Uma experiência de misericórdia

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada
Voz da Verdade, 2016.02.21

No passado dia 11, memória de Nossa Senhora de Lourdes, ocorreu mais um dia mundial do doente, efeméride que vivi, neste ano santo da misericórdia, com especial intensidade.
Com efeito, ainda não se cumpriram três meses sobre a data da minha entrada nas urgências do Hospital de São Francisco Xavier, por sinal no próprio dia da celebração litúrgica deste santo missionário. Só três semanas mais tarde, já nas vésperas do Natal, me foi dada alta do serviço de neurologia do Hospital de Egas Moniz, para onde entretanto tinha sido transferido. Seria despropositado referir aqui os pormenores clínicos que me obrigaram a vinte dias de internamento, mas talvez não seja descabido reafirmar o meu agradecimento a todos os médicos, enfermeiros e auxiliares que tão bem me trataram, nem partilhar o que essa experiência de misericórdia representou para quem nunca antes tinha estado hospitalizado.
Durante todo o período do internamento, embora ciente da gravidade da situação, nunca experimentei nenhum sentimento de revolta, de indignação, de tristeza, de ansiedade ou medo. Nunca questionei o porquê daquela situação, nem o ‘porquê eu’ ou o ‘porquê agora’. Nunca me senti só, mesmo quando os dias pareciam enfadonhos e as noites intermináveis. Nunca senti nostalgia do meu saudável passado, nunca amaldiçoei o sofrido presente, nunca receei o futuro incerto. Nunca me faltou a alegria, nem o bom humor.
Talvez possa parecer que esta reacção releva alguma imodéstia ou grave inconsciência. A certeza, contudo, de que nada do que então experimentei me é devido, permite-me afirmar que tudo foi graça de Deus, que actuou em mim através dos sacramentos da Unção dos Doentes e da Eucaristia, que pude receber diariamente, graças ao inexcedível zelo pastoral dos capelães do Hospital Egas Moniz, P. Edgar Clara e P. Bartolomeu Teixeira da Mota. Muito devo também à oração de inúmeros familiares e amigos e, em especial, a uma comunidade de irmãs carmelitas que, a pedido de várias pessoas, por mim rezaram especialmente.
Desde o primeiro dia fiz questão de me identificar como padre e, como tal, procurei agir também, sentindo desde o início a urgência de servir, com o meu ministério, as almas que, por razão daquela afinidade, eram então o meu próximo mais próximo. Foi muito gratificante poder consolar, ainda internado, outros doentes, bem como com eles partilhar, sobretudo com os mais sós, as pessoas que me vinham visitar e que para eles reencaminhava, bem como as guloseimas que me ofereciam. Com alguns dos hospitalizados falei demoradamente da fé e do sentido libertador do sofrimento, pude ensinar a rezar o terço e rezá-lo com um companheiro de quarto que nunca o fizera, oferecer um pequeno livro de orações habituais a um doente desejoso de regressar à piedade da sua longínqua infância, administrar o sacramento da Reconciliação e Penitência a quem dele há já muitos anos não se aproximava … Quanto apostolado se pode fazer de uma cama de hospital!
Não exagero se disser que a minha experiência hospitalar foi, sobretudo, uma grande graça. Experimentei a misericórdia de Deus: não vi anjos, não ouvi músicas celestiais nem vozes do outro mundo e, na realidade, não senti nada de especial. Mas, haverá algo mais extraordinário do que a ordinária providência divina?! Ou algo mais consolador do que os sacramentos, sobretudo a inefável presença eucarística de Jesus?! Algum maior conforto do que a certeza da infinita misericórdia de Deus?! Algum melhor consolo do que o da oração de tantas pessoas que me fizeram sentir, uma vez mais, que a Igreja é uma verdadeira comunhão de amor, uma autêntica família?!
Um olhar retrospectivo e só me ocorre agradecer a Deus por tantas graças recebidas e pedir perdão por não ter sabido corresponder: muitos outros cristãos, padres ou leigos, teriam decerto feito mais e melhor. Agora, que alguns olham com horror para o sofrimento humano e defendem a “morte assistida”, é com gratidão que recordo aquelas três semanas de internamento hospitalar, revendo tantas caras e tantas almas de que muito aprendi e que tanto me tocaram e que eu também, pela graça de Deus, toquei de algum modo.
Curiosamente, só agora me dou conta de um colossal esquecimento: em nenhum momento pedi por mim, ou pela minha saúde! Também isso agradeço a Jesus: foi porque Ele, através de sua Mãe e dos meus irmãos na fé, me tratou tão bem, que eu me pude dedicar aos outros. Deo gratias! 
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