe que a mãe sofre muito melhor, que o filho, neste aspeto, está mais bem entregue ao sofrimento da mãe e que não vale a pena estarem o dois a competir pelo mesmo. Chama-se também a isto divisão de tarefas domésticas. Um pai só se preocupa verdadeiramente com a febre da criança se a mãe não se preocupar ou se a mãe não se preocupar o suficiente. Basta um sofrer e, sendo assim, que sofra o melhor. Ora, é um facto que as mães, nisto de sofrer, dão cartas há milhares de anos. E neste capítulo não há paridade possível.
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